3 — Não tenho ninguém

Cecília Foster acreditava, talvez de forma ingênua, que algumas coisas em sua vida ainda estavam sob controle.

O jantar daquela noite deveria ser uma delas.

O restaurante era sofisticado, com iluminação baixa e um ambiente cuidadosamente planejado para parecer acolhedor, mas Cecília não prestava atenção em nada daquilo. Seus olhos estavam voltados para Gabriel, sentado à sua frente, enquanto ele falava sobre detalhes do casamento com a tranquilidade de alguém que parecia não carregar peso algum nas próprias decisões.

— Eu estava pensando em aumentar a lista de convidados — ele disse, girando o vinho na taça — alguns contatos importantes podem aparecer.

Cecília assentiu, tentando acompanhar a conversa, embora sua mente estivesse um pouco distante.

Faltavam três meses para o casamento.

Três meses para finalmente começar uma nova fase, uma vida que ela acreditava ter escolhido com segurança, depois de anos tentando fazer tudo certo, agradar a família, manter as aparências e ocupar o espaço que sempre pareceu ser menor do que o da irmã.

Gabriel sempre foi… estável.

Confiável.

Ou, pelo menos, era o que ela acreditava.

— Vou ao banheiro — ele disse, se levantando com naturalidade — já volto.

Cecília sorriu de leve, observando-o se afastar, sem imaginar que, naquele instante, tudo o que ela conhecia estava prestes a desmoronar.

O celular dele, esquecido sobre a mesa, vibrou.

Ela não pretendia olhar.

Nunca foi o tipo de mulher que invadia a privacidade de alguém, muito menos de alguém com quem estava prestes a se casar. Mas a tela acendeu, e o nome que apareceu fez seu estômago revirar antes mesmo que ela pudesse entender o motivo.

Celina.

Sua irmã.

A mensagem apareceu na tela de forma clara:

“Tô com saudade… vou te mandar uma fotozinha pra você não morrer de tédio nesse jantar com a minha irmã.”

Cecília franziu a testa, confusa.

Aquilo não fazia sentido.

Sem pensar muito, como se fosse movida por um impulso que ela mesma não controlava, deslizou o dedo pela tela.

E abriu.

O mundo pareceu parar.

A imagem era inconfundível.

Celina.

Nua.

Exposta.

Posando com uma intimidade que não deixava espaço para dúvidas, como se aquilo fosse comum.

Como se fosse frequente.

O ar faltou.

Cecília ficou imóvel por alguns segundos, incapaz de processar completamente o que estava vendo. Sua mente tentou negar, tentou encontrar uma explicação lógica, algo que justificasse aquilo, qualquer coisa que não fosse a verdade óbvia que se escancarava diante dela.

Mas não havia.

Seus olhos começaram a arder, e a primeira lágrima caiu antes mesmo que ela percebesse.

Foi então que Gabriel voltou.

— Demorei? — ele perguntou, sentando-se novamente, sem notar imediatamente a expressão dela.

Cecília levantou o olhar devagar.

Havia algo quebrado ali.

— O que é isso?

A voz saiu baixa, mas carregada de algo que ele nunca tinha ouvido vindo dela.

Gabriel franziu a testa.

— Do que você tá falando?

Sem dizer nada, ela virou o celular para ele.

O silêncio que se instalou foi suficiente.

Ele empalideceu.

— Cecília, eu posso explicar…

— Você não tem nada pra me explicar — ela cortou, a voz falhando no meio da frase — desde quando isso tá acontecendo?

As pessoas ao redor começaram a perceber o tom elevado, mas Cecília não se importava.

— Desde quando você tem um caso com a minha irmã?

Gabriel passou a mão pelo rosto, nervoso, claramente tentando encontrar palavras.

— Não foi… não foi assim…

— Então foi como? — ela levantou a voz, as lágrimas já escorrendo livremente — me explica.

Ele hesitou.

E isso já era resposta suficiente.

