Mundo ficciónIniciar sesiónGael não dormiu naquela noite.
O relógio digital marcava quase quatro da manhã quando ele finalmente desistiu de tentar. A cidade permanecia silenciosa do lado de fora da cobertura, iluminada apenas pelas luzes distantes dos prédios e pelas faixas avermelhadas dos carros que atravessavam as avenidas vazias. Dentro do apartamento… o silêncio parecia sufocante. Gael afrouxou novamente a gravata enquanto caminhava até o bar pela terceira vez naquela madrugada. Uísque. Sempre uísque. O líquido queimava a garganta. Aquecia o corpo. Mas nunca alcançava o vazio dentro dele. Ele permaneceu parado diante da janela enorme segurando o copo entre os dedos fortes. Mas sua mente não estava ali. Estava presa em um nome. Ayla. Cinco anos. Cinco anos sem vê-la. Sem ouvir sua voz. Sem entender por que ela foi embora. E agora… ela tinha voltado. Gael apertou o maxilar com força. Tentando controlar a irritação que crescia dentro dele desde que leu o nome da confeitaria. Porque não era apenas raiva. Era pior. Era o fato de que, mesmo depois de tudo… ele ainda sentia. Aquilo o enfurecia. A porta do escritório se abriu sem aviso. Lavínia entrou usando um robe de seda claro e expressão cansada. Ela observou Gael em silêncio por alguns segundos. O copo de uísque. As olheiras discretas. A tensão visível no corpo dele. — Você nem tentou dormir, tentou? Gael continuou olhando a cidade. — Não estou com sono. Mentira. Ele estava exausto. Mas toda vez que fechava os olhos… Lembrava dela. Lavínia caminhou devagar até ele. Parando ao lado da janela. — Ainda é por causa daquela mulher? O silêncio dele respondeu primeiro. E isso foi suficiente para irritá-la. — Cinco anos, Gael. A voz dela saiu mais baixa dessa vez. Mais amarga. — Cinco anos e você ainda reage como se ela tivesse acabado de sair da sua vida. Gael tomou outro gole da bebida antes de responder: — Você está exagerando. Lavínia soltou uma risada curta. Fria. — Estou? Ela virou o rosto lentamente para encará-lo. — Você não dorme desde que ouviu o nome dela. Gael permaneceu imóvel. Mas a tensão no maxilar piorou. Lavínia percebeu imediatamente. E aquilo a destruiu por dentro. Porque não importava o quanto tentasse… Nunca conseguia competir com uma memória. — Você sabe o que ela fez com você. Insistiu. Aquilo fez Gael finalmente olhar para ela. Os olhos cinzentos estavam frios. Mas existia algo cansado ali também. — Eu sei exatamente o que aconteceu. Lavínia sustentou o olhar dele por alguns segundos. Então perguntou cuidadosamente: — Então por que ainda parece tão afetado? Gael não respondeu imediatamente. Porque nem ele sabia explicar. O problema nunca foi apenas o abandono. O problema era que Ayla levou junto a única parte dele que ainda parecia humana. E depois disso… Tudo ficou frio. Ele terminou o uísque devagar antes de falar: — Esse assunto acabou. Lavínia observou o rosto dele em silêncio. A frieza. A distância. O vazio. Ela conhecia aquele homem. Mas também lembrava perfeitamente do homem que existia antes. O homem que sorria perto de Ayla. Que olhava para ela como se o mundo inteiro desaparecesse. E isso ainda a apavorava. — Você vai mesmo ao evento? Gael colocou o copo vazio sobre a bancada. — Sim. O coração de Lavínia apertou instantaneamente. Porque ela percebeu. Ele queria vê-la. Mesmo que jamais admitisse. Mais tarde naquela manhã, Gael chegou à empresa ainda carregando o peso da noite sem sono. Os funcionários se afastavam automaticamente conforme ele atravessava os corredores. O ambiente inteiro parecia ficar mais tenso quando ele aparecia. Ninguém ousava atrasar relatórios. Ninguém ousava cometer erros. Gael havia se tornado exatamente o tipo de homem que seu pai sempre quis: Frio, implacável, inatingível. Mas aquilo custou tudo. Ele entrou na sala de reuniões sem olhar para ninguém. Os diretores imediatamente se levantaram. — Bom dia, senhor Valença. Gael apenas assentiu antes de se sentar na cabeceira da mesa. A reunião começou. Números. Contratos. Investimentos. Mas pela primeira vez em anos… ele não conseguia se concentrar. Porque alguma coisa continuava invadindo sua mente repetidamente. Os olhos castanhos de Ayla. A forma como ela sorria quando ficava nervosa. O jeito que tremia quando ele a tocava. Gael fechou a pasta bruscamente. Os executivos se calaram imediatamente. O silêncio ficou pesado. — Remarquem a reunião. Os homens trocaram olhares confusos. — Senhor? Gael se levantou. Impaciente. — Eu disse para remarcarem. Ninguém questionou. Nunca questionavam. Minutos depois, sozinho novamente em seu escritório, Gael afrouxou os primeiros botões da camisa tentando respirar melhor. Mas não adiantava. Porque aquilo não era ansiedade. Era memória. E memórias eram perigosas. O celular vibrou sobre a mesa. Mensagem de Helena Valença. “Espero que esteja preparado para o evento. A família Albuquerque também estará presente.” Gael soltou uma risada amarga. Claro. Status. Negócios. Aparências. Era só isso que importava para aquelas pessoas. Outra mensagem chegou logo em seguida. Dessa vez enviada pela equipe do evento. Lista oficial de fornecedores. Gael abriu automaticamente. E congelou ao ver novamente o nome dela. Ayla Duarte. O peito dele apertou com força inesperada. Cinco anos. E ainda doía. Aquilo o irritou profundamente. Porque Gael construiu uma vida inteira tentando matar tudo relacionado a ela. Trabalho. Dinheiro. Frieza. Mas bastou um nome para destruir o controle que passou anos construindo. Ele fechou os olhos por alguns segundos. E então uma lembrança atravessou sua mente violentamente: Ayla sorrindo enquanto segurava farinha no rosto dentro da cozinha da mansão. Aquela memória atingiu algo profundo demais. Gael abriu os olhos imediatamente. Respiração pesada. Mandíbula travada. Porque pela primeira vez em muito tempo… ele sentiu saudade. E aquilo era a coisa mais perigosa que poderia acontecer.






