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Capítulo 7 — A Noite do Confronto

A febre de Sofia foi baixando aos poucos, depois da água morna, compressas e carinho. Quando senti sua pele menos quente, meu corpo inteiro pareceu relaxar. Ela resmungou baixinho, virou-se para o lado e, minutos depois, estava dormindo tranquila.

Eduardo já tinha ido embora — graças a Deus. O clima no quarto estava mais leve sem ele rondando como um guarda militar.

Rafael entrou em silêncio, carregando uma pilha de roupas dobradas e uma toalha fofa, branquinha. Parou à minha frente, ainda parecendo meio abalado pelo susto de me ver do jeito que me viu.

Meu constrangimento voltou com força total.

— Trouxe isso pra você — disse ele, sem rodeios. — Deixei também uma troca completa sobre a cama do quarto de hóspedes.

Acatei, sem coragem de encará-lo muito tempo.

— Obrigada… de verdade. — Peguei as roupas, tomando o cuidado de não esbarrar nele.

Ele olhou para Sofia, depois para mim, a expressão difícil de decifrar.

— Você pode usar o quarto de hóspedes pra se arrumar. — Ele fez um gesto com a cabeça. — Fica no fim do corredor.

— Claro. — Minha voz saiu baixa.

Eu ajeitei Sofia na cama, cobrindo-a com o lençol, acariciando sua testa só para ter certeza de que estava realmente dormindo. Quando me virei para sair, Rafael estava parado à porta.

Passei por ele devagar, segurando as roupas contra o peito.

Quando quase deixei o quarto…

— Isadora.

Eu parei.

Mas não me virei.

— Eu sei que está tarde — ele disse. — Mas quando terminar… te espero no escritório.

Meu coração afundou.

Virou peso.

Frio.

Ansiedade pura.

— Tudo bem — murmurei, fingindo calma. — Já vou.

Saí, tentando não demonstrar o caos que se formava dentro de mim.

Segui pelo corredor com passos curtos, a roupa presa contra o peito, a mente completamente enlouquecida.

Por que ele queria falar comigo?

O que ele queria exatamente?

Será que tinha percebido algo do meu desconforto?

Será que era por causa da noite que tivemos?

Será que… não. NÃO. Ele não parecer ser desse tipo. Ou será?

Cada possibilidade era um soco.

Meu rosto queimava de vergonha da roupa, do estado em que ele me viu.

E se… fosse sobre isso?

E se ele achasse inadequado?

E se estivesse pensando em me dispensar?

Eu não podia perder esse emprego. Não agora. Não depois de tudo.

Entrei no quarto de hóspedes, fechei a porta e respirei fundo.

Troquei de roupa rápido, lavei o rosto, amarrei o cabelo. Tentei parecer… apresentável. Tentei recuperar alguma dignidade.

Mas por dentro?

Eu era só nervo.

Quando saí do quarto, minhas pernas tremiam.

O escritório ficava no térreo — ao lado da sala principal.

Desci as escadas sentindo como se estivesse indo para um julgamento.

A porta estava entreaberta.

Luz acesa.

Toquei duas vezes.

Fraco.

Quase sem som.

— Entre — a voz dele veio firme, segura.

Abri devagar.

Rafael estava atrás da mesa, sentado na poltrona de couro, o rosto iluminado apenas pela luz amarela da luminária. Parecia mais alto, mais sério, mais impossível de decifrar.

Quando ergueu o olhar para mim…

Parecia que estava lendo minha alma.

Eu senti as costas ficarem eretas por instinto.

— Em que posso ajudar? — perguntei, limpando a garganta, tentando um sorriso educado.

Ele não respondeu.

Apenas continuou me estudando.

Longos segundos de silêncio.

Então ele se levantou.

E quando Rafael levantava… a sala parecia diminuir.

Ele deu a volta na mesa, caminhando devagar até ficar a poucos passos de mim. O olhar dele fixo, incisivo, intenso demais.

— Isadora — começou, a voz baixa, firme. — Quero que me responda com sinceridade.

Meu estômago travou.

— Claro.

Ele inclinou a cabeça levemente, como se medisse minhas reações.

— Qual é exatamente… a sua história?

Eu pisquei, confusa.

— Minha história?

— Sim. Onde vivia antes, por que saiu do emprego anterior, por que decidiu vir trabalhar aqui.

