Mundo de ficçãoIniciar sessãoCom um esforço hercúleo, ela jogou as cobertas para o lado. Suas pernas fraquejaram assim que seus pés tocaram o tapete macio, mas ela se segurou na borda da cama. Ela precisava de um plano, de uma rota de fuga e, acima de tudo, precisava ser invisível novamente. Mas como, se nem sabia como tinha feito daquela vez?
“- Pense, Octávia. Pense! Seus sentimentos controlam o seu dom... e agora, o único sentimento que tenho é o puro terror.”
Silas voltou e terminou de organizar os frascos na bandeja e soltou um suspiro, ajeitando os óculos. Ela voltou correndo para a cama e se cobriu.
— Esta sopa de legumes é excelente, mas o chá de camomila que tomei com a governanta está cobrando o preço — ele comentou com uma risadinha bem-humorada, batendo de leve na barriga. — Fique quietinha, querida. Vou apenas ao banheiro no final do corredor e já volto para ver se você precisa de mais alguma coisa. Não invente de sair da cama! Sei que está se sentindo mais forte, mais nada que diga. Puxa. Que forte, não é mesmo. – Ele riu enquanto brincava.
E assim que a porta se fechou e o som dos passos pesados do médico se afastou, o coração de Octávia disparou. Era agora ou nunca.
“- Callun Veinar está vindo. O tio do monstro que me deixou desse jeito, está vindo.”
O pânico a impulsionou. Ela pulou da cama, ignorou a tontura que nublou sua visão e se arrastou até a janela. O quarto ficava no segundo andar, mas para sua sorte, havia uma trepadeira robusta e o telhado da varanda logo abaixo. O ar fresco da tarde atingiu seu rosto, trazendo um cheiro de pinheiros e terra.
— Por favor... — ela sussurrou para o próprio corpo, sentindo o ventre latejar de leve. — Só desta vez. Fique invisível. Suma!
Ela fechou os olhos com força, focando no terror de ser encontrada pelo Alfa Axel ou pelo Alfa Callun.
“- Fique invisível.” – Ela repetia mentalmente como um mantra.
E logo ela sentiu aquele formigamento familiar, como se o ar ao seu redor estivesse ficando denso e frio. Ao olhar para as próprias mãos, viu que elas estavam ficando translúcidas, como se fossem feitas de vidro sob a luz do sol.
“- Isso!” – Ela sorriu aliviada, e com movimentos trêmulos, Octávia subiu no parapeito.
O esforço físico era hercúleo para alguém desnutrida, mas a adrenalina e o medo mascaravam sua dor. Ela se agarrou aos ramos da trepadeira, sentindo os dedos esfolarem na madeira rugosa. Cada centímetro que descia parecia uma eternidade.
Lá dentro, ela ouviu a porta do quarto se abrir novamente.
— Pronto, querida, agora vamos... — A voz de Silas morreu no ar. — Mas o quê?! Senhorita?!
O som da bandeja caindo no chão e o barulho de louça quebrada ecoaram pelo quarto.
— Guardas! — Silas gritou da janela, olhando para o jardim, mas sem conseguir enxergar Octávia, que estava oculta pelo dom e pela folhagem. — A garota sumiu! Ela fugiu pela janela!
Octávia tocou o solo gramado com um baque surdo, o impacto mandando uma onda de dor por suas pernas fracas. Mas ela não parou. Mesmo cambaleando, ela correu em direção à linha das árvores que cercavam a mansão.
“- Eu não posso voltar. Eu não posso deixar eles pegarem o meu filhote.”
Ela entrou na mata, o dom oscilando conforme sua respiração ficava mais pesada. Ela sabia que os lobos da matilha logo sentiriam seu rastro. Ela precisava ir longe, precisava sumir antes que o próprio Alfa Callun Veinar chegasse para o encontro que ela tanto temia.
Atrás dela, os uivos de alerta começaram a ecoar pela propriedade, avisando que a caçada havia começado.
Octávia corria entre as árvores, os pés descalços esmagando as folhas secas. A cada passo, ela sentia uma força estranha vindo de seu interior, como se o seu instinto materno estivesse enviando doses de adrenalina para mantê-la de pé.
“- Calma, meu pequeno...” — ela pensava, levando a mão ao ventre enquanto desviava de um tronco caído. “— Eu vou tirar a gente daqui. Eu prometo que ninguém vai tocar em você. O monstro do Alfa Axel e a família dele nunca vão nos encontrar. E um dia farei todos pagarem pela humilhação que sofri.”
O dom da invisibilidade oscilava como uma chama ao vento, mas ela sentia que estava ganhando terreno. O cheiro da liberdade estava perto, logo além da fronteira da propriedade. Foi aí, que seu dom parou de funcionar, a deixando completamente exposta, mas ela não se entregou e continuou a correr.
