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CAPÍTULO 2 - O PRIMEIRO DIA E AS TRÊS REGRAS

O primeiro dia de Sara na mansão Fera começou às cinco e meia da manhã com um grito que acordou até os vizinhos.

— CADÊ A MINHA CADEIRA? QUEM MEXEU NA MINHA CADEIRA?

Sara pulou da cama de empregada que ficava no quartinho dos fundos. Ela mal tinha dormido. A mansão era grande demais, silenciosa demais e fria demais para alguém que veio de um barraco de 15 metros.

Ela correu para o quarto principal. Lá estava Thiago, já acordado, com o cabelo preto desgrenhado de sono, sem camisa, mostrando um torso todo definido e cheio de cicatrizes do acidente de helicóptero que quase o matou. Ele estava tentando alcançar a cadeira de rodas que estava a dois metros da cama.

— Bom dia, senhor! — ela disse, animada, tentando quebrar o gelo. — Deixa que eu pego para o senhor!

— Eu não pedi a sua ajuda! — ele rosnou, com raiva. — Eu falei para não mexer nas minhas coisas! Quem colocou a cadeira aí longe? Foi você?

— Foi a senhora da limpeza ontem à noite — Sara explicou com calma, pegando a cadeira de última geração e colocando do lado da cama, perto o suficiente para ele passar sozinho sem precisar de ajuda. — Mas já resolvi. Tá aqui.

Ele a olhou com raiva, mas havia algo de vergonha nos olhos cinzentos dele também. Ele odiava depender de alguém. Odiava mais ainda que alguém visse ele vulnerável.

— Olha, a partir de hoje, minhas regras — ele disse, jogando um papel amassado na direção dela. — Se quiser ficar aqui e receber seus cinco mil por mês, vai ter que seguir à risca.

Sara abriu o papel. Estava escrito à mão, com letra forte e brava, como se ele tivesse escrito com raiva:

REGRAS DA CASA FERA:

1. NÃO ME TOQUE SEM PERMISSÃO. NUNCA.

2. NÃO ENTRE NO MEU ESCRITÓRIO DEPOIS DAS 20H. NUNCA.

3. NÃO SINTE PENA DE MIM. EU ODEIO PENA. MAIS QUE TUDO.

Sara leu duas vezes e dobrou o papel com calma e colocou no bolso do jaleco branco barato dela.

— Só isso? — ela perguntou, como se fosse pouco.

— Só isso? — ele repetiu, incrédulo. — Essas são regras de ouro aqui dentro. A última enfermeira foi demitida porque chorou quando me viu sem camisa e disse que sentia pena de mim.

— Então ela era muito fraca para trabalhar aqui — Sara respondeu, cruzando os braços na frente dele, sem medo. — Eu trabalhei dois anos em UTI de hospital público na Zona Leste. Já vi gente sem perna, sem braço, com o peito aberto. O senhor sem camisa não me assusta, senhor Fera. O que me assusta é esse seu mau humor de manhã cedo sem tomar café.

Thiago ficou sem palavras pela segunda vez em menos de 24 horas. Aquela menina de 24 anos, vinda da favela, com uniforme barato da USP, estava peitando o homem mais temido de São Paulo.

— Você tem muita ousadia para alguém que precisa de emprego — ele disse, entre os dentes, se aproximando na cadeira.

— E o senhor tem muito orgulho para alguém que precisa de uma enfermeira 24 horas — ela rebateu na mesma moeda, sem recuar um centímetro.

Ele ficou em silêncio por um tempo longo, encarando-a. O coração dele batia forte. Então, bufou e se virou para a janela enorme que dava para a piscina vazia.

— Faz o café. Forte. Sem açúcar. E traz os remédios. São dez comprimidos. Todos os dias, sete da manhã. Sem atraso.

— E qual é a regra para o senhor não ser tão grosso com quem está tentando te ajudar a voltar a andar? — ela soltou, sem pensar de novo, enquanto se virava para sair do quarto.

Ele, num movimento rápido, a segurou pelo pulso. O toque dele era quente, firme, elétrico. Foi a primeira vez em dois anos que ele quebrava a própria regra número um.

— Você está demitida — ele sussurrou, perto demais do ouvido dela, com a voz rouca.

Sara olhou para a mão grande dele segurando seu pulso fino e depois para os olhos dele, que estavam a 10 centímetros dos dela.

— O senhor não pode me demitir no primeiro dia — ela sussurrou de volta, com o coração acelerado. — O médico disse que o senhor precisa de cuidados 24 horas. Se me demitir, quem vai te aguentar? Ninguém mais quer.

Ela puxou o braço com delicadeza, mas com firmeza, e saiu do quarto, deixando-o ali, sozinho, com o cheiro dela ainda no ar e o coração batendo mais rápido do que deveria.

Pela primeira vez em dois anos, Thiago Fera não se sentia apenas o aleijado rico numa mansão fria. Ele se sentia desafiado. E estranhamente, vivo.

E lá da cozinha, enquanto fazia o café forte, Sara sorria sozinha. Ela sabia que tinha acabado de ganhar a primeira batalha contra o Fera.

