Cecília Foster acreditava, talvez de forma ingênua, que algumas coisas em sua vida ainda estavam sob controle.
O jantar daquela noite deveria ser uma delas.
O restaurante era sofisticado, com iluminação baixa e um ambiente cuidadosamente planejado para parecer acolhedor, mas Cecília não prestava atenção em nada daquilo. Seus olhos estavam voltados para Gabriel, sentado à sua frente, enquanto ele falava sobre detalhes do casamento com a tranquilidade de alguém que parecia não carregar peso algum nas próprias decisões.
— Eu estava pensando em aumentar a lista de convidados — ele disse, girando o vinho na taça — alguns contatos importantes podem aparecer.
Cecília assentiu, tentando acompanhar a conversa, embora sua mente estivesse um pouco distante.
Faltavam três meses para o casamento.
Três meses para finalmente começar uma nova fase, uma vida que ela acreditava ter escolhido com segurança, depois de anos tentando fazer tudo certo, agradar a família, manter as aparências e ocupar o espaço que sempre pareceu ser menor do que o da irmã.
Gabriel sempre foi… estável.
Confiável.
Ou, pelo menos, era o que ela acreditava.
— Vou ao banheiro — ele disse, se levantando com naturalidade — já volto.
Cecília sorriu de leve, observando-o se afastar, sem imaginar que, naquele instante, tudo o que ela conhecia estava prestes a desmoronar.
O celular dele, esquecido sobre a mesa, vibrou.
Ela não pretendia olhar.
Nunca foi o tipo de mulher que invadia a privacidade de alguém, muito menos de alguém com quem estava prestes a se casar. Mas a tela acendeu, e o nome que apareceu fez seu estômago revirar antes mesmo que ela pudesse entender o motivo.
Celina.
Sua irmã.
A mensagem apareceu na tela de forma clara:
“Tô com saudade… vou te mandar uma fotozinha pra você não morrer de tédio nesse jantar com a minha irmã.”
Cecília franziu a testa, confusa.
Aquilo não fazia sentido.
Sem pensar muito, como se fosse movida por um impulso que ela mesma não controlava, deslizou o dedo pela tela.
E abriu.
O mundo pareceu parar.
A imagem era inconfundível.
Celina.
Nua.
Exposta.
Posando com uma intimidade que não deixava espaço para dúvidas, como se aquilo fosse comum.
Como se fosse frequente.
O ar faltou.
Cecília ficou imóvel por alguns segundos, incapaz de processar completamente o que estava vendo. Sua mente tentou negar, tentou encontrar uma explicação lógica, algo que justificasse aquilo, qualquer coisa que não fosse a verdade óbvia que se escancarava diante dela.
Mas não havia.
Seus olhos começaram a arder, e a primeira lágrima caiu antes mesmo que ela percebesse.
Foi então que Gabriel voltou.
— Demorei? — ele perguntou, sentando-se novamente, sem notar imediatamente a expressão dela.
Cecília levantou o olhar devagar.
Havia algo quebrado ali.
— O que é isso?
A voz saiu baixa, mas carregada de algo que ele nunca tinha ouvido vindo dela.
Gabriel franziu a testa.
— Do que você tá falando?
Sem dizer nada, ela virou o celular para ele.
O silêncio que se instalou foi suficiente.
Ele empalideceu.
— Cecília, eu posso explicar…
— Você não tem nada pra me explicar — ela cortou, a voz falhando no meio da frase — desde quando isso tá acontecendo?
As pessoas ao redor começaram a perceber o tom elevado, mas Cecília não se importava.
— Desde quando você tem um caso com a minha irmã?
Gabriel passou a mão pelo rosto, nervoso, claramente tentando encontrar palavras.
— Não foi… não foi assim…
— Então foi como? — ela levantou a voz, as lágrimas já escorrendo livremente — me explica.
Ele hesitou.
E isso já era resposta suficiente.
— Foi… um erro — ele começou — um dia eu confundi vocês duas, a gente acabou… aconteceu, eu achei que era você, mas, quando percebi, já era tarde.