De repente, o mundo girou e um braço forte como um tronco de árvore surgiu de trás de um carvalho centenário, envolvendo seu pescoço com brutalidade. Antes que ela pudesse soltar um grito ou tentar desaparecer, sentiu um estalo metálico em seus pulsos. Eram algemas pesadas, gravadas com runas estranhas que brilharam em um tom rubro doentio.
No instante em que o metal tocou sua pele, a força de Octávia foi drenada. O dom da invisibilidade se extinguiu como uma lâmpada que se apagava, e ela desabou, sendo sustentada apenas pelo aperto de seu captor.
— Pensou que seria tão fácil assim, gracinha? — Uma voz rouca e carregada de malícia sussurrou em seu ouvido.
Octávia se debateu desesperadamente, mas seus músculos não respondiam. O pânico a sufocava. Ela reconheceria aquela voz em qualquer lugar; era a voz que povoava seus pesadelos desde que fora vendida.
Ao erguer o olhar turvo, ela viu o rosto cicatrizado e o sorriso podre do Chefe dos Mercadores de Escravos.
— Você deu um prejuízo enorme soltando aquele lote, sabia? — Ele riu, o hálito fétido de tabaco e bebida atingindo o rosto dela. — Mas agora que te achei, vou recuperar cada centavo. Você já brincou de fugir o suficiente. Já era hora de retornar para o seu dono.
— Não... por favor... — ela implorou, mas sua voz não passou de um fio inaudível.
— Cala a boca!
O mercador desferiu uma pancada violenta contra a têmpora de Octávia com o cabo de uma adaga. A dor explodiu em sua visão, transformando o mundo em borrões coloridos que rapidamente foram tragados por um abismo negro. Antes que a consciência a abandonasse totalmente, ela sentiu o corpo ser jogado por cima de um ombro áspero.
A última coisa que ela ouviu foi a risada triunfante do homem e o som de galhos quebrando, enquanto a escuridão a envolvia completamente.
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Ao mesmo tempo, o SUV preto nem havia parado totalmente quando Callun saltou do veículo, percebendo que o ar na entrada da mansão estava carregado de tensão. Seus guardas corriam de um lado para o outro e o Dr. Silas estava parado junto aos degraus, com o rosto pálido e as mãos trêmulas.
— Onde ela está? — O rosnado de Callun não foi uma pergunta, foi uma ordem gutural que fez os ombros de todos ao redor encolherem.
— Alfa... eu... eu sinto muito — Silas gaguejou, ajustando os óculos que escorregavam pelo suor. — Eu só fui ao banheiro por um instante. Juro! Quando voltei, a janela estava aberta... ela sumiu no ar! Eu a farejei saindo por ali, mas não conseguimos encontrá-la!
— COMO?! — Callun soltou um rugido furioso que ecoou pelas montanhas, fazendo os pássaros levantarem voo das árvores. — Como uma fêmea ferida, desnutrida e frágil escapa debaixo do nariz de uma matilha inteira de guerreiros?! Vocês são inúteis?!
Sem esperar resposta, Callun ignorou os protestos e correu em direção à ala médica. Ele não precisava de direções. Saltou pela mesma janela que ela usara, atingindo o solo com a graça de um predador. Seus olhos brilharam em um tom de ouro selvagem enquanto ele forçava seus sentidos ao limite.
O cheiro de mel e baunilha dela ainda estava por ali, ele seguiu o cheiro, até um ponto na floresta, percebendo que o aroma dela estava sendo sufocado por algo fétido. Algo que cheirava a suor rançoso, fumo barato e morte.
— Mercado negro... — Callun rosnou, as garras rasgando a terra, antes de se erguer. — Eles ousaram invadir o meu território.
— Alfa, espere! — Silas gritou seguindo os outros até o Alfa, desesperado. — Você não entende! Ela não pode ser tratada com brutalidade agora! Ela está fraca, desidratada e isso poderá ser fatal para o filhote!
Callun congelou no meio do caminho e seu mundo pareceu parar por um segundo. Ele se virou lentamente para o médico, a expressão de fúria sendo substituída por um choque paralisante.
— Filhote? — A voz de Callun saiu baixa, perigosa.
— Ela está grávida, Alfa — Silas confirmou, com a voz embargada. — De uns dois meses, pelos meus cálculos. Mas a vida daquele filhote depende da estabilidade dela. Se os mercadores a forçarem... podemos perder ambos.
O coração de Callun martelou contra o peito.
“- Grávida?” - Ele pensou na noite que a conhecera e que a fizera dele no banco de trás do carro. Na entrega dela, no perfume que o perseguiu por semanas. “- É meu? Ela estava fugindo de mim será que é de outro? E se é, de quem é?” - A dúvida durou apenas um milésimo de segundo antes de ser substituída por uma determinação férrea.
“- Vou trazê-la de volta. Preciso saber se esse filhote é meu.”







