Mundo ficciónIniciar sesiónO pânico a impulsionou e ela saltou da cama, ignorando a tontura que nublou sua visão, enquanto se arrastou até a janela.
O quarto ficava no segundo andar, mas para sua sorte, havia uma trepadeira robusta logo abaixo que levava direto até o chão.
O ar fresco atingiu seu rosto, trazendo um cheiro de terra molhada.
— Por favor... — ela sussurrou para o próprio corpo, sentindo o ventre latejar de leve. — Só desta vez. “Fique invisível.”
Ela fechou os olhos com força, focando em sumir.
Ela repetia mentalmente como um mantra, e logo ela sentiu aquele formigamento, sentindo o ar ao seu redor tremular.
Ao olhar para as próprias mãos, viu que elas estavam ficando translúcidas.
“- Isso!” – Ela sorriu aliviada, e com movimentos trêmulos, Octávia subiu no parapeito.
O esforço físico era hercúleo para alguém tão fraca, mas a adrenalina e o medo mascaravam sua dor.
Ela se agarrou aos ramos da trepadeira, sentindo os dedos esfolarem na madeira rugosa e desceu.
Lá dentro, ela ouviu a porta do quarto se abrir novamente.
— Voltei! — A voz de Silas morreu no ar. — Mas o quê?! Senhorita?! Guardas! — Silas correu e gritou pela janela, sem conseguir enxergar Octávia, que estava parcialmente oculta pelo seu dom. — A garota sumiu! Ela fugiu pela janela!
Ela tocou o solo com um baque surdo, o impacto mandando uma onda de dor por suas pernas.
Mas ela não parou, mesmo cambaleando, ela correu em direção à linha das árvores que cercavam a mansão.
“- Eu não posso deixar eles peguem meu filhote.”
Ela entrou na mata, seu dom oscilando conforme sua respiração ficava mais pesada.
Ela sabia logo sentiriam seu rastro, então precisava ir longe e sumir antes que o próprio Alfa Callun Veinar chegasse para o encontro que ela tanto temia.
Atrás dela, os uivos de alerta começaram a ecoar pela propriedade, avisando que a caçada havia começado.
Ela corria por entre as árvores, os pés descalços esmagando as folhas secas.A cada passo, ela sentia uma força estranha vindo de seu interior, como se o seu instinto estivesse enviando doses de adrenalina para ajudá-la.
“- Calma, meu pequeno...”
Ela pensava, levando a mão ao ventre enquanto desviava de um tronco caído.
“— Eu vou tirar a gente daqui. Eu prometo que ninguém vai tocar em você.”
O dom da invisibilidade oscilava como uma chama ao vento, mas ela sentia que estava ganhando terreno.
O cheiro da liberdade estava perto, foi aí, que seu dom parou de funcionar, a deixando completamente exposta, mas ela não se entregou e continuou a correr.
Minutos depois, seu mundo girou e um braço forte como um tronco de árvore surgiu de trás de um carvalho, envolvendo seu pescoço com brutalidade.
E antes que ela pudesse soltar um grito, sentiu um estalo metálico em seus pulsos, antes de ouvir uma voz rouca e carregada de malícia sussurrar em seu ouvido.
— Pensou que seria tão fácil assim, gracinha?
Octávia se debateu desesperadamente, mas seus músculos não respondiam. O pânico a sufocava, pois ela reconhecia aquela voz, era a voz que povoava seus pesadelos desde que fora vendida.
Ao erguer o olhar turvo, ela viu o rosto com sorriso podre do Chefe dos Mercadores de Escravos.
— Você deu um prejuízo enorme soltando aquele lote, sabia?
Ele riu com o hálito fétido atingindo o rosto dela.
— Mas agora que te achei e vou recuperar cada centavo.
— Não... por favor... — ela implorou, mas sua voz não passou de um fio inaudível.
— Cala a boca!
O mercador desferiu uma pancada violenta contra a têmpora dela com o cabo de uma adaga.
A dor explodiu em sua visão, transformando o mundo em borrões rapidamente a tragando para um abismo negro, mas antes que a consciência a abandonasse totalmente, ela se sentiu ser jogada por cima do ombro.
E a última coisa que ela ouviu foi a risada triunfante do homem e o som de galhos se quebrando.
Ao mesmo tempo, o SUV nem havia parado totalmente quando Callun saltou do veículo, percebendo que havia algo errado no ar.
Seus guardas corriam de um lado para o outro e o Dr. Silas estava parado junto aos degraus, com o rosto pálido e as mãos trêmulas.
— Onde ela está? — O rosnado de Callun não foi uma simples pergunta, foi uma ordem assustadora que fez os ombros de todos ao redor encolherem.
— Alfa... eu... eu sinto muito
Silas gaguejou, ajustando os óculos que escorregavam pelo suor.
— Eu só fui ao banheiro por um instante. Juro! Quando voltei, a janela estava aberta... Eu a farejei, mas não conseguimos encontrá-la!
— COMO?!
Callun soltou um rugido furioso que ecoou pelas montanhas, fazendo os pássaros levantarem voo das árvores.
— Como uma fêmea ferida, desnutrida e frágil escapa debaixo do nariz de uma matilha inteira?! Vocês são inúteis ou o que?!
Sem esperar resposta, Callun ignorou os protestos e correu em direção ao quarto que ele a deixara da última vez, saltando pela mesma janela que ela usara, atingindo o solo com a graça de um predador.
Seus olhos brilharam selvagens enquanto ele forçava seus sentidos ao limite.
O cheiro dela ainda estava por ali, e ele o seguiu, até um ponto na floresta, onde percebe que o aroma dela estava sendo sufocado por algo fétido.— O mercado negro... — Callun rosnou com as garras rasgando a terra, antes de se erguer. — Eles ousaram invadir o meu território.
— Alfa, espere! — Silas gritou seguindo os outros até o Alfa. — Você não entende! Ela não pode ser tratada com brutalidade agora! Ela está fraca e isso poderá ser fatal para o filhote!
Callun congelou no meio do caminho antes de se virar lentamente para o médico com a expressão de fúria sendo substituída por uma de choque.
— Filhote? — A voz de Callun saiu baixa e perigosa.
— Ela está grávida, Alfa. — Silas confirmou. — De uns dois meses, pelos meus cálculos. Mas a vida daquele filhote depende da estabilidade dela. Se a forçarem... podemos perder ambos.
O coração de Callun martelou contra o peito.
“- Grávida?”Ele pensou na noite que a conhecera, na entrega dela e no perfume que o perseguiu por semanas.
“- Será que é meu?”
A dúvida durou apenas um milésimo de segundo antes de ele se lembrar que ela era virgem, substituindo sua dúvida por determinação.
— Alfa! — Asher se aproximou rapidamente, segurando um tablet com um comunicado oficial. — Mensagem urgente do Rei Alfa Dorian. É sobre o Torneio Real para a sucessão do trono.
Callun mal o olhou, mas Asher continuou com a voz firme mesmo assim.
— O Rei foi claro. Para se candidatar ao torneio deste ano, o candidato precisa possuir uma família constituída por uma fêmea e um filhote. Sem isso, o senhor será descartado.
O silêncio que se seguiu foi sepulcral, enquanto Silas, Asher e Yukio trocaram olhares tensos.
Callun olhou para a floresta, sentindo o rastro daquele que levara sua fêmea, e possivelmente, seu filhote para longe.
E se ele não fosse o pai, ele mataria quem quer que tivesse tocado nela depois, mas se fosse dele, esse verme conheceria o verdadeiro significado de terror.
— Asher. Yukio. Preparem-se.— ordenou Callun com a voz fria como gelo.
— Para onde vamos, Alfa? — Yukio perguntou, já se animando.
Callun se voltou para os seus homens, sua aura de Alfa irradiando com tanta força que os guardas ao redor baixaram a cabeça em submissão imediata.
— Vamos buscar a minha Luna e o meu filhote. E quem quer que esteja entre mim e eles, não viverá para ver o nascer do sol.
O queixo de Asher caiu ao mesmo tempo que os guardas paralisaram boquiabertos com a declaração de que uma jovem loba desconhecida acabara de ser elevada ao posto de Luna da Matilha dos Lobos Negros.
No meio do choque geral, Yukio soltou uma gargalhada vitoriosa e estendeu a mão para Asher.
— Pagando, Ash! Eu disse que ela era a nossa nova Luna!
Yukio comemorou, ignorando o clima pesado enquanto Callun partia como uma sombra em direção à mansão.
O som seco do tapa de Asher na nuca de Yukio ecoou pelo jardim, cortando a comemoração inapropriada do Gama.
— Ai! Por que isso? — Yukio reclamou, massageando o pescoço enquanto fazia um bico indignado.
— Porque você é um sem noção, Yuki! — Asher ralhou, com a expressão séria. — Controle-se. Uma hora o Alfa Callun vai perder a paciência com as suas brincadeiras e eu não vou estar aqui para impedir que ele te degole.
Yukio deu de ombros, abrindo um sorriso divertido e atrevido, nada abalado pela bronca.
— Relaxa, Ash. O nosso Boss é bom para a gente, mesmo com aquela carranca brava dele. É o jeitinho dele.
Asher soltou um suspiro pesado, passando a mão pelo rosto.
— Apenas se controle. Já basta o Alfa estar agindo de forma incomum. Além disso você já o viu carregar alguém desde o que houve com a senhorita Pan?
O sorriso de Yukio murchou um pouco, tornando-se mais pensativo. Ele olhou para o Beta com o olhar mais aguçado.
— É verdade. Ele mal carrega cadáveres. – ele lembrou - Ele está mesmo diferente, não está? Você acha que aquela pequena ômega é mesmo uma boa para ele? Sabe, a Luna que o lobo dele e toda a matilha esperou por tanto tempo.







