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CAPÍTULO 2: A ENTREVISTA COM O LOBO

O prédio da Vael Industries se erguia como uma lâmina de vidro e aço no skyline da cidade, refletindo o céu claro da manhã com uma intensidade que obrigou Nyana a baixar os óculos antes mesmo de chegar à entrada. Ela parou na calçada por um segundo, ajustando a visão. Em dias assim, a luz refletida em fachadas de vidro era quase física — batia nos olhos como pressão.

Seguranças uniformizados a observaram quando ela se aproximou. Não com desconfiança — com avaliação. O tipo de olhar lento, de cima para baixo, que ela conhecia desde os quinze anos nos portos. Diferente, apenas, na embalagem. Ela passou direto, crachá temporário na mão, sem desviar o olhar.

No saguão de mármore, o ar-condicionado era gelado e imediato — quase doloroso na pele sensível depois do calor da rua. Ela piscou, deixando os olhos se ajustarem à iluminação artificial intensa, branca demais. Ao redor, funcionários cruzavam o espaço em pares, conversando em voz baixa. Dois deles olharam para ela. Depois desviaram. Depois olharam de novo.

Ela não deu atenção.

Apertou o botão do elevador privativo, ouviu o som suave da cabine descendo, entrou sozinha quando as portas se abriram. O espelho interno devolveu a própria imagem: postura reta, expressão neutra, óculos escuros já guardados no bolso, o casaco impecável sobre a blusa fechada até o colarinho.

O elevador subiu em silêncio.

Nyana respirou devagar, sentindo o pulso um pouco mais acelerado do que o habitual. Não era nervosismo. Era reconhecimento — a sensação familiar de estar prestes a entrar num ambiente que exigiria tudo dela.

Se o salário for o que preciso, eu fico.

O resto, avalio pessoalmente.

As portas se abriram no 45º andar.

O elevador abriu com um som suave, e Nyana deu o primeiro passo no 45º andar. O corredor era silencioso, decorado em tons de cinza e vidro — um luxo frio, calculado, impecável. O ar tinha um perfume discreto, caro, impossível de identificar.

A recepcionista levantou o rosto.

— Bom dia. Nome?

— Nyana Forrest. — A voz saiu tranquila, baixa, absolutamente controlada.

A mulher conferiu um tablet, deixou escapar uma pequena contração de surpresa — e assentiu.

— Ele está esperando. Pode entrar.

Nenhuma instrução adicional. Nenhuma condução. Direto, como se já soubessem que Nyana não precisava de guias.

Ela avançou pelo corredor até a porta de vidro fosco marcada apenas por uma placa minimalista: A. Vael. Bateu uma única vez.

— Entre. — A voz grave veio de dentro, rompendo o silêncio com autoridade tranquila.

Nyana entrou.

O escritório era todo vidro — paredes inteiras deixando a luz da manhã explodir pelo ambiente com uma intensidade que ela não esperava. O chão espelhado dobrava o brilho, multiplicava cada feixe. Por um instante, o excesso bateu direto nos olhos, quase físico, e ela precisou piscar duas vezes antes que a visão se ajustasse. Não foi dramático. Não foi visível. Apenas o corpo fazendo o que sempre fazia em ambientes assim — recalibrando, adaptando, seguindo em frente.

O escritório era alto, amplo, vivo de luz. Uma extensão da própria cidade lá fora.

E então ela o viu.

Araziel Vael estava em pé, de costas para ela, observando o horizonte com as mãos nos bolsos. A silhueta alta, sólida, imponente, era moldada pela luz como uma escultura viva. Quando se virou, o movimento foi suave e preciso — o gesto típico de alguém que conhece o peso da própria presença. Ele a observou por um segundo longo demais, não porque fosse bonita ou pequena, mas porque era exatamente como na foto: calma, reta, impossível de decifrar.

— Senhorita Forrest.

— Senhor Vael.

A voz dela era neutra, limpa, sem qualquer tremor. A dele, baixa e controlada.

— Sente-se. — Ele indicou a cadeira à frente da mesa.

Nyana se sentou com postura impecável, as mãos cruzadas no colo. Araziel não escolheu a cadeira atrás da mesa, como qualquer executivo faria. Em vez disso, percorreu o tampo com a ponta dos dedos e sentou-se na lateral, diminuindo deliberadamente a distância entre eles. Não havia barreira. Não havia protocolo. Havia apenas ele — perto o suficiente para observar cada mínima reação.

E ela não apresentou nenhuma.

— Recebeu a notificação hoje? — ele perguntou.

— Sim. Às 6h41.

— E decidiu vir.

— A entrevista estava marcada. — Nenhum rodeio.

Ele a encarou como se medisse a densidade do ar entre eles, depois abriu a pasta preta que já conhecia de cor.

— Trabalhou dez anos no porto. Começou aos quinze.

— Sim.

— Por quê?

— Porque precisava de dinheiro.

A honestidade dela fez com que ele erguesse os olhos devagar, como se não estivesse esperando uma resposta direta.

— Hm. — Ele cruzou uma perna sobre a outra. — A maioria inventaria algo mais… inspirador.

— Não vejo utilidade nisso.

A lâmina da sinceridade atingiu algo nele que ele não nomeou. A maioria das pessoas tentava impressioná-lo. Ela não.

— E por que aceitaria trabalhar aqui? — ele perguntou.

Nyana manteve os olhos nele. Claros, translúcidos, quase prateados sob a luz. Não desviou.

— Pelo salário.

