A Esposa do meu Chefe
A Esposa do meu Chefe
Por: G. Rodrigues
A Primeira Vista

O coração disparou antes mesmo que Alice abrisse os olhos.

O despertador tocava pela terceira vez quando ela finalmente se levantou, de um salto, como se tivesse levado um choque. A madrugada fora consumida entre relatórios e ajustes de última hora nos projetos do chefe.

No banheiro, o espelho devolveu um reflexo pouco animador: os fios loiro-mel em completo desalinho, os olhos âmbar arregalados, marcados pelo cansaço. Soltou um suspiro curto, às pressas jogou água gelada no rosto, tentando acordar à força.

Sem tempo para grandes correções, prendeu o cabelo em um coque improvisado, pegou a bolsa e desceu as escadas quase correndo, desviando por pouco de Tomás, o irmão mais novo, que ocupava metade do corredor com uma mochila exagerada.

— Droga, vou me atrasar de novo… — ela murmurou, conferindo o horário.

Viver com os pais e dois irmãos significava caos constante. Disputa por banheiro, café da manhã apressado e vozes sobrepostas. Sair no horário era quase um feito heroico.

— De novo? — Provocou Benício, encostado na porta. — Desse jeito, você vai acabar desempregada. E nem pense em pedir carona.

— Caí fora, nem te pedi nada! — Retrucou, saindo antes que a discussão se alongasse.

O caminho até o trabalho foi um borrão.

A Lancaster Enterprise ocupava boa parte da sua rotina — e, de certa forma, da sua vida. Alice começara ali como estagiária no setor de publicidade. Com os meses, insistência e noites mal dormidas, foi ganhando espaço. Um ano depois veio a efetivação. Depois, a promoção.

Assistente pessoal do CEO.

Victor Lancaster.

O nome, por si só, já bastava para tensionar seus ombros. Não era apenas pelo cargo que ele ocupava, mas pela presença que impunha. Reservado, preciso, o tipo de homem que parecia controlar tudo ao redor com facilidade desconcertante. Exigente… mais do que ela gostaria de admitir.

Alice atravessou o lobby ofegante, o som dos saltos ecoando no piso de mármore. Ajustou o blazer, recompôs a postura e entrou no elevador.

No andar superior, o ambiente exalava paz e sofisticação. Tons neutros, ar frio e um leve cheiro de lavanda quase imperceptível. Ela seguiu até a própria mesa, ligou o computador e começou a organizar a agenda do dia. Precisava recuperar o controle, repetia para si enquanto digitava: foram apenas alguns minutos de atraso, nada demais.

Foi então que ouviu passos discretos — e percebeu um aroma diferente do habitual. 

Alice ergueu os olhos e parou.

A mulher à sua frente parecia uma escultura. Havia nela algo quase mitológico, como a deusa Afrodite. Alta, postura impecável, pele clara contrastando com os cabelos negros perfeitamente alinhados até os ombros. Os olhos esverdeados eram penetrantes; percorriam cada detalhe com atenção calculada, como se avaliassem algo de valor — ou de risco.

Valentina Lancaster.

O ar faltou por um instante. Ainda não haviam sido apresentadas formalmente, mas não havia dúvida. Alice reconheceu o rosto do porta-retrato sobre a mesa do CEO.

O leve sorriso nos lábios de Valentina não era exatamente gentil.

— Então é você… — disse, devagar, como se experimentasse algo novo. — É… gostei.

Alice piscou, sentindo um nó se formar na garganta.

— Perdão?

Valentina avançou um passo. A distância entre as duas diminuiu o suficiente para que o perfume se tornasse mais intenso.

— A nova assistente do meu marido — completou, em tom baixo, sem desviar o olhar.

— Isso mesmo… — respondeu, desviando o olhar para o monitor. — Alice Consuelo Martini.

Valentina inclinou levemente a cabeça, analisando o nome como quem prova algo novo.

— Reparei no seu crachá, Alice… — repetiu, separando as sílabas com cuidado. — Angelical. Combina com você.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o gesto veio sem aviso. Valentina levou a mão ao rosto dela e tocou o canto do seu olho com suavidade.

A pele fria provocou um arrepio imediato.

Valentina sorriu — um sorriso lento, difícil de decifrar, então recuou.

— Calma, querida… era seu rímel borrado.

— Obrigada… — disse Alice, tentando se recompor. — Saí com pressa, não percebi.

Valentina não respondeu de imediato. Limitou-se a deslizar o olhar até o relógio de pulso, como se reavaliasse o tempo.

— Preciso falar com o Victor — disse, voltando a encará-la. — Meu marido me espera.

A ênfase não passou despercebida.

Ela seguiu até a porta do escritório. Antes de entrar, lançou um último olhar por cima do ombro.

— Foi um prazer, Alice. Tenho a sensação de que vamos nos dar muito bem.

Então, a porta se fechou.

Alice se irritou consigo mesma por ter reagido daquela forma. Não conseguia se concentrar. O ar ainda era  denso, como se a presença daquela mulher tivesse drenado o ambiente. Ela só queria sair dali o quanto antes.

Aproveitou a desculpa de imprimir alguns documentos e desceu até a copa quase no automático. Serviu um copo d’água — mãos levemente trêmulas — e tentou organizar os pensamentos.

— Pelo amor de Deus… o que a esposa do chefe veio fazer aqui?

A voz sussurrada e alarmada fez Alice se virar, assustada.

Dora estava na entrada, olhos arregalados, claramente à beira de um escândalo.

— Você está falando da senhora Lancaster?

Dora fechou os olhos por um segundo, impaciente.

— Não chama ela assim, se quiser evitar problema.

Alice franziu a testa.

— Por quê? O que tem de mais?

— Já fui secretária dela e sei exatamente do que estou falando. E, sinceramente, é melhor não contrariar — respondeu Dora, aproximando-se. — Quando ela aparece… alguém entra na mira.

Antes que Alice assimilasse, outra voz entrou na conversa.

— Ouça e obedeça. Alguém sempre paga o preço. E paga bem caro.

Dona Santa surgiu logo atrás, esfregando o chão, com expressão desconfiada.

Alice alternou o olhar entre as duas.

— O que vocês querem dizer com isso?

Dora hesitou por um instante, mas não resistiu.

— Você não percebeu ainda? O assistente anterior do CEO — começou, em tom conspiratório. — Dizem que ele se envolveu com ela.

Dona Santa soltou um som de reprovação.

— Nem fala, o coitado nunca mais foi visto.

Um arrepio percorreu a espinha de Alice.

— Sumiu… como?

— Demitido, oficialmente — respondeu Dora. — Mas ninguém acredita que tenha sido só isso. Ele era de confiança. Braço direito do Victor… e do pai dela também.

— Seu Ramon nunca ia aceitar — acrescentou Dona Santa, firme. — Ainda mais um funcionário como ele.

Dora soltou uma risada abafada.

— A família não é flor que se cheire. Ai de quem se envolve...

Alice engoliu em seco.

— Mas… por quê?

— Houve uma confusão — continuou Dora. — Valentina queria se separar… mas ele não aceitou. Ele é completamente obcecado por ela.

— Ela sabe disso — completou Dona Santa. — E se aproveita. Depois disso, ela foi embora daqui… e nunca mais voltou.

O silêncio que se seguiu foi breve, mas pesado.

Alice desviou o olhar, tentando organizar o que tinha acabado de ouvir.

— Então… o que ela faz aqui depois de tanto tempo?

Dora e Dona Santa trocaram um olhar rápido.

— É isso que ninguém entendeu ainda — murmurou Dora.

Dona Santa estreitou os olhos, juntando seus materiais de limpeza.

— Deve tá procurando uma nova vítima.

O estômago de Alice revirou.

— Devem estar planejando alguma coisa…

Ela saiu apressada, antes que qualquer uma pudesse continuar.

Enquanto caminhava de volta, a imagem de Valentina retornou com força. Aquele olhar, o toque, o sorriso.

Aquilo não tinha sido um encontro casual, mas o início de uma marcação.

E, se aquelas suspeitas fossem verdade, ela não fazia ideia de como lidar com a esposa do chefe.

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