CAPÍTULO 6: SEM REAÇÃO

O trânsito paulista estava habitual — lento em alguns trechos, acelerado em outros — mas ela não se irritava. O movimento constante das luzes, das buzinas e das sombras que deslizavam pelo vidro era apenas fundo.

Nyana dirigia com uma economia de movimentos que poucos notavam. Acelerador suave, frenagem antecipada, mudanças de faixa calculadas com antecedência. No rádio, nenhuma música — apenas o ruído baixo do trânsito sendo transmitido, vozes distantes anunciando lentidão na Marginal e um acidente na zona sul. Ela ouvia sem escutar, o cérebro já reprogramando a rota por hábito.

No farol, um homem apressado cruzou fora da faixa, quase sendo atingido por um motoboy que buzinou em protesto. Nyana observou a cena com a mesma neutralidade com que lia um relatório: identificou o erro, registrou a ineficiência, descartou. Ali fora, o mundo operava com um nível de ruído e desorganização que ela tolerava apenas porque não precisava consertá-lo.

O semáforo abriu. Ela avançou.

Havia algo no ato de dirigir sozinha que a colocava num estado próximo ao vazio produtivo — nem relaxamento, nem tensão. Apenas execução. Uma tarefa clara, sem ambiguidade, com início e fim definidos. Talvez por isso ela nunca teria interesse em contratar um motorista, mesmo quando o salário já permitia. Dirigir era dela. O trajeto, o silêncio, o momento exato em que o portão do edifício se abria para recebê-la — tudo sob medida.

Quando finalmente estacionou no prédio onde morava, a rotina familiar a recebeu sem esforço.

O apartamento a acolheu com a mesma quietude de sempre.

Nyana entrou, fechou a porta devagar e acendeu apenas a luz lateral da sala — uma luminária simples, amarela, suficiente para iluminar sem agredir os olhos sensíveis. Tirou os sapatos na entrada, alinhou-os no tapete e pendurou o blazer no gancho discreto do corredor.

Antes de prosseguir, passou os dedos pela superfície fria da mesa de apoio. Limpa. Como ela havia deixado. Como tudo ali estava. O apartamento não era grande, mas cada canto respondia a uma lógica que só ela conhecia. Não precisava procurar nada. Nunca. Cada objeto estava exatamente onde deveria estar porque ela mesma o colocara ali, e ninguém mais tocava em nada.

Respirou fundo.

O cheiro do lugar — limpo, organizado, conhecido — a envolveu sem resistência.

Era pequeno, mas confortável. Um espaço construído com precisão, escolhido aos poucos, sem desperdício. Cada objeto tinha função. Cada centímetro, intenção.

Um lar conquistado sozinha.

Nyana foi até a cozinha, pegou a garrafa térmica e bebeu devagar. A pele ainda sentia o resquício do ar-condicionado do escritório — seco, constante, artificial demais.

Passou pelo banheiro apenas para um cuidado rápido, automático. Não era vaidade. Era manutenção. Um ajuste mínimo para manter o corpo funcional.

Nada além disso.

Voltou para a cozinha e abriu a geladeira.

Ali dentro não havia estética. Havia vida.

Os recipientes guardavam cores fortes, cheiros intensos, processos em andamento. O vermelho profundo do tofu apimentado, denso de pimenta e óleo; o kimchi fermentando lentamente, carregado de acidez e tempo; o arroz frio, pronto para ser transformado; o frango com gengibre, ainda impregnado de aroma quente; as pimentas frescas, pequenas e agressivas; e a lula apimentada que trouxera da Liberdade, ainda marcada pelo tempero.

Montou o prato sem cerimônia: uma camada de arroz frio, o frango desfiado por cima, o tofu em cubos ao lado, e o kimchi generoso, quase cobrindo tudo. Misturou com os hashis de madeira escura, os mesmos que comprara há anos na Liberdade, em uma banca que já não existia mais.

Sentou-se à mesa de vidro pequena, encostada na janela que dava para o movimento anônimo da rua. Lá embaixo, pessoas caminhavam com pressa, carros paravam e arrancavam, luzes piscavam. Nada daquilo a alcançava.

Começou a comer.

A cada garfada, o calor da pimenta subia devagar pela garganta, espalhando-se pelo peito e subindo até o rosto. A pele clara reagiu imediatamente: um rubor vivo, quase delicado, coloriu as bochechas, desceu pelo pescoço e tingiu o colo exposto pela camiseta larga. Os olhos claros ficaram mais brilhantes, úmidos pelo ardor. Ela não parava. Continuava levando a comida à boca com uma concentração tranquila, como se apreciasse cada nível de intensidade.

Havia um prazer nisso que ela não sentia em quase nenhum outro lugar. Não o prazer da indulgência — ela não comia por conforto emocional. Era um prazer de precisão. Ela gosta de encostar no próprio limite. Conhecer exatamente onde estava o limite entre o ardor que desperta e o ardor que queima, e pisar ali. Controlar a própria resposta. Sentir o corpo reagir e saber que, se quisesse, podia parar a qualquer momento. Mas não queria.

Ali, não havia rigidez. Não havia silêncio calculado. Não havia o controle absoluto do escritório.

Havia presença.

Quando terminou, lavou a louça imediatamente. Secou. Guardou. A cozinha voltou ao estado neutro de antes.

Ordem restaurada.

Ligou o notebook.

Abriu o arquivo de preparação e releu rapidamente. Não por dúvida — por confirmação. Depois criou um novo documento.

Primeiro Dia — Observações.

Escreveu de forma direta, sem adjetivos desnecessários, registrando apenas o que importava: padrões, comportamento, ritmo, estrutura.

As palavras saíam secas, cirúrgicas. Chegada: 6h12. Primeiro contato: 7h18. Tom de voz: neutro a distante. Solicitações: três, todas encaminhadas com clareza. Dois testes. Objeções: nenhuma aparente. Observação: não faz perguntas pessoais. Não oferece informações voluntárias.

Ela parou o cursor sobre a última linha.

Não escreveu o que realmente vira. Não registrou o modo como ele a observara quando ela entregou o relatório — um segundo a mais do que o necessário, os olhos escuros fixos nela com uma intensidade que não correspondia ao conteúdo do documento. Não anotou que, por um instante, o silêncio entre eles havia sido diferente.

Esses dados não eram úteis.

Apagou a linha antes de salvar.

O documento final ficou limpo. Funcional. Nada fora do lugar.

Nada pessoal. Nada interpretativo.

Quando terminou, releu uma vez, ajustou a formatação e salvou.

Era assim que sua mente operava. Registrar. Organizar. Antecipar.

Fechou o notebook.

O banho veio em seguida — morno, controlado, sem excessos. O suficiente para soltar a tensão leve acumulada no corpo. Nada além disso.

Quando saiu, prendeu o cabelo ainda úmido em uma trança solta, vestiu uma camiseta larga e se sentou na cama.

Pegou o celular.

Poucas notificações.

Uma mensagem.

Cassandra.

“E aí? Sobreviveu?”

Nyana observou a tela por um segundo a mais do que o necessário.

Digitou:

“Sim. Dia produtivo.”

Parou.

O cursor piscava.

Apagou.

Reescreveu:

"Sim. Tranquilo."

Enviou.

A resposta veio quase imediata.

"Tranquilo??? Isso vindo de você significa o quê? Ninguém morreu? Ou você já organizou a vida do cara?"

Nyana leu.

O canto da boca moveu um milímetro.

Quase um sorriso.

Digitou:

"Ambiente funcional."

Cassandra respondeu com uma enxurrada de emojis — fogo, lupa, um rosto com olhos arregalados.

"'Funcional' com chefe novo? Você nunca usa essa palavra. Tá escondendo coisa."

Nyana olhou para a tela. Cassandra conhecia os códigos dela melhor do que a maioria das pessoas. Talvez por isso ela hesitasse antes de responder.

"Amanhã tenho reunião às nove. Preciso dormir."

"Fugiu."

"Boa noite, Cass."

"Boa noite, robô. Me conta tudo amanhã."

Nyana bloqueou o celular.

Silêncio.

Apagou a luz e deitou-se.

A respiração desacelerou aos poucos, seguindo o ritmo conhecido do próprio corpo. No escuro do quarto, com o silêncio absoluto ao redor, o corpo finalmente relaxou contra o colchão. Antes que o sono chegasse, um sorriso discreto surgiu em seus lábios enquanto repassava mentalmente a agenda do dia seguinte. Respirou fundo e refletiu, com aquela satisfação quieta que só ela compreendia:

(O ritmo do dia hoje foi perfeito. Do jeito certo — sem atropelos, sem falhas. Quando tudo encaixa no lugar exato, fica mais fácil respirar. Amanhã o café estará pronto no horário, a agenda organizada, sem surpresas. Eu sei exatamente por onde começar. Amanhã farei tudo de novo. E farei melhor.)

Essa era a sua certeza máxima. O resto era irrelevante.

Mas havia algo mais. Algo que ela não nomearia, nem mesmo para si mesma.

A imagem do escritório voltou sem convite: a luz cortante da tarde, o perfil dele contra a janela, o instante preciso em que ele se virou e a olhou como se tentasse decifrar um sistema que não se encaixava em nenhum dos parâmetros que ele conhecia.

Nyana virou para o lado e afundou o rosto no travesseiro, como se pudesse afastar o pensamento com o gesto.

Irrelevante, repetiu para si mesma.

Fechou os olhos. E dormiu como sempre — sem sonhos, sem ruído, com a tranquilidade exata de quem construiu uma vida onde nada escapa do próprio controle.

#

Do outro lado da cidade, o carro de Araziel deslizou silenciosamente pelo subsolo privativo da torre residencial, um espaço tão quieto que parecia pertencer a outro mundo. Ali não havia vozes, nem presença humana desnecessária — apenas sistemas de segurança, reconhecimento facial e o zumbido baixo dos motores.

Um lugar feito para desaparecer.

Quando a porta do elevador se abriu diretamente dentro do apartamento, o silêncio o recebeu como sempre. Mas desta vez ele não trouxe paz.

Araziel deixou a chave sobre o balcão de mármore, acendeu apenas a luz da cozinha e serviu um copo de água. Bebeu metade de uma vez, como se pudesse interromper com líquido frio o que estava acontecendo dentro dele. Não funcionou.

Caminhou pelo apartamento amplo e minimalista, onde cada linha havia sido pensada para eliminar excesso. Tudo estava no lugar certo. Tudo sob controle.

Sempre.

Hoje, não.

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