2 — A proposta

O escritório de Richard Foster estava silencioso de um jeito incomum para alguém que passava os últimos meses tentando impedir que tudo o que construiu ao longo da vida desmoronasse diante dos próprios olhos. Papéis se acumulavam sobre a mesa, relatórios permaneciam abertos com números que já não fechavam mais, e ainda assim nada daquilo parecia realmente importar no instante em que o celular vibrou e o diretor financeiro entrou sem bater.

O olhar dele já trazia a resposta antes mesmo que qualquer palavra fosse dita.

— Senhor Foster… precisamos conversar.

A forma contida como ele falou fez Richard se recostar na cadeira, sentindo o corpo pesar mais do que o normal, como se já antecipasse que não havia nada de bom naquela conversa. Ainda assim, fez um gesto breve com a mão, indicando para que continuasse.

— O que foi agora?

O diretor demorou um segundo a mais do que o habitual, claramente escolhendo as palavras antes de dizê-las.

— As ações da empresa foram compradas.

Richard franziu a testa, mais irritado do que surpreso.

— Isso não é novidade. Estamos vendendo partes há semanas para manter o caixa.

— Não foram partes — ele respondeu, mantendo o tom baixo, mas firme — foram todas.

O silêncio se instalou de forma imediata, ocupando o espaço entre eles.

Richard se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa, como se precisasse se aproximar daquilo para acreditar.

— Explica isso direito.

— Um único comprador adquiriu participação majoritária nas últimas horas. Ele comprou tudo o que estava disponível… e conseguiu acesso ao restante.

Richard sentiu o coração acelerar, não pelo prejuízo em si, mas pelo que aquilo significava.

— Quem?

O diretor hesitou apenas o suficiente para deixar claro que aquele nome não viria sem peso.

— Brian Beckman.

O ambiente pareceu menor.

Richard se afundou na cadeira, passando a mão pelo rosto enquanto tentava organizar o pensamento. Ele conhecia aquele nome, assim como qualquer pessoa que operasse naquele nível. Brian Beckman não construía impérios apenas para expandi-los. Ele também sabia destruí-los quando havia algum interesse por trás.

E nunca agia sem motivo.

Antes que pudesse reagir, a porta do escritório se abriu novamente, dessa vez sem pressa, em um ritmo que contrastava com a tensão que dominava o ambiente.

O homem que entrou não demonstrava qualquer urgência. A postura era impecável, o olhar controlado e cada passo parecia calculado para não gerar ruído desnecessário.

— Senhor Foster — disse, aproximando-se com tranquilidade — é um prazer.

Richard se levantou imediatamente.

— Quem é você?

O homem manteve o mesmo tom profissional.

— Daniel. Assistente do senhor Brian Beckman.

O nome não precisou ser repetido.

— Como o senhor já percebeu, meu chefe passou a ter controle sobre a empresa.

Richard apertou os punhos, contendo a reação.

— Isso é algum tipo de jogada para forçar negociação?

— Não — Daniel respondeu, com a mesma calma — a intenção é encerrar as operações.

Richard deu um passo à frente, a irritação começando a ultrapassar o controle.

— Ninguém compra uma empresa nesse estado para destruir sem motivo.

Daniel inclinou levemente a cabeça, como se aceitasse a observação, mas não se sentisse obrigado a concordar.

— Nem sempre a motivação está ligada à empresa.

O silêncio voltou a se instalar, dessa vez mais denso.

Richard respirou fundo antes de perguntar:

— O que ele quer?

Daniel o observou por um instante, avaliando a reação antes de responder.

— Isso envolve sua família.

O desconforto veio imediato.

— Seja claro.

— Meu chefe viu sua filha, Celina Foster, recentemente. E decidiu que quer formalizar um casamento.

Richard sentiu o estômago contrair, a informação se encaixando rápido demais para que ele ignorasse.

— Você está me dizendo que ele comprou a minha empresa por causa disso?

— Estou dizendo que ele tem meios para sustentar qualquer decisão que tome.

Richard passou a mão pelos cabelos, tentando manter a linha de raciocínio firme.

— E você espera que eu entregue minha filha como parte disso?

Daniel não mudou a expressão.

— Eu espero que o senhor compreenda o cenário em que está inserido. Nova York não costuma ser gentil com empresas que quebram, e meu chefe não é conhecido por oferecer segundas oportunidades.

Ele fez uma pausa curta antes de concluir:

— O senhor tem três dias para responder. Depois disso, iniciaremos o processo de encerramento.

Sem esperar qualquer reação, Daniel se virou e deixou o escritório com a mesma tranquilidade com que entrou, como se aquela conversa não tivesse alterado absolutamente nada.

Richard permaneceu parado por alguns segundos, absorvendo o peso do que havia acabado de acontecer, até pegar o paletó e sair sem olhar para trás.

A decisão já começava a se formar antes mesmo de ser dita.

---

A mansão Foster estava iluminada, mas o clima dentro dela não acompanhava a aparência do lugar. Assim que entrou, Richard seguiu direto para a sala principal, onde sua esposa e suas filhas estavam, interrompendo a rotina com uma presença que não deixava espaço para normalidade.

— Precisamos conversar.

O tom foi suficiente para fazer com que todos se voltassem para ele.

— O que aconteceu? — a esposa perguntou, já antecipando que não seria algo simples.

Richard passou a mão pelos cabelos antes de responder:

— Brian Beckman assumiu o controle da empresa.

Celina se levantou imediatamente.

— Como assim?

— Ele comprou tudo. E deixou claro que pretende encerrar as operações.

O silêncio que se seguiu não veio da dúvida, mas da compreensão do que aquilo representava.

— Por quê? — a mãe perguntou, com a voz mais baixa.

Richard olhou diretamente para Celina antes de responder:

— Porque ele quer você.

A reação foi instantânea.

— Isso não vai acontecer — ela disse, sem hesitar — eu não vou me casar com aquele homem.

— Não é uma questão de querer — Richard rebateu, mantendo o tom firme — se você recusar, ele leva a empresa junto.

— Então deixa levar — Celina respondeu, sem recuar — eu não vou aceitar isso.

A mãe se levantou, visivelmente tensa.

— Você precisa entender o que está em jogo.

— Eu entendo perfeitamente — Celina retrucou — e é justamente por isso que eu não vou me colocar nessa situação.

O olhar dela mudou aos poucos, acompanhando um raciocínio que começava a tomar forma.

— A gente não precisa recusar.

Richard franziu a testa.

— O que você está sugerindo?

Celina cruzou os braços, já mais controlada.

— Ele viu uma de nós uma vez só. Não existe garantia de que vai perceber qualquer diferença.

O silêncio voltou, dessa vez carregado de atenção.

— Cecília pode assumir esse lugar.

A mãe foi a primeira a reagir, sem a mesma resistência que Richard demonstrava.

— Cecília sempre foi mais fácil de conduzir.

Richard permaneceu em silêncio por alguns segundos, avaliando o impacto daquilo.

— Ela está noiva — disse, por fim — existe um acordo com a família Brown.

Celina não recuou.

— E existe uma empresa inteira prestes a desaparecer.

A lógica ficou no ar, pesada o suficiente para não ser ignorada.

A mãe desviou o olhar por um instante, como se já estivesse chegando à própria conclusão.

— Eu não posso permitir que isso destrua a vida da Celina.

Richard não respondeu de imediato, mas a ausência de resposta já indicava que a ideia não seria descartada tão facilmente.

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