Acordei antes do amanhecer.
Não foi exatamente sono — foi fuga.
O quarto de hóspedes era bonito demais para a forma como eu me sentia por dentro. A cabeça latejava, o peito ainda preso na humilhação da noite anterior, e cada vez que eu tentava fechar os olhos, a voz de Rafael ecoava, dura, injusta, desconfiada.
Levantei-me devagar, coloquei as poucas roupas que tinha trazido na bolsa improvisada por ele e saí do quarto tentando fazer o menor ruído possível. Sofia dormia tranquila quando passei pela porta entreaberta. Isso ao menos me deixou respirar um pouco.
Mas quando virei o corredor e cheguei à cozinha, dei de cara com Eduardo.
Ele estava ali, encostado na bancada de mármore, camisa dobrada até os antebraços, xícara de café em mãos.
Postura impecável.
Olhar atento.
Como se já estivesse esperando por mim.
— Você acordou cedo — ele comentou, sem rodeios.
— É… eu queria ir embora antes que alguém precisasse de mim. Sofia está bem. — Tentei sorrir, mas minha voz não ajudou.