CAPÍTULO 3 - O BANHO

O relógio marcava sete e meia da manhã quando o grito de Thiago Fera fez a mansão inteira tremer.

— EU JÁ DISSE QUE NÃO PRECISO DE AJUDA PARA TOMAR BANHO! FORA DO MEU BANHEIRO!

Sara já estava na porta, com a toalha branca enorme dobrada no braço esquerdo e o kit de primeiros socorros e pomadas na mão direita. Ela já esperava por isso. Todas as enfermeiras anteriores tinham contado na agência que essa era a pior hora do dia.

— Bom dia, senhor Fera — ela disse com a voz mais calma e profissional que tinha. — O Dr. Marcelo foi bem claro ontem na ligação. O senhor não pode ficar em pé sozinho no box ainda, pode escorregar, cair e abrir os pontos da cirurgia da perna direita que ainda estão cicatrizando. Eu só vou ajudar o senhor a se sentar no banco e já saio.

— Eu não quero ninguém me vendo assim! — ele gritou de dentro do box. Ele já estava lá dentro, sentado no banco especial de acrílico, sem camisa, só de bermuda preta, todo molhado, com a água quente caindo nas costas largas e cheias de cicatrizes do acidente de helicóptero. O vapor tomava conta de tudo. — Eu disse para sair! Isso é uma ordem!

Sara respirou fundo. Se fosse outra pessoa, teria saído chorando. Mas ela lembrou da mãe dela morrendo sozinha no hospital e da promessa que fez.

— Eu não vou sair — ela disse, e entrou no banheiro e fechou a porta atrás dela e trancou. — Eu sou sua enfermeira, com diploma da USP, não sou uma das suas secretárias que o senhor grita e elas correm para a sala chorar. Eu não tenho medo de grito, senhor. E eu não tenho medo do senhor.

Thiago ficou em choque total. Ninguém em dois anos tinha tido coragem de trancar a porta do banheiro com ele dentro.

— Você não tem vergonha? Não tem respeito? — ele perguntou, tentando se cobrir um pouco, sem jeito.

— Vergonha de que? De fazer meu trabalho e impedir que meu paciente caia e bata a cabeça? — ela se aproximou com passos firmes, colocou a toalha limpa no suporte aquecido e pegou o sabonete neutro de glicerina que o médico receitou. — Eu já dei banho em senhor de 90 anos com Alzheimer, em criança de 5 anos queimada, em homem acidentado que perdeu as duas pernas. Para mim, o senhor é só mais um paciente que precisa de ajuda para não se machucar. E eu vou ajudar. Vira de costas, por favor.

E sem entender por que, Thiago obedeceu. Ele virou de costas para ela, mostrando as costas enormes, musculosas, mas marcadas com três cicatrizes grandes e roxas do acidente.

Sara pegou a bucha macia e começou a passar o sabonete com todo cuidado profissional, fazendo espuma. Mas mesmo sendo um toque profissional, com luva, o toque dela queimava a pele dele de um jeito que ele não sentia há anos.

Fazia dois anos que ninguém o tocava sem ser por obrigação médica fria, com pena ou com nojo da cadeira de rodas.

— Por que você não sente pena de mim igual todo mundo? — ele perguntou de repente, com a voz baixa, rouca, quase vulnerável, que ela nunca tinha ouvido antes. — Todas as outras enfermeiras me olhavam com pena. Até minha própria família.

Sara parou de ensaboar por um segundo. O vapor fazia o rosto dela ficar molhado.

— Porque pena não cura ninguém, senhor Fera — ela respondeu, baixinho, se inclinando um pouco perto do ouvido dele, mas sem encostar. — Pena faz a pessoa se sentir menor. E o senhor não é menor. O senhor é um homem de 1,90m que sofreu um acidente horrível, mas que ainda está vivo. O senhor não precisa de pena. O senhor precisa de alguém que acredite que o senhor vai voltar a andar. E eu acredito. Eu vi seu exame, seus músculos ainda respondem.

Thiago fechou os olhos com força e deixou a água quente cair na cabeça. Ninguém nunca tinha dito aquilo para ele. Todos os médicos famosos, todos os amigos ricos, toda a família, todos tinham dito que ele nunca mais ia andar. Que era para ele aceitar a cadeira.

Mas aquela menina de 24 anos, da favela, que ele mal conhecia há dois dias, que ganhava 5 mil por mês, acreditava nele quando nem ele mesmo acreditava mais.

— Vira de frente agora — ela disse, com a voz um pouco trêmula também, porque o coração dela estava batendo muito rápido. — Preciso lavar a frente para terminar.

Ele virou devagar. Os dois ficaram se olhando por alguns segundos no meio do vapor. Ele sem camisa, vulnerável. Ela de jaleco branco, toda molhada de vapor, com os olhos castanhos brilhando.

— Pode deixar — ela sussurrou, terminando de enxaguar com a ducha, com a mão tremendo um pouco. — Eu já vi coisa pior no hospital, senhor. E já cuidei de gente muito mais grossa e difícil que o senhor. E sabe o que aconteceu com todos eles?

— O que? — ele perguntou, com a voz falha.

— Todos eles ficaram bons. E o senhor também vai ficar.

Naquele banheiro com vapor, abafado, pela primeira vez em dois anos, o Fera não se sentiu um monstro aleijado numa cadeira de rodas. Ele se sentiu um homem sendo cuidado por uma mulher.

E Sara, pela primeira vez, sentiu que aquele trabalho de 5 mil por mês seria muito mais perigoso para o seu coração do que ela imaginava quando assinou o contrato.

Ela saiu do banheiro correndo e trancou a porta do quartinho dela e ficou encostada na porta tentando respirar.

O que estava acontecendo com ela?

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