Mundo ficciónIniciar sesiónQUANDO O DESTINO OBSERVA
Ayla passou os dois dias seguintes tentando convencer a si mesma de que estava preparada. Não estava. A verdade era essa. Nenhuma quantidade de trabalho. Nenhuma reunião. Nenhuma fornada de doces. Nada conseguia silenciar a ansiedade que crescia dentro dela desde que descobriu que Gael estaria no evento. Era como viver com uma tempestade presa dentro do peito. Ela tentava ignorar. Mas o corpo sempre a traía. As mãos tremiam. O coração acelerava sem motivo. A respiração ficava mais curta. E, pior que tudo... As lembranças voltavam. Naquela manhã, Ayla estava na cozinha principal da Douce Lune supervisionando a produção dos doces que seriam servidos no evento. A equipe trabalhava sem parar. Macarons. Tortas. Mini sobremesas. Doces finos. Tudo precisava estar perfeito. Aquela era uma das maiores oportunidades da confeitaria. Mas Ayla mal conseguia se concentrar. — Você colocou sal no creme de baunilha. A confeiteira ao seu lado arregalou os olhos. — O quê? Ayla piscou. Confusa. Olhou novamente para a bancada. Não. Não havia sal. Ela simplesmente estava distraída. Elisa observou tudo de longe. Quando a funcionária saiu, aproximou-se imediatamente. — Certo. Vamos conversar. Ayla suspirou. — Não. — Sim. — Elisa... — Você está surtando. — Eu não estou surtando. — Você quase inventou sal onde não existia. Ayla passou as mãos pelo rosto. Exausta. — Eu só preciso que esse evento termine. Elisa cruzou os braços. — Não. Você precisa enfrentar isso. Ayla soltou uma risada amarga. — Enfrentar o quê? — Gael. O nome dele pareceu mudar a temperatura do ambiente. Ayla desviou imediatamente o olhar. — Não existe mais nada para enfrentar. Mentira. As duas sabiam. Porque se não existisse nada... Ela não estaria tão nervosa. Elisa se aproximou mais. — Você ainda o ama? O silêncio respondeu antes da própria Ayla. E isso foi suficiente. Os olhos da amiga suavizaram. Porque aquela era a tragédia de toda a história. O amor nunca foi embora. Apenas foi enterrado sob toneladas de dor. Naquela mesma manhã, no outro lado da cidade, Gael observava seu reflexo no vidro do escritório. Parecia cansado. Mais do que normalmente. Os últimos dias haviam sido um inferno. Porque tudo o que ele construiu para esquecer Ayla começava a desmoronar. O trabalho já não o distraía. As reuniões irritavam. Os contratos pareciam inúteis. E a proximidade do evento piorava tudo. A porta do escritório abriu. Rafael entrou sem cerimônia. Era o único que possuía liberdade suficiente para isso. Amigo desde a adolescência. Sócio. Praticamente um irmão. — Você está horrível. Gael lançou um olhar seco. — Bom dia para você também. Rafael sentou-se na cadeira à frente da mesa. — Dormiu? — Não. — Comeu? — Não. — Está apaixonado novamente? Gael quase jogou a caneta nele. Rafael sorriu. — Então é verdade. — O quê? — Ela voltou. O silêncio confirmou. Rafael suspirou lentamente. Porque conhecia aquela história. Conhecia o que aconteceu. Conhecia o homem que Gael se tornou depois que a Ayla desapareceu. — E o que você pretende fazer? Gael encarou os documentos sobre a mesa. — Nada. — Mentira. — Não é. — Você não sabe mentir para mim. Gael apertou o maxilar. Porque Rafael estava certo. Ele queria vê-la. Queria respostas. Queria entender. Mas também queria odiá-la. E os dois sentimentos coexistiam dentro dele como uma guerra. Naquela tarde, Ayla foi ao Orfanato Santa Luz. Precisava ver Lívia. Sem perceber, já havia transformado aquela visita em necessidade. Assim que entrou no jardim, encontrou a menina sentada sob uma árvore desenhando. Sozinha. Como sempre. Ayla sentou-se ao lado dela. — O que está desenhando? Lívia rapidamente tentou esconder a folha. — Nada. — Nada costuma ocupar muito espaço no papel. A menina sorriu discretamente. Um sorriso pequeno. Tímido. E Ayla sentiu o coração apertar. Ela tinha vontade de protegê-la de tudo. Do mundo. Da tristeza. Da solidão. Era um sentimento intenso demais. Quase assustador. — Você vem amanhã? Lívia perguntou de repente. Ayla sorriu. — Venho. — Promete? A pergunta fez algo doer dentro dela. Novamente. Porque promessas tinham peso. E ela sabia muito bem disso. Mesmo assim respondeu: — Prometo. Lívia pareceu relaxar imediatamente. Como se aquelas palavras fossem suficientes para fazê-la sentir segurança. Então voltou ao desenho. Mas uma rajada de vento arrancou a folha de suas mãos. O papel voou alguns metros antes de cair perto dos pés de Ayla. Ela o pegou automaticamente. E congelou. Era um desenho. Uma família. Uma mulher. Um homem. Uma menina. Os três estavam de mãos dadas. O coração dela disparou. — Lívia... A menina abaixou os olhos. — É feio? — Não. A voz de Ayla saiu quase quebrada. — É lindo. Lívia permaneceu em silêncio. Então falou tão baixo que quase parecia um segredo. — Eu sonho com eles às vezes. Ayla sentiu o peito apertar brutalmente. — Com quem? — Minha família. O mundo pareceu desacelerar. Porque havia tanta esperança naquela frase. Tanta tristeza. Tanta solidão. Que Ayla precisou desviar o rosto para esconder os olhos marejados. Naquela noite, já em casa, ela começou a organizar a roupa que usaria no evento. Tentou agir normalmente. Tentou se convencer de que seria apenas mais uma entrega profissional. Mas não era. Nunca seria. Porque Gael estaria lá. E pela primeira vez em cinco anos... ela não teria para onde fugir. Pouco antes de dormir, o celular vibrou sobre o criado-mudo. Uma mensagem da coordenação do evento. Ayla abriu distraidamente. Mas seu corpo inteiro congelou ao ler a programação oficial. No centro do painel dourado estava escrito: ANFITRIÃO PRINCIPAL: GAEL VALENÇA. A respiração falhou. O coração disparou. E naquele instante... Ayla percebeu que o destino estava se aproximando rápido demais.