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

Araziel não se moveu. Observou cada linha do rosto dela, procurando arrogância, pretensão, vaidade — e não encontrou nada. Havia apenas a verdade, dita com a mesma simplicidade meticulosa com que ela faria uma anotação administrativa.

Fria.

Lógica.

Imparcial.

— Então é isso que procura — ele disse enfim.

— Estabilidade. — ela corrigiu. — E compensação adequada ao risco.

Ele inclinou a cabeça, ínfimo movimento que quase não aconteceu.

Estabilidade.

A palavra encaixou de uma forma que ele não esperava — como se colocassem nome em algo que ele mesmo vivia tentando sustentar.

— Não tem medo desta empresa? — perguntou.

— Ter medo não muda a natureza do risco.

Ele se recostou levemente, apoiando a mão no tampo, avaliando-a de um ângulo mais amplo.

Os olhos dela eram tranquilos demais.

A pele delicada demais.

A postura imóvel demais.

Ela parecia frágil.

Mas não era.

E isso incomodava — de um jeito que não deveria.

— E por que eu deveria contratá-la? — ele perguntou, por fim.

Nyana ajustou a coluna apenas um milímetro antes de responder, como quem escolhe a posição exata para a precisão.

— Porque faço o que precisa ser feito.

Porque não cometo erros.

Porque não falo mais do que o necessário.

Porque aprendo rápido.

E porque não tenho interesse algum em competir com ninguém aqui dentro.

Ele prendeu a respiração por meio segundo — não por surpresa, mas por uma admiração involuntária, irritante, que ele não queria sentir.

Ela não se promoveu.

Não tentou parecer perfeita.

Não usou charme, simpatia, nem esforço performativo.

Ela apenas apresentou fatos.

Crus.

Inegáveis.

Como quem diz:

"Se quiser eficiência, sou eu."

"Se quiser qualquer outra coisa, escolha outra pessoa."

Araziel fechou a pasta.

Devagar.

Controlado.

— Começa segunda-feira.

Ele se levantou.

Nyana também.

— Assinamos o NDA hoje? — ela perguntou.

Os olhos dele piscaram uma única vez. Não foi surpresa. Foi interesse.

Ela não queria proteção.

Ela queria sigilo.

— Sim. Hoje — respondeu.

Ele estendeu a mão.

Ela apertou.

Araziel sentiu antes de processar: a mão dela era pequena dentro da dele, mas o aperto era firme, seco, sem hesitação. Nenhuma tentativa de suavizar o contato, nenhum gesto de deferência. Apenas presença — direta, breve, completa. A pele dela estava fria, como ele havia imaginado na noite anterior sem querer imaginar, e o contato durou exatamente o necessário — nem um segundo a mais, nem um a menos.

Ela soltou primeiro.

Ele percebeu isso apenas quando já tinha acontecido.

Quando ela saiu, o silêncio voltou ao escritório tão rápido quanto os passos dela desapareceram no corredor.

Araziel permaneceu imóvel por alguns segundos, ainda de pé, respirando fundo o bastante para encher os pulmões — não o suficiente para parecer um suspiro.

Ridículo.

Era uma entrevista de quinze minutos.

Mais uma entre centenas.

E, ainda assim… havia algo errado.

Ele passou a mão sobre a mesa, alinhando uma linha invisível de poeira que só ele via, enquanto a pasta de Nyana permanecia ali, fechada diante dele. Limpou a borda com o polegar, como se isso tivesse alguma relevância.

Não tinha.

Nada daquilo tinha.

Então por que diabos ainda estava pensando nela?

Araziel fechou os olhos por um único segundo.

O bastante para que a imagem surgisse: os olhos dela.

Aquele azul quase prateado, claro demais, calmo demais. Um olhar que não desviava, não tremia, não tentava agradar — apenas observava. Avaliava.

Ele nunca tinha visto alguém olhar para ele daquela forma.

Não era desafio.

Não era medo.

Não era submissão.

Era… cálculo.

E isso o incomodava.

Ele abriu os olhos, irritado consigo mesmo. Pegou uma caneta, girou-a entre os dedos, largou-a.

Ridículo.

Virou-se para a janela, mas a vista não ajudou. O reflexo de vidro devolveu apenas a lembrança dela entrando — pequena, branca como porcelana, postura impecável, cada movimento controlado. Delicada demais para aquele ambiente, resistente demais para alguém tão delicada.

A entrevista inteira voltou como um eco incômodo:

"Por que começou a trabalhar tão cedo?"

"Porque precisava de dinheiro."

Seca.

Direta.

Sem vitimismo.

"Por que aceitaria trabalhar aqui?"

"Pelo salário."

Sem floreios, sem charme, sem tentativa de impressionar.

A maioria das pessoas mentia.

Ela não.

E isso também era um problema.

Araziel esfregou a têmpora, tentando afastar a sensação de que algo escapava ao controle. Ele tinha contratos, ministros, uma reunião crítica naquela tarde — e, mesmo assim, o pensamento retornava ao mesmo ponto.

O modo como ela segurava a bolsa com apenas uma mão.

A forma como piscou lentamente ao entrar, ajustando os olhos à luz — e retomou a postura em um segundo, sem perturbação.

A voz que não tremia.

A tranquilidade absurda.

Serena demais.

Difícil demais de ler.

Ele odiava isso.

Odiava não conseguir classificá-la.

Odiava não conseguir rotulá-la na primeira olhada — ou na segunda.

Odiava, principalmente, o fato de que ela tinha falado tão pouco e, ainda assim, ficado presa na cabeça dele como um fragmento de informação que recusava se dissolver.

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