O escritório de Richard Foster estava silencioso demais para alguém que passava os últimos meses tentando salvar tudo o que construiu ao longo da vida. Papéis espalhados, relatórios abertos e números que já não faziam sentido estavam sobre a mesa, mas nada daquilo parecia mais importante no momento em que seu celular vibrou e seu diretor financeiro entrou sem bater.
O olhar do homem já dizia tudo antes mesmo de qualquer palavra ser dita.
— Senhor Foster… — a voz saiu mais baixa do que o normal — precisamos conversar.
Richard se recostou na cadeira, o corpo pesado, como se já soubesse que aquela conversa não traria nada de bom. Ainda assim, fez um gesto com a mão para que ele continuasse.
— O que foi agora?
O diretor engoliu seco, claramente desconfortável.
— As ações da empresa… foram compradas.
Richard franziu a testa, irritado.
— Isso não é novidade. Estamos vendendo partes há semanas para manter o caixa.
— Não, senhor — ele interrompeu, com cuidado — não foram partes. Foram… todas.
O silêncio que tomou o ambiente foi imediato.
Richard se inclinou para frente, como se tivesse ouvido errado.
— Como assim, todas?
— Um único comprador adquiriu participação majoritária nas últimas horas. Ele comprou tudo o que estava disponível… e o que não estava também.
O coração de Richard bateu mais forte.
— Quem?
O diretor hesitou por um segundo, como se soubesse o peso daquele nome.
— Brian Beckman.
O ar pareceu sumir do ambiente.
Richard se afundou na cadeira, o olhar perdido por alguns segundos enquanto tentava processar aquilo. Ele conhecia aquele nome. Todo mundo conhecia. Brian Beckman não era apenas um empresário poderoso. Ele era o tipo de homem que transformava empresas em cinzas sem sequer piscar.
E ele nunca fazia nada sem motivo.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, a porta do escritório se abriu novamente, dessa vez com uma calma controlada que contrastava completamente com o caos que se instalava ali dentro.
Um homem entrou, elegante, postura impecável, expressão neutra.
— Senhor Foster — disse, aproximando-se com tranquilidade — é um prazer.
Richard se levantou imediatamente.
— Quem é você?
O homem abriu um leve sorriso profissional.
— Meu nome é Daniel. Sou assistente do senhor Brian Beckman.
O nome caiu como uma sentença.
Daniel continuou, como se estivesse apenas tratando de um assunto comum.
— Como o senhor já percebeu, meu chefe agora é o novo proprietário da sua empresa.
Richard apertou os punhos.
— Isso é algum tipo de brincadeira?
— Não, senhor. Muito pelo contrário.
Daniel deu mais um passo à frente, mantendo o tom calmo.
— E, caso o senhor esteja se perguntando… sim, ele pretende falir a sua empresa.
O impacto daquela frase foi imediato.
— Isso é loucura — Richard disparou — por que alguém compraria uma empresa para destruí-la?
Daniel inclinou levemente a cabeça.
— Porque ele pode.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Richard respirou fundo, tentando manter o controle.
— O que ele quer?
O assistente o observou por alguns segundos antes de responder.
— Isso depende do senhor… e da sua família.
O desconforto aumentou.
— Seja direto.
Daniel não hesitou.
— Meu chefe viu sua filha, Celina Foster, alguns dias atrás. E ele tomou uma decisão.
Richard sentiu o estômago revirar.
— Que decisão?
— Ele quer que ela se torne a esposa dele.
A incredulidade foi imediata.
— Isso é absurdo.
— Talvez — Daniel respondeu, sem se alterar — mas perder tudo o que o senhor construiu pode ser ainda mais.
Richard passou a mão pelo rosto, nervoso.
— Você espera que eu entregue minha filha para aquele homem?
Daniel deu de ombros, com leve indiferença.
— Eu espero que o senhor entenda a situação. Nova York não é gentil com homens falidos, senhor Foster. E o meu chefe não é conhecido por esperar.
Ele fez uma pequena pausa antes de finalizar.
— O senhor tem três dias para pensar. Depois disso… começaremos a encerrar tudo.
Sem esperar resposta, Daniel apenas se virou e saiu, deixando o silêncio ainda mais sufocante dentro do escritório.
Richard permaneceu parado por alguns segundos, completamente imóvel, até finalmente pegar o paletó e sair.
Ele sabia exatamente o que precisava fazer.
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A mansão Foster estava iluminada, mas o ambiente carregava uma tensão que não combinava com o luxo ao redor. Assim que Richard entrou, foi direto para a sala principal, onde sua esposa e suas filhas estavam.
— Precisamos conversar.
O tom foi suficiente para chamar atenção imediata.
— O que aconteceu? — a mãe perguntou, preocupada.
Richard passou a mão pelos cabelos antes de responder.
— Brian Beckman comprou a empresa.
O impacto foi imediato.
— O quê? — Celina se levantou.
— Ele agora é o dono… e disse que vai destruir tudo.
O silêncio caiu pesado.
— Por quê? — a mãe perguntou.
Richard olhou diretamente para Celina.
— Porque ele quer você.
A reação veio na mesma hora.
— Nem morta — Celina respondeu, firme — eu não vou me casar com aquele homem. Todo mundo sabe quem ele é. Ele é um monstro.
— Nós não temos escolha — Richard rebateu, a voz mais dura — se você recusar, ele vai acabar com tudo.
— Então deixa acabar — ela retrucou — eu não vou destruir a minha vida por causa de dinheiro.
A mãe se levantou rapidamente.
— Você está sendo egoísta.
— Egoísta? — Celina riu, incrédula — você quer me vender pra aquele homem!
Foi então que o olhar dela mudou.
Uma ideia.
Perigosa.
— Faz a Cecília ir.
O silêncio que se seguiu foi diferente.
Pesado.
Calculado.
A mãe foi a primeira a falar.
— Cecília sempre foi mais… equilibrada. Mais fácil de lidar.
Richard franziu a testa.
— Cecília está noiva. É um bom casamento para a família. Eu não posso simplesmente desfazer a aliança com os Browns.
Celina cruzou os braços, fria.
— Você prefere ficar pobre?
A pergunta ficou no ar.
— Nós somos praticamente iguais — ela continuou — se a gente trocar de lugar, ninguém vai perceber. Ele viu ela uma vez só.
Richard hesitou.
A mãe não.
— Eu não posso deixar aquele homem destruir a vida da Celina.