Cecília sentiu o estômago embrulhar.
— Você tá dizendo que transou com a minha irmã porque confundiu ela comigo?
— Ela… ela me ameaçou — ele continuou, tropeçando nas palavras — disse que ia contar tudo pra você, que ia acabar com o casamento… então a gente… continuou.
— Há quanto tempo?
O silêncio dele foi longo demais.
— Mais de um ano.
O som do tapa ecoou pelo restaurante antes que ele pudesse reagir.
— Você é nojento — Cecília disse, a voz tremendo — vocês dois são nojentos.
Sem esperar resposta, ela se levantou e saiu, ignorando os olhares, ignorando os murmúrios, ignorando tudo.
Só precisava sair dali.
Respirar.
Ou tentar.
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Quando chegou em casa, a dor já não era só emocional.
Era física.
Pesava no peito, apertava a garganta, fazia cada passo parecer mais difícil do que deveria.
Ela entrou direto, sem pensar, e encontrou Celina na sala.
A visão foi suficiente.
— Você é uma desgraçada.
Celina se virou, surpresa apenas por um segundo.
— Do que você tá falando?
Cecília avançou.
— Eu vi a mensagem. Eu vi a foto.
O clima mudou.
Celina cruzou os braços, sem demonstrar culpa.
— Então você já sabe.
Aquilo foi pior do que qualquer negação.
— Você tava com o meu noivo — Cecília disse, a voz falhando — por mais de um ano.
— E daí? — Celina respondeu, fria — ele me quis.
O tapa veio dessa vez do outro lado.
As duas começaram a brigar, empurrões, gritos, a tensão acumulada de anos finalmente explodindo em um momento que nenhuma delas conseguiu controlar.
— O que está acontecendo aqui?
A voz da mãe ecoou pela sala, firme.
Cecília se afastou, respirando com dificuldade.
— Pergunta pra sua filha favorita — disse, apontando — ela tá tendo um caso com o Gabriel há mais de um ano.
O silêncio que se seguiu foi… estranho.
Não havia choque.
Não havia surpresa.
Apenas um olhar calculado.
— Tudo bem — a mãe disse, com uma calma que fez o sangue de Cecília gelar — agora que você já sabe, podemos resolver isso de uma vez.
Cecília franziu a testa.
— Resolver o quê?
— Sua irmã vai se casar com Gabriel — ela respondeu, como se fosse algo simples — e você vai se casar no lugar dela.
— O quê?
— Com Brian Beckman.
O nome caiu como uma sentença.
— Do que você tá falando?
A mãe se aproximou.
— A empresa da sua família vai falir se esse casamento não acontecer. Ele quer a Celina, mas isso pode ser resolvido. Vocês são gêmeas idênticas. Se se vestirem iguais, ninguém vai perceber.
Cecília riu, sem humor.
— Você enlouqueceu.
— Não — a mãe respondeu, fria — eu estou salvando essa família.
— Eu não vou fazer isso.
A resposta veio imediata.
E foi seguida pelo estalo do tapa.
A dor no rosto não se comparava à dor no peito.
— Eu não vou deixar você destruir a vida da sua irmã porque quer agir como uma mimada — a mãe disse, dura — Gabriel já está com ela. Sempre esteve. Ela é a escolha dele.
As palavras atingiram como lâminas.
— Para de fazer drama, Cecília. Você vai ser uma bilionária.
As lágrimas voltaram com força.
— Aquele homem é um monstro.
A mãe não demonstrou empatia.
— E você é forte o suficiente para sobreviver a ele. Sempre foi mais forte que a sua irmã.
Aquilo não era um elogio.
Era uma sentença.
Cecília começou a chorar, sem conseguir segurar mais nada.
— Vai pro seu quarto — a mãe disse, virando o rosto — eu não aguento esse drama.
E, naquele momento, pela primeira vez na vida…
Cecília entendeu que não tinha ninguém.