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CAPÍTULO 8: A VERSÃO QUE ELE NÃO DEVERIA VER

Ele sentiu tudo de uma vez: a leveza quase frágil do ombro dela, a temperatura mais fria da pele em contraste com o calor que irradiava do seu próprio corpo, a ausência total de tensão muscular — como se ela não tivesse percebido o contato ou, pior, como se ele não representasse nenhuma ameaça. O perfume dela chegou logo depois, suave, quase medicinal, com um fundo limpo que não tinha nada de artificial.

Nyana se recompôs no mesmo instante, sem pressa, sem sobressalto, sem o menor sinal de desconforto. Endireitou a postura com precisão automática, como se o toque tivesse sido apenas uma interferência física qualquer, nada mais.

— Desculpe — disse ela, voz serena, sem baixeza, sem culpa. — A manobra foi inesperada.

Ela não corou. Não gaguejou. Não desviou o olhar.

Apenas voltou ao ponto neutro.

E foi exatamente isso que atingiu Araziel em cheio.

Ele não respondeu de imediato. A voz dela ainda ecoava baixa dentro do carro blindado, calma demais, controlada demais. O braço dele ainda formigava no ponto exato onde ela havia encostado, como se a pele dela tivesse deixado uma marca invisível. Um calor incômodo subiu pela nuca dele, misturado com irritação.

Como ela conseguia fazer aquilo?

Como conseguia tocar nele — mesmo que por acidente — e voltar ao estado de sempre, como se nada tivesse acontecido?

Ele apertou o maxilar, lutando contra a vontade quase primitiva de estender a mão e tocar o ombro dela novamente, só para ver se ela reagiria. Só para ver se conseguia tirar dela algo além daquela serenidade irritante.

— Continue — disse por fim, a voz mais baixa e rouca do que pretendia.

Nyana nem pareceu notar a mudança no tom.

Apenas assentiu e voltou a falar sobre os parâmetros do almoço, voz clara e profissional como sempre.

Mas dentro do carro, o ar havia mudado.

E Araziel, pela primeira vez naquele dia, sentiu que estava perdendo o controle de algo que nem sabia que queria controlar.

#

A sala privativa do restaurante era ampla, revestida de madeira escura, com iluminação baixa e isolamento acústico perfeito. Na mesa, três homens aguardavam — representantes da área de segurança federal. Dois mais velhos, com postura rígida e olhar treinado, experientes o suficiente para saber que, diante de alguém como Araziel Vael, cada palavra deveria ser medida com cuidado. O terceiro — mais jovem — tentava parecer igualmente profissional, mas não conseguia esconder a curiosidade inquieta que brilhava em seu olhar.

O nome no crachá improvisado era Ricardo Martins. Trinta e poucos anos. Analista tático. Ambicioso. E visivelmente ansioso para impressionar.

A porta abriu com o som suave da fechadura eletrônica. Araziel entrou primeiro. A sala se reorganizou instintivamente, como sempre acontecia quando ele aparecia. Os mais velhos se endireitaram na cadeira. Ricardo engoliu em seco.

— Senhor Vael — cumprimentou um dos mais velhos, apertando a mão dele com respeito contido.

— Vamos direto ao ponto — respondeu Araziel, sem rodeios.

Sentaram-se. O clima ficou pesado, profissional, técnico e seríssimo. Arquivos digitais foram abertos, protocolos discutidos e especificações listadas: drones, radares, softwares de predição, mapas urbanos de calor criminal. Tudo seguia o fluxo perfeito.

Até que a porta se abriu novamente.

E Nyana entrou.

Postura impecável, passos silenciosos, elegância sem intenção. Os óculos de sol discretos agora repousavam sobre a cabeça, já que a luz era baixa. O cabelo preso, o rosto neutro, o corpo organizado naquele tipo de precisão que não é exibida — é natural. Ela empurrava o carrinho de serviço com café, água e as pastas impressas que seriam distribuídas.

Os dois homens mais velhos a notaram — claro que notaram —, mas foram discretos. Um ajeitou a gravata. O outro simplesmente assentiu, quase sem olhar. Profissionais experientes.

Mas Ricardo…

Ricardo paralisou.

O olhar dele se abriu um pouco mais, traiçoeiro, revelando um tipo de surpresa que não pertencia àquele ambiente. O tipo de surpresa que carregava história por trás.

— N… Nyana? — escapou, baixo, mas perfeitamente audível.

Ela levantou os olhos apenas o suficiente. Neutra.

— Senhor Martins — respondeu, no mesmo tom profissional com que diria “bom dia”.

Araziel levantou o olhar devagar. Não foi dramático. Foi o tipo de movimento que um predador faz quando detecta algo errado no ambiente. Seus olhos foram de Nyana para Ricardo e voltaram para Nyana.

Ela colocou a xícara diante de cada convidado com precisão impecável.

— Café? Açúcar? — perguntou, sem qualquer adorno na voz.

Os dois mais velhos agradeceram, discretos.

Ricardo, no entanto, sorriu de um jeito que já dizia demais.

— Sempre tão… eficiente — comentou, tentando soar casual.

Nyana apenas assentiu, sem responder ao subtexto.

Mas Araziel ouviu o subtexto. E não gostou. Nada.

