CAPÍTULO 3: O SALÁRIO

Araziel puxou a pasta de novo, abriu-a — não por necessidade. Já sabia cada linha de memória. Mas abriu assim mesmo.

Nome: Nyana Forrest.

Experiência: impecável.

Disciplina: incontestável.

Sigilo: absoluto.

Nenhuma foto além da que ele já tinha visto.

E nenhuma foto capturava o efeito daqueles olhos ao vivo.

Ele fechou a pasta com mais força do que pretendia.

— Chega — murmurou, como se o próprio cérebro fosse obedecer.

Não obedeceu.

A última coisa em que pensou antes de finalmente se forçar a trabalhar foi justamente a que mais o irritava:

Ela era pequena demais.

Pequena demais para aquele mundo.

Pequena demais para não ter medo.

Pequena demais para ocupar tanto espaço dentro da mente dele.

Mas ocupava.

E isso era inaceitável.

Ainda assim, acontecia.

Araziel apertou a mandíbula, devolvendo a pasta ao lugar como se tentasse empurrar para longe o incômodo.

Nunca deveria ter notado aquilo.

Mas notou.

E já era tarde demais.

#

A porta fechou atrás dela com um clique suave.

Nyana caminhou pelo corredor sem pressa, os passos regulares no piso polido, a bolsa firme no antebraço. O perfume discreto do andar ainda estava no ar — caro, neutro, calculado, como tudo ali.

Ela processava enquanto andava. Era assim que funcionava: durante a situação, o corpo executava. Depois, a mente organizava.

Araziel Vael.

Ela tinha lido o relatório. Tinha construído uma imagem. Mas imagens em papel não tinham voz, não tinham postura, não tinham o modo específico como aquele homem atravessava uma sala como se o espaço lhe pertencesse por direito — não por arrogância, mas por algo mais antigo. Mais treinado.

Ela registrou tudo com a precisão habitual:

Um metro e noventa, talvez mais. Ombros largos, postura militar sem o engessamento de quem precisa provar algo. Mãos grandes — ela notou quando ele abriu a pasta, os dedos se movendo com uma precisão que não combinava com executivo de escritório. Olhos escuros, analíticos, do tipo que não descansam em lugar nenhum por tempo suficiente para parecer distração.

Ele não tinha tentado intimidá-la.

Isso foi o que mais a surpreendeu.

Homens com aquele nível de poder geralmente usavam o ambiente como extensão da própria autoridade — a mesa grande, a cadeira alta, a distância calculada. Ele fez o oposto. Saiu de trás da mesa, sentou ao lado, eliminou a barreira. Não era gentileza. Era outra forma de controle — mais sofisticada, mais difícil de nomear.

Ela arquivou o dado sem julgamento.

Alto risco. Confirma o relatório.

A recepcionista a aguardava com um tablet e um sorriso profissional.

— Senhorita Forrest, o departamento jurídico já está disponível para o NDA. Terceira sala à direita.

— Obrigada.

A sala era pequena, funcional, sem janelas. Uma mesa, duas cadeiras, uma advogada jovem com expressão neutra e um contrato já aberto na tela. Nyana sentou-se, aceitou a versão impressa e começou a ler.

De verdade.

Cada cláusula. Cada subcláusula. Cada definição de "informação confidencial", cada especificação de prazo, cada penalidade descrita com a precisão cirúrgica de quem já precisou executá-las.

A advogada esperou sem demonstrar impaciência — provavelmente acostumada.

O contrato cobria o esperado: sigilo sobre operações, clientes, contratos de defesa, movimentações financeiras, tecnologias proprietárias. Mas havia uma cláusula que Nyana releu duas vezes, não por confusão, mas por interesse:

"Inclui, mas não se limita a, informações sobre a vida pessoal, rotina, saúde, relacionamentos e deslocamentos do Presidente do Conselho e CEO."

Ela piscou uma vez.

Vida pessoal.

(Ele não está só me pedindo sigilo sobre contratos.

Ele está exigindo que eu enterre toda a vida dele.

E em troca, o que eu ganho?

Um salário alto… e a certeza de que, se eu pisar na bola, ele pode me destruir legalmente.) —pensou ela.

Não era incomum em contratos de alto escalão. Mas a especificidade daquela redação dizia algo sobre o homem que a encomendara — alguém que protegia não só os negócios, mas a própria existência com a mesma arquitetura jurídica.

Ela assinou.

Sem hesitação.

Nyana soltou a caneta devagar.

A cláusula sobre “vida pessoal, rotina, saúde e relacionamentos” ainda queimava na retina.

Era quase cômico. Ele estava exigindo que ela protegesse até os segredos mais íntimos dele… enquanto ela mesma não tinha quase nada a esconder.

Mas o contrário não valia.

Se amanhã ele decidisse que ela era um risco, poderia jogá-la na rua sem piscar.

E ela teria que ficar calada sobre tudo que viu.