Mas a guerra ainda estava só começando.

O primeiro dia de Sara na mansão Fera começou às cinco e meia da manhã com um grito que acordou até os vizinhos.

— CADÊ A MINHA CADEIRA? QUEM MEXEU NA MINHA CADEIRA?

Sara pulou da cama de empregada que ficava no quartinho dos fundos. Ela mal tinha dormido. A mansão era grande demais, silenciosa demais e fria demais para alguém que veio de um barraco de 15 metros.

Ela correu para o quarto principal. Lá estava Thiago, já acordado, com o cabelo preto desgrenhado de sono, sem camisa, mostrando um torso todo definido e cheio de cicatrizes do acidente de helicóptero que quase o matou. Ele estava tentando alcançar a cadeira de rodas que estava a dois metros da cama.

— Bom dia, senhor! — ela disse, animada, tentando quebrar o gelo. — Deixa que eu pego para o senhor!

— Eu não pedi a sua ajuda! — ele rosnou, com raiva. — Eu falei para não mexer nas minhas coisas! Quem colocou a cadeira aí longe? Foi você?

— Foi a senhora da limpeza ontem à noite — Sara explicou com calma, pegando a cadeira de última geração e colocando do lado da cama, perto o suficiente para ele passar sozinho sem precisar de ajuda. — Mas já resolvi. Tá aqui.

Ele a olhou com raiva, mas havia algo de vergonha nos olhos cinzentos dele também. Ele odiava depender de alguém. Odiava mais ainda que alguém visse ele vulnerável.

— Olha, a partir de hoje, minhas regras — ele disse, jogando um papel amassado na direção dela. — Se quiser ficar aqui e receber seus cinco mil por mês, vai ter que seguir à risca.

Sara abriu o papel. Estava escrito à mão, com letra forte e brava, como se ele tivesse escrito com raiva:

REGRAS DA CASA FERA:

1. NÃO ME TOQUE SEM PERMISSÃO. NUNCA.

2. NÃO ENTRE NO MEU ESCRITÓRIO DEPOIS DAS 20H. NUNCA.

3. NÃO SINTE PENA DE MIM. EU ODEIO PENA. MAIS QUE TUDO.

Sara leu duas vezes e dobrou o papel com calma e colocou no bolso do jaleco branco barato dela.

— Só isso? — ela perguntou, como se fosse pouco.

— Só isso? — ele repetiu, incrédulo. — Essas são regras de ouro aqui dentro. A última enfermeira foi demitida porque chorou quando me viu sem camisa e disse que sentia pena de mim.

— Então ela era muito fraca para trabalhar aqui — Sara respondeu, cruzando os braços na frente dele, sem medo. — Eu trabalhei dois anos em UTI de hospital público na Zona Leste. Já vi gente sem perna, sem braço, com o peito aberto. O senhor sem camisa não me assusta, senhor Fera. O que me assusta é esse seu mau humor de manhã cedo sem tomar café.

Thiago ficou sem palavras pela segunda vez em menos de 24 horas. Aquela menina de 24 anos, vinda da favela, com uniforme barato da USP, estava peitando o homem mais temido de São Paulo.

— Você tem muita ousadia para alguém que precisa de emprego — ele disse, entre os dentes, se aproximando na cadeira.

— E o senhor tem muito orgulho para alguém que precisa de uma enfermeira 24 horas — ela rebateu na mesma moeda, sem recuar um centímetro.

Ele ficou em silêncio por um tempo longo, encarando-a. O coração dele batia forte. Então, bufou e se virou para a janela enorme que dava para a piscina vazia.

— Faz o café. Forte. Sem açúcar. E traz os remédios. São dez comprimidos. Todos os dias, sete da manhã. Sem atraso.

— E qual é a regra para o senhor não ser tão grosso com quem está tentando te ajudar a voltar a andar? — ela soltou, sem pensar de novo, enquanto se virava para sair do quarto.

Ele, num movimento rápido, a segurou pelo pulso. O toque dele era quente, firme, elétrico. Foi a primeira vez em dois anos que ele quebrava a própria regra número um.

— Você está demitida — ele sussurrou, perto demais do ouvido dela, com a voz rouca.

Sara olhou para a mão grande dele segurando seu pulso fino e depois para os olhos dele, que estavam a 10 centímetros dos dela.

— O senhor não pode me demitir no primeiro dia — ela sussurrou de volta, com o coração acelerado. — O médico disse que o senhor precisa de cuidados 24 horas. Se me demitir, quem vai te aguentar? Ninguém mais quer.

Ela puxou o braço com delicadeza, mas com firmeza, e saiu do quarto, deixando-o ali, sozinho, com o cheiro dela ainda no ar e o coração batendo mais rápido do que deveria.

Pela primeira vez em dois anos, Thiago Fera não se sentia apenas o aleijado rico numa mansão fria. Ele se sentia desafiado. E estranhamente, vivo.

E lá da cozinha, enquanto fazia o café forte, Sara sorria sozinha. Ela sabia que tinha acabado de ganhar a primeira batalha contra o Fera.

Mas a guerra ainda estava só começando.

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