Mundo ficciónIniciar sesiónO PRIMEIRO OLHAR
O dia do evento chegou. E desde o momento em que abriu os olhos naquela manhã, Ayla soube que nada seria normal. O céu estava limpo. Claro demais. Bonito demais. Como se o universo ignorasse completamente o caos que existia dentro dela. Ela permaneceu sentada na beira da cama durante vários minutos. Observando o vazio do quarto. Tentando controlar a própria respiração. Tentando convencer o coração a desacelerar. Inútil. A ansiedade estava ali. Pesada. Instalada dentro do peito desde o instante em que soube que encontraria Gael novamente. Cinco anos. Cinco anos sem vê-lo. Cinco anos tentando esquecer. Cinco anos fracassando. A preparação para o evento consumiu boa parte da manhã. A equipe da Douce Lune transportou cuidadosamente os doces até o salão onde aconteceria a recepção. O local era grandioso. Luxuoso. Exatamente o tipo de ambiente que Ayla sempre evitava. Lustres gigantes de cristal iluminavam o salão principal. Arranjos de flores brancas decoravam cada mesa. Garçons caminhavam silenciosamente entre empresários, políticos e convidados importantes. O cheiro de perfumes caros pairava no ar. Tudo parecia perfeito. Artificialmente perfeito. Ayla supervisionava a montagem da mesa principal de sobremesas quando percebeu suas mãos tremendo. Novamente. Ela respirou fundo. Uma vez. Duas. Três. Mas nada ajudava. Porque o problema não era o evento. Era ele. Do outro lado da cidade, Gael ajustava os punhos da camisa social diante do espelho. O reflexo mostrava exatamente o homem que o mundo conhecia. Impecável. Poderoso. Frio. Mas ninguém enxergava a guerra que existia por trás daquela aparência. Nem mesmo ele conseguia entender completamente. Durante anos, acreditou que o tempo apagaria tudo. As memórias. A saudade. A raiva. Mas bastou ouvir o nome dela novamente para perceber que estava errado. Muito errado. Ayla continuava existindo dentro dele. Como uma ferida que nunca cicatrizou. — Senhor Valença? A voz do motorista o trouxe de volta à realidade. — Já estamos atrasados. Gael pegou o paletó. Sem responder. Porque falar parecia exigir mais energia do que possuía naquele momento. No salão principal, os convidados começavam a chegar. Ayla mantinha os olhos fixos no trabalho. Organizando detalhes. Corrigindo posições. Conferindo bandejas. Qualquer coisa para evitar pensar. Qualquer coisa para evitar olhar para a entrada. Mas então... o movimento ao redor mudou. Sutilmente. Como uma onda atravessando o ambiente. Algumas pessoas se endireitaram. Outras sorriram. Algumas começaram a cochichar. Ayla sentiu. Antes mesmo de ver. Seu corpo percebeu primeiro. O coração disparou. A respiração falhou. E uma sensação antiga percorreu sua espinha. Não. Por favor. Não. Ela não queria sentir aquilo novamente. Mas era tarde. Muito tarde. Porque quando ergueu os olhos... viu. Gael. Parado na entrada principal. O mundo desapareceu. Literalmente. O som das conversas sumiu. A música ficou distante. As pessoas ao redor deixaram de existir. Durante alguns segundos... existiram apenas os dois. Ayla ficou imóvel. Completamente imóvel. Porque o homem parado do outro lado do salão era ao mesmo tempo familiar e desconhecido. Gael parecia maior. Mais duro. Mais frio. Os cabelos escuros estavam impecavelmente alinhados. O terno sob medida destacava a postura imponente. Mas os olhos... Os olhos continuavam os mesmos. E isso destruiu algo dentro dela. Cinco anos desapareceram naquele instante. Como se nunca tivessem existido. Do outro lado do salão, Gael também a viu. E congelou. O choque foi tão brutal que seu corpo simplesmente esqueceu como se mover. Ayla estava ali. Real. Viva. Respirando. Os cabelos escuros caíam suavemente sobre os ombros. O vestido azul-marinho destacava sua elegância natural. Ela estava ainda mais bonita do que lembrava. E aquilo o atingiu como uma pancada. Porque durante anos ele tentou convencer a si mesmo de que a esqueceria. Mas agora... bastou vê-la. E tudo voltou. Cada memória. Cada sentimento. Cada maldita lembrança. O coração dele bateu forte. Uma vez. Depois outra. E outra. Algo que não acontecia havia muito tempo. Ayla tentou desviar o olhar. Não conseguiu. Gael tentou continuar andando. Também não conseguiu. Era como se algo invisível os mantivesse presos naquele momento. Naquele olhar. Naquele passado. Os convidados continuavam circulando. Conversando. Sorrindo. Mas para eles... o tempo parecia ter parado. Ayla sentiu as pernas enfraquecerem. Precisou apoiar discretamente a mão na mesa para não perder o equilíbrio. Seu corpo inteiro tremia. Porque não importava quantos anos passassem. Ainda era ele. Ainda era Gael. Ainda era o homem que ela amou. E que destruiu seu coração. Ou talvez... o homem cujo coração ela acreditava ter destruído. Gael finalmente começou a caminhar. Lentamente. Diretamente em sua direção. Cada passo aumentava a tensão. Cada metro diminuía a distância que os separava há cinco anos. Ayla não conseguia respirar. O peito parecia apertado demais. O coração rápido demais. Tudo rápido demais. Quando ele finalmente parou diante dela... o silêncio entre os dois foi ensurdecedor. Gael observou cada detalhe. Como se precisasse ter certeza de que ela era real. Como se temesse que desaparecesse novamente. Ayla ergueu os olhos. Encontrando os dele. E então aconteceu. A primeira palavra. As primeiras palavras depois de cinco anos. A voz de Gael saiu rouca. Baixa. Carregada de algo que nem ele conseguiu esconder. — Você está viva. O coração de Ayla quase parou. Porque aquela não era uma acusação. Havia raiva. Havia ódio. Havia dor. Dor pura. Nua. Crua. E isso foi muito pior. Muito pior. Porque pela primeira vez... Ela percebeu que talvez não tivesse sido a única a sofrer. O silêncio voltou a crescer entre eles. Pesado. Insuportável. Até que Gael deu mais um passo à frente. Os olhos presos nos dela. Como se procurasse respostas. Como se procurasse os cinco anos que perderam. E naquele instante... Ayla percebeu que o verdadeiro reencontro ainda nem tinha começado. E que o passado tinha suas contas para acertar.