Devolveu o documento, agradeceu com um aceno e caminhou pelo corredor de volta à recepção.

Enquanto andava, um detalhe voltou sem aviso, pequeno demais para importar:

Ele tinha soltado a mão dela um segundo depois do necessário.

Ela arquivou o dado com a precisão de sempre.

Irrelevante.

Mas não descartou.

Apertou o botão do elevador e esperou, a bolsa firme no antebraço, a postura reta.

As portas se abriram.

Ela entrou.

A porta do elevador fechou atrás dela.

Nyana manteve a postura correta durante todo o caminho até o térreo. Atravessou o saguão de mármore com a mesma expressão neutra de sempre, cruzou a porta giratória, sentiu o vento frio bater no rosto e…

…estava sozinha.

O corpo dela relaxou.

Um pouco.

Ela caminhou até a sombra de um toldo, tirou o celular do bolso, abriu a tela e releu a confirmação:

"Início na segunda-feira, 7h00. Salário: U$ 8.600,00 — três vezes o atual. Todas as autorizações internas já foram liberadas."

Por um segundo, ela ficou parada.

Totalmente parada.

Como se o cérebro tivesse congelado para validar a informação.

Então, de maneira quase imperceptível, algo aconteceu.

Os ombros dela subiram.

A respiração ficou curta.

E ela fechou os olhos devagar, segurando o impulso — um impulso que nunca deixava sair.

Mas estava sozinha.

E era muito dinheiro.

Muito.

Dinheiro suficiente para pagar todos os exames do ano.

Dinheiro para comprar os filtros solares caros.

Dinheiro para um apartamento melhor.

Dinheiro para viver sem medo de ficar doente.

Dinheiro para respirar.

E então…

Ela deu um único pulinho.

Pequeno.

Contido.

Ridículo.

E absolutamente perfeito.

Um pulinho quase silencioso, apenas o suficiente para tirar os dois pés do chão por meio segundo.

Depois outro.

E outro.

Três no total.

Nada exagerado, nada dramático — mas para alguém como ela?

Era praticamente um carnaval.

Nyana respirou fundo, ajeitou uma mecha que soltara do penteado, recompôs a postura e caminhou até o carro como se nada tivesse acontecido.

Mas enquanto andava, a leveza nos passos denunciava a verdade:

Três salários.

Três.

E ela tinha conseguido.

Por mérito.

Por preparo.

Por ser quem era.

Nada mais justo.

***

O apartamento de Nyana estava silencioso, iluminado apenas pela luz suave da cozinha quando a água começou a ferver. Ela se moveu com a calma habitual, o vapor subindo em nuvens delicadas… até a campainha tocar duas vezes, rápidas, impacientes.

Cassandra.

Nyana abriu a porta e nem teve tempo de respirar.

— MEU DEUS! — Cassandra entrou como uma tempestade perfumada de baunilha e spray fixador. — Oito mil e seiscentos dólares — ela contou nos dedos, intercalando as unhas longas e bem-feitas — isso dá o quê? — os olhos arregalaram — QUARENTA E CINCO MIL REAIS?!

Falou alto. Alto demais. Provavelmente três vizinhos ouviram.

Nyana fechou a porta com a mesma serenidade de quem apaga um incêndio com um copo de água.

— Cassandra… — murmurou. — Eu pedi para você não gritar isso.

— Gritar? — Cassandra jogou a bolsa no sofá, chutou os sapatos e abriu os braços. — Eu tô tentando ser discreta!

Fez uma pausa. Trágica.

— QUARENTA E CINCO—

Nyana ergueu a mão. Um gesto. Cassandra calou.

Ou tentou.

— Desculpa. — sussurrou, diminuindo o volume, nunca a empolgação. — Mas, amiga… isso é salário de diretor! De CEO! De dono de meia São Paulo!

Fez uma reverência exagerada.

— Boa noite, minha rica.

Nyana serviu duas canecas de chá — uma para ela, outra para Cassandra, que nunca tomava mas sempre aceitava.

— Não é tanta coisa assim. — comentou Nyana, sentando-se com postura impecável.

Cassandra engasgou com o ar.

— Não é— tanta— coisa?

Ela apoiou as mãos nos joelhos, como quem precisa de suporte para lidar com a realidade.

— Amiga, você tá brincando comigo? Eu sou biomédica esteta há quatro anos. Passo o dia aplicando botox, preenchedor, bioestimulador, harmonização… e ainda assim ganho DEZ mil suando a bunda no consultório!

Ergueu os braços, indignada.

— DEZ! Trabalhando com cliente dramática, respondendo direct de madrugada e segurando mulher chorando porque o marido não viu diferença no bigode chinês!

Aproximou-se com intensidade teatral.

— E você vai ganhar QUARENTA E CINCO como secretária executiva. Com ar-condicionado. Cadeira ergonômica. Cafeteira automática. Pelo amor de Deus, Nyana… isso é salário de quem já venceu na vida!

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP