O desejo tem uma forma curiosa de se transformar quando deixa de ser apenas impulso. Ele passa a se infiltrar nos gestos mais simples, na maneira como um olhar se prolonga além do necessário, no cuidado excessivo ao manter distância, na tensão silenciosa que se instala entre dois corpos que já se conhecem demais para fingir neutralidade.
Nos dias que se seguiram, Dante e eu entramos em um ritmo perigoso. Não era apenas o segredo que nos unia, mas a constância dele. Não havia mais a excitação do acaso ou da surpresa; havia a expectativa. A certeza de que, em algum momento do dia, nossos caminhos se cruzariam de um jeito que faria o corpo despertar antes da razão.
Lorenzo continuava sendo o centro visível da casa, e isso nos mantinha atentos. Tudo precisava acontecer fora do alcance do olhar infantil, fora do tempo dele, fora do espaço que ele ocupava. O que existia entre Dante e eu pertencia a outro plano — mais silencioso, mais noturno, mais íntimo.
Naquela manhã, Dante estava diferen