O jovem continuou falando quando não devia, a voz meio insegura, meio emocionada:

— Não esperava te ver aqui. Faz tempo… desde o porto, lembra? Você sumiu de lá de uma hora pra outra—

— Senhor Martins — interrompeu Araziel.

Frio. Baixo. Cortante.

Ricardo congelou. Nyana permaneceu imóvel.

Araziel apoiou o antebraço na mesa, olhando diretamente para o rapaz com um daqueles olhares que anulavam carreiras.

— Foco — disse, sem precisar elevar a voz.

Os dois mais velhos ficaram imóveis, silenciosos, quase aliviados por não serem o alvo. Ricardo empalideceu.

— S-sim, claro. Desculpe, senhor Vael.

— Ótimo.

E então — por um único instante, só um — Araziel voltou o olhar para Nyana. Ela apenas recolocava a jarra no carrinho, pronta para sair. Plena. Indiferente. Alheia ao caos que gerava.

A porta se fechou atrás dela.

O jovem analista, mesmo tentando disfarçar, não conseguia controlar o rubor que subia pelas orelhas. Os dois mais velhos o encararam como quem presencia um novato pisar num campo minado.

Araziel voltou ao laptop.

— Continuando — disse.

Mas a frieza da voz dele era glacial.

E todos na sala sabiam: o problema não era Nyana. Era o interesse de Ricardo. E o fato de que Araziel havia notado.

Isso reacendeu um incômodo que ele ainda não estava disposto a nomear.

***

A reunião estava chegando ao fim. Araziel havia fechado a pasta preta e os dois homens mais velhos dos órgãos de segurança se levantaram com aquela postura contida de quem sabe navegar ambientes de risco. Foram educados, profissionais e curtos nas palavras.

Ricardo levantou-se por último. O entusiasmo dele destoava discretamente do clima da sala.

Nyana entrou no momento exato, carregando uma bandeja com café extra. A presença dela — silenciosa, limpa e precisa — novamente chamou a atenção dos três, mas apenas Ricardo segurou o olhar por tempo demais. Os mais velhos desviaram rápido. Ele não.

Nyana colocou a bandeja sobre a mesa, serviu o café e começou a recolher as pastas impressas, sem apressar nem dramatizar nada. Profissionalismo absoluto.

E Ricardo… perdeu o timing. Deu dois passos na direção dela.

— Nyana? — disse, num tom baixo, mas não o suficiente para passar despercebido.

Ela ergueu os olhos por um instante. Nenhuma emoção. Nenhum incômodo.

— Senhor Martins — respondeu, apenas correta.

Araziel não se moveu imediatamente. Não precisava. Mas ouviu. E isso bastava.

Os dois homens mais velhos trocaram um olhar. Reconheceram a imprudência antes mesmo de ela se completar.

Ricardo ajeitou a pasta no braço, claramente nervoso, mas tentando parecer técnico.

— Eu… preciso alinhar um ponto específico do relatório tático com você — disse, com um sorriso que tentava ser profissional, mas forçava demais a neutralidade. — Você poderia me passar seu contato corporativo?

Nyana analisou a pergunta como se fosse um pedido de caixa postal. Literal, frio, objetivo.

— Claro — respondeu, e ditou o número com completa naturalidade. — Esse é o de uso interno.

Ricardo sorriu como alguém que conseguiu algo raro. Os mais velhos mantiveram o olhar preso à mesa.

E Araziel… sua primeira reação foi nenhuma. Ele apenas fechou a pasta, direita, exata, sem pressa, e colocou-a debaixo do braço. Só então olhou para Ricardo. Não havia dureza explícita, nem hostilidade, nem irritação visível. Havia apenas avaliação — a mesma avaliação que ele aplicaria a qualquer funcionário que tivesse cometido um deslize técnico.

— Martins — disse, com a voz baixa e controlada. — Questões operacionais passam pela minha equipe direta. Incluindo ela.

Era sutil. Profissional. Irrefutável.

Ricardo empalideceu um pouco.

— Sim, senhor. Desculpe, não quis—

— Está alinhado — cortou Araziel, sem dureza, apenas encerrando o assunto.

Nyana continuou recolhendo as pastas, como se nada tivesse acontecido. Nenhuma mudança de postura. Nenhum olhar curioso. Nenhum entendimento subentendido. Para ela, era apenas protocolo.

Para Ricardo, foi uma advertência gentil, mas firme. Para os dois mais velhos, foi um lembrete silencioso do tipo de hierarquia que Araziel mantinha.

Para Araziel… foi algo menor que uma irritação, mas maior que um detalhe. Um incômodo técnico. Nada mais. Ou pelo menos era o que ele dizia a si mesmo.

Após o encerramento, Nyana se aproximou com a bolsa em mãos.

— Podemos ir, senhor Vael? — perguntou ela, monótona.

— Sim — respondeu ele imediatamente, talvez rápido demais, mas ainda natural.

Saíram juntos. Nenhuma palavra. Nenhum comentário. Mas enquanto caminhavam até o corredor privativo, Araziel repassava mentalmente a cena: o jeito como Ricardo havia se aproximado, o sorriso excessivamente familiar, o tom que carregava história. “Ele não deveria ter se aproximado daquele jeito”, pensou, seco. A irritação era silenciosa, mas profunda. Ricardo não era apenas um analista. Era alguém que já tinha conhecido Nyana antes. Alguém que achava que tinha direito de chamá-la pelo primeiro nome na frente dele.

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