— Ah… — tentei sorrir, sem entender o rumo da conversa. — Eu… eu morava em Brasília, me mudei recentemente para São Paulo. E meu antigo emprego… bom, eu fui demitida. A escola estava cortando gastos, e —

Ele ergueu a mão, interrompendo.

— E foi isso que a trouxe até aqui? — perguntou, ainda se aproximando um pouco mais. — A necessidade?

— Sim… claro — respondi, segurando as mãos para evitar que tremessem.

O problema era que ele não parecia estar perguntando para entender.

Parecia estar interrogando.

— É curioso — disse ele então, estreitando os olhos. — Logo depois daquela noite… justamente você aparecer na entrevista para cuidar da minha filha.

Meu coração parou.

O ar ficou pesado.

Denso.

Eu não entendi de imediato.

— Como…? — sussurrei.

— Você me ouviu. — A expressão dele não mudou. — Parece coincidência demais.

Coincidência.

Demais.

Demais.

Demais.

A palavra bateu como tapa.

— Rafael, eu não sabia que Sofia era sua filha. Eu nem sabia quem você era! — minha voz falhou.

Ele respirou fundo, aproximando-se o suficiente para que eu sentisse o cheiro dele — e o julgamento.

— Não sabia? — ele perguntou, com um tom que acusava. — Você tem certeza?

— Tenho! — minha voz saiu firme dessa vez, ferida, indignada. — Não sei por que está insinuando isso.

A expressão dele endureceu.

— Achei que talvez tivesse encontrado… um jeito — ele falou devagar — de aparecer na minha vida de novo.

Eu fiquei sem fala.

Meu sangue ferveu.

Meu rosto queimou.

Era vergonha, dor, incredulidade, tudo misturado.

— Você está… insinuando que eu… — eu dei um passo para trás, ofendida de um jeito que nunca senti antes. — Que eu procurei esse emprego pra te encontrar?

Ele não respondeu.

Silêncio.

E esse silêncio me destruiu.

— Acho melhor encerrarmos essa conversa — murmurei, enfiando as unhas nas palmas das mãos e tentando não chorar. — Não tenho mais nada a dizer.

Tentei passar por ele.

Mas Rafael segurou meu braço.

Não com força.

Mas o suficiente para me impedir de sair.

— Eu quero uma explicação — disse ele, firme, duro. — Quero saber se posso confiar em você dentro da minha casa.

Eu o encarei, chocada.

Ele continuou:

— Minha filha gosta de você. Isso pesa. Mas eu… ainda não sei quem você é. Não completamente.

Eu puxei o braço, conseguindo soltá-lo.

— Eu sou a pessoa que cuidou da sua filha hoje — disse, a voz trêmula. — A mesma pessoa que teria trocado de roupa se o seu irmão tivesse me deixado. A pessoa que largou tudo numa noite de sábado porque a sua filha estava com febre. Isso é quem eu sou.

Ele abriu a boca para responder, mas eu terminei antes:

— Se isso não é o suficiente… então não sei o que mais quer.

O silêncio voltou.

Pesado.

Frio.

Cortante.

A conversa ficou suspensa no ar — inacabada, amarga, dolorosa.

E eu fiquei ali, parada, olhando para ele, tentando entender como alguém capaz de me tocar daquela maneira numa noite… podia agora duvidar da minha honra.

Saí do escritório sem esperar que ele dissesse qualquer coisa, cada passo ecoando pelo corredor silencioso. Quando a porta se fechou atrás de mim, a tensão que eu segurava desabou como um incêndio por dentro. O peito ardia, o estômago revirava, e a sensação de humilhação latejava sob a pele. Eu não sabia o que doía mais — a acusação injusta, o fato de Rafael realmente acreditar naquilo… ou o absurdo de ainda sentir meu corpo reagir à presença dele, mesmo depois de ser ferida daquela forma. Encostei as costas na parede fria, tentando recuperar o ar, tentando lembrar quem eu era antes de tudo isso. Antes da noite. Antes dele. Mas a única coisa que consegui pensar foi: eu preciso manter esse emprego… e, ao mesmo tempo, preciso ficar o mais longe possível desse homem. Essa contradição me atravessou como uma lâmina fina, deixando claro que nada entre nós seria simples. Nunca.

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