— Foi… um erro — ele começou — um dia eu confundi vocês duas, a gente acabou… aconteceu, eu achei que era você, mas, quando percebi, já era tarde.

Cecília sentiu o estômago embrulhar.

— Você tá dizendo que transou com a minha irmã porque confundiu ela comigo?

— Ela… ela me ameaçou — ele continuou, tropeçando nas palavras — disse que ia contar tudo pra você, que ia acabar com o casamento… então a gente… continuou.

— Há quanto tempo?

O silêncio dele foi longo demais.

— Mais de um ano.

O som do tapa ecoou pelo restaurante antes que ele pudesse reagir.

— Você é nojento — Cecília disse, a voz tremendo — vocês dois são nojentos.

Sem esperar resposta, ela se levantou e saiu, ignorando os olhares, ignorando os murmúrios, ignorando tudo.

Só precisava sair dali.

Respirar.

Ou tentar.

---

Quando chegou em casa, a dor já não era só emocional.

Era física.

Pesava no peito, apertava a garganta, fazia cada passo parecer mais difícil do que deveria.

Ela entrou direto, sem pensar, e encontrou Celina na sala.

A visão foi suficiente.

— Você é uma desgraçada.

Celina se virou, surpresa apenas por um segundo.

— Do que você tá falando?

Cecília avançou.

— Eu vi a mensagem. Eu vi a foto.

O clima mudou.

Celina cruzou os braços, sem demonstrar culpa.

— Então você já sabe.

Aquilo foi pior do que qualquer negação.

— Você tava com o meu noivo — Cecília disse, a voz falhando — por mais de um ano.

— E daí? — Celina respondeu, fria — ele me quis.

O tapa veio dessa vez do outro lado.

As duas começaram a brigar, empurrões, gritos, a tensão acumulada de anos finalmente explodindo em um momento que nenhuma delas conseguiu controlar.

— O que está acontecendo aqui?

A voz da mãe ecoou pela sala, firme.

Cecília se afastou, respirando com dificuldade.

— Pergunta pra sua filha favorita — disse, apontando — ela tá tendo um caso com o Gabriel há mais de um ano.

O silêncio que se seguiu foi… estranho.

Não havia choque.

Não havia surpresa.

Apenas um olhar calculado.

— Tudo bem — a mãe disse, com uma calma que fez o sangue de Cecília gelar — agora que você já sabe, podemos resolver isso de uma vez.

Cecília franziu a testa.

— Resolver o quê?

— Sua irmã vai se casar com Gabriel — ela respondeu, como se fosse algo simples — e você vai se casar no lugar dela.

— O quê?

— Com Brian Beckman.

O nome caiu como uma sentença.

— Do que você tá falando?

A mãe se aproximou.

— A empresa da sua família vai falir se esse casamento não acontecer. Ele quer a Celina, mas isso pode ser resolvido. Vocês são gêmeas idênticas. Se se vestirem iguais, ninguém vai perceber.

Cecília riu, sem humor.

— Você enlouqueceu.

— Não — a mãe respondeu, fria — eu estou salvando essa família.

— Eu não vou fazer isso.

A resposta veio imediata.

E foi seguida pelo estalo do tapa.

A dor no rosto não se comparava à dor no peito.

— Eu não vou deixar você destruir a vida da sua irmã porque quer agir como uma mimada — a mãe disse, dura — Gabriel já está com ela. Sempre esteve. Ela é a escolha dele.

As palavras atingiram como lâminas.

— Para de fazer drama, Cecília. Você vai ser uma bilionária.

As lágrimas voltaram com força.

— Aquele homem é um monstro.

A mãe não demonstrou empatia.

— E você é forte o suficiente para sobreviver a ele. Sempre foi mais forte que a sua irmã.

Aquilo não era um elogio.

Era uma sentença.

Cecília começou a chorar, sem conseguir segurar mais nada.

— Vai pro seu quarto — a mãe disse, virando o rosto — eu não aguento esse drama.

E, naquele momento, pela primeira vez na vida…

Cecília entendeu que não tinha ninguém.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP