Mundo de ficçãoIniciar sessãoNyana deu um gole calmo no chá.
— Eu precisava de estabilidade. O valor é adequado ao risco do trabalho.
— Adequado ao risco? — Cassandra arregalou os olhos. — Você vai trabalhar pra quem, garota? O FBI? A máfia russa?
Nyana ergueu uma sobrancelha.
Não confirmou.
Não negou.
E isso só deixou Cassandra ainda mais animada.
— Tá, chega. — Ela bateu palmas. — Me conta dele. Do tal… como é o nome?
— Araziel Vael.
Cassandra suspirou só de ouvir.
— A-ra-zi-el. Nome de homem bonito e problemático. E aí? Como ele é?
Nyana pensou. Três segundos.
— Alto. Muito alto.
— Alto tipo "bonito alto" ou alto tipo "espantalho chique"?
— Um metro e noventa. Postura impecável. Rosto simétrico. Traços firmes.
Cassandra bateu a mão na própria coxa.
— MEU DEUS, um gostoso sério. Isso existe. A natureza é cruel.
Nyana desviou o olhar.
Não por timidez — por processamento.
— Ele é… imponente.
— Aí pronto, já gostei dele. — Cassandra pegou a caneca só para ter onde pôr a energia. — Ele te tratou bem? Porque se ele piscar torto pra você, eu vou lá na empresa dele e—
— Ele foi profissional. — Nyana cortou. — Diretivo. Avaliou meu currículo. Perguntou motivos. Foi objetivo.
Cassandra estreitou os olhos, sorrindo.
— E você mentiu pra ele? Disse que queria carreira, sonhos, propósito?
— Não. — Nyana mexeu o chá. — Eu disse que queria o salário.
Cassandra caiu no sofá, gargalhando.
— EU TE AMO. Você é a única mulher que eu conheço que fala a real pra um homem rico sem nem piscar!
— Não faria sentido mentir. — Nyana deu de ombros. — Ele teria percebido.
Cassandra se aproximou, animada demais.
— E ele olhou muito pra você?
Nyana pensou antes de responder.
— Sim.
— COMO? — Cassandra vibrou. — Como ele olhou? Tipo "quero te pegar"? Ou tipo "quero te demitir"?
Nyana respondeu com uma sinceridade desconcertante:
— Como quem tentava entender algo. Como se eu fosse… uma informação incompleta.
Cassandra parou.
— Ah não. Isso é pior.
Pior mesmo.
Quando homem olha assim… é porque você bagunçou os parafusos dele.
Nyana piscou.
— Eu não fiz nada especial.
— Justamente. — Cassandra apontou para ela. — E ele percebeu.
Encostou-se no sofá.
— Ele te achou interessante.
Nyana não reagiu.
Apenas disse:
— Isso não é relevante.
Cassandra riu, balançando a cabeça.
— Me promete só uma coisa.
— O quê?
— Que se esse homem bonito e perigoso der em cima de você… você me liga primeiro.
Nyana tomou o último gole de chá.
— Não acho que isso vá acontecer.
A sobrancelha de Cassandra subiu.
— Mas se acontecer… você me liga?
Nyana pensou.
— …Sim.
— Ótimo. — Cassandra levantou-se, satisfeita. — Porque eu quero conhecer esse homem que vai pagar QUARENTA E CINCO MIL REAIS para minha melhor amiga!
Nyana fechou os olhos por um instante.
— Cassandra… não grita isso no corredor.
— Eu tento. — respondeu, nada convincente, já pegando a bolsa.
A porta fechou.
O apartamento voltou ao silêncio.
________________________________________
Nyana ficou parada por um momento, a caneca ainda morna entre as mãos, ouvindo os passos da amiga sumirem no corredor. Depois lavou as duas canecas, secou, guardou — cada coisa no lugar exato — e foi para o quarto.
O guarda-roupa ocupava a parede inteira.
Ela abriu as portas e ficou ali por alguns segundos, avaliando o que já sabia de cor.
Não havia nada colorido.
Nenhum vestido de festa esquecido no fundo. Nenhuma blusa comprada por impulso, nenhum tênis casual, nenhuma peça que não tivesse função clara. Tudo era neutro — preto, cinza, bege, branco frio — organizado por categoria com a mesma lógica que ela aplicava a planilhas: blazers juntos, blusas de manga longa à esquerda, calças dobradas em sequência de tom. Sapatos alinhados embaixo, todos de salto baixo ou médio, todos fechados, todos sérios.
Era um guarda-roupa que não reservava espaço para o imprevisto.
Ela separou o conjunto para a segunda-feira com movimentos automáticos: calça preta de alfaiataria, blusa de seda cor de marfim de manga longa, blazer cinza-chumbo. Pendurou tudo na parte externa da porta, já na ordem certa — a ordem em que vestiria.
Depois foi ao banheiro.
A rotina noturna tinha o mesmo ritmo da matinal, só invertida: demaquilante suave, mesmo que não usasse maquiagem — a pele sensível exigia limpeza cuidadosa de qualquer resíduo do dia. Sabonete neutro. Hidratante noturno, mais denso que o diurno, distribuído com movimentos lentos pelo rosto, pescoço e colo. Gotas lubrificantes nos olhos, que ressecavam com o ar-condicionado dos escritórios.
No espelho, o rosto dela era o mesmo de sempre — pele clara, olhos claros, expressão quieta.
Mas, por um segundo, ela se permitiu lembrar da mão dele.
Grande. Quente. Firme.
O aperto tinha sido breve, mas o calor ficou. Como se ele tivesse deixado uma marca invisível na palma dela.
Nyana apertou os lábios. O leve rubor voltou às bochechas — traidor, impossível de esconder na pele translúcida. Ela piscou, afastando o pensamento como quem fecha uma aba desnecessária.
Não era relevante agora.
Apagou a luz.
Deitou.
O apartamento estava em silêncio total, o tipo de silêncio que ela havia aprendido a gostar antes mesmo de entender por quê.
Antes de fechar os olhos, um pensamento passou — rápido, não solicitado, inconveniente:
Ele tinha soltado a mão dela um segundo depois do necessário.
Ela arquivou o dado com a precisão de sempre.
Irrelevante.
Fechou os olhos.
E dormiu.
***
Segunda-feira — O primeiro dia
Nyana chegou às 6h12.
A recepção ainda estava com luzes reduzidas, metade do andar apagado, e o silêncio que só existe antes do mundo corporativo acordar pairava no ar. Funcionários não chegavam tão cedo — mas Nyana não deixava espaço para incertezas.
Passou pela catraca com o crachá temporário recém-emitido e subiu para o 45º andar.
Quando as portas se abriram, Isabella Morson já a aguardava — postura impecável, blazer cinza-escuro, expressão de vinte anos organizando a vida de executivos.
— Senhorita Forrest?
— Sim.
— Bem-vinda. — O aperto de mão foi breve, eficiente. Isabella a analisou em segundos — o coque firme, as roupas neutras, a ausência de perfume, a postura. O olhar experiente não suavizou… mas aprovou.
— Vamos direto ao ponto. — disse, caminhando. Nyana acompanhou. — Aqui não trabalhamos com improviso. Você está assumindo o cargo de confiança mais alto do setor administrativo. Tudo o que faz — tudo — deve ser previsível, preciso e absolutamente discreto.
— Entendido.
Isabella entregou um tablet corporativo e foi direta: agenda pessoal e executiva do senhor Vael, contatos prioritários, controle de reuniões e deslocamentos, preparação da sala antes da chegada dele, gestão de documentos sensíveis, triagem de e-mails urgentes, segurança da informação. E, acima de tudo, sigilo absoluto.
Nyana segurou o tablet como quem segura um relatório — firme, neutra, precisa.
— Não haverá problema.
— Espero que não. — Não era ameaça. Era fato. — O senhor Vael não tolera erros. Está claro?
— Está.
Isabella a conduziu até a porta de vidro com a placa discreta: A. Vael.
— Ele costuma chegar entre 7h e 7h20. — disse. — Você tem quarenta minutos para deixar tudo pronto. Achei que precisaria guiá-la, mas… — ergueu uma sobrancelha. — Acho que você não vai precisar de mim.
— Eu sei o que fazer.
Isabella sorriu — mínimo, raro — e se afastou.
Nyana entrou no escritório em penumbra e acendeu apenas as luzes laterais — suaves, neutras, adequadas para a própria visão sensível. Depois começou.
Abriu parcialmente as cortinas, deixando a luz natural entrar de forma moderada. Ajustou a temperatura do ambiente. Alinhou os objetos da mesa de Araziel sem alterar a identidade da organização que já existia — havia uma lógica ali, específica, e ela a reconheceu antes de tocar em qualquer coisa. Conferiu a copa interna, as gavetas, o armário de arquivos. Removeu uma camada fina de poeira que só existia para quem prestava atenção no nível certo.
Na copa, selecionou o grão indicado por Isabella, regulou a moagem e preparou o café com precisão técnica. Deixou a xícara no aparador — não na mesa dele. Havia uma diferença entre disponibilizar e invadir, e ela conhecia essa diferença melhor do que a maioria.
Retirou as cápsulas e vitaminas do armário interno, organizou-as na porcelana própria do aparador, conferiu validades sem tocar no que não lhe cabia. Depois abriu o tablet, sincronizou o calendário, reorganizou dois horários duplicados, enviou confirmações para diretores e revisou reuniões internacionais que precisavam de ajuste.
Tudo em silêncio absoluto.
Quando terminou, parecia que já trabalhava ali há meses.







