2

Clara 

O escritório dele era grande demais para alguém que passava a maior parte do tempo tentando não sentir.

Foi a primeira coisa que pensei, e a ideia me atingiu com uma clareza quase cruel quando a governanta abriu a porta de correr e me conduziu para dentro como se eu estivesse entrando em um tribunal. O ar ali era diferente do resto da casa. Mais frio. Mais controlado. Havia um cheiro leve de madeira encerada e papel antigo, misturado com algo metálico e limpo — talvez o perfume discreto dele, talvez apenas o tipo de ambiente onde nada escapa do lugar certo.

Eu entrei devagar, segurando minha bolsa com força demais, e por um segundo senti a mesma sensação do café: eu não pertencia àquele mundo. Não por falta de capacidade, mas por falta de… história. Pessoas como eu não crescem cercadas de silêncio caro. Crescem cercadas de barulho, de vozes, de gente atravessando a cozinha enquanto alguém frita ovos e reclama do calor. Crescem com cheiro de comida e vida. Ali, naquela sala, tudo parecia existir em outra frequência.

Não havia exagero óbvio. Nada dourado, nada ostentatório. O luxo não gritava, ele sussurrava, e talvez fosse isso que me deixasse ainda mais inquieta. Madeira escura, quase preta, revestia parte das paredes. Estantes altas exibiam livros grossos, muitas lombadas sem título visível, como se até os nomes fossem secretos. Um globo discreto em um canto, uma luminária de metal escovado, um tapete espesso que abafava meus passos e transformava a minha presença em algo ainda mais tímido.

A mesa dele era imponente. Não enorme de forma vulgar, mas grande o suficiente para criar distância, como um oceano calculado entre quem manda e quem pede. Em cima dela, papéis perfeitamente alinhados, pastas fechadas, um notebook aberto com gráficos e números que me lembraram, sem querer, o motivo de eu ter voltado a estudar: eu queria ser alguém, e números eram um idioma do qual eu sempre me senti excluída.

E ele.

Alexander Whitmore estava sentado atrás da mesa como se fizesse parte dela. Como se aquele espaço tivesse sido desenhado ao redor do corpo dele. Como se o mundo tivesse aprendido a se organizar para acomodá-lo.

Não levantou quando entrei.

Não sorriu.

Não me olhou.

— Pode sentar — disse, sem erguer os olhos dos documentos que manuseava com uma precisão quase cirúrgica.

A palavra cirúrgica atravessou meu pensamento com ironia, porque eu sabia, mesmo antes de alguém me dizer, que ele era exatamente isso: o tipo de homem que corta o que não serve e segue em frente, sem hesitar, sem tremer. Eu me sentei na cadeira à frente da mesa com cuidado, como se o movimento pudesse denunciar nervosismo, e alinhei a postura. Ombros para trás. Queixo neutro. As mãos entrelaçadas no colo. Eu tinha aprendido a parecer firme mesmo quando o meu peito queria desabar.

Ele continuou mexendo nos papéis.

Fazia pequenos movimentos, eficientes. Folhas viradas na medida certa. Caneta que tocava o papel e fazia anotações sem erro de direção. Eu o observava em silêncio, porque era impossível não observar. A camisa social branca, mangas longas, os punhos fechados, fazia o contraste com a pele dele — um tom quente, dourado, como alguém que passa mais tempo no sol do que eu imaginaria para um homem daquele. O tecido marcava os antebraços fortes quando ele se inclinava para pegar outra pasta. Não era força de academia exibida, era força de quem carrega o próprio mundo e insiste em fingir que não pesa.

A calça social escura caía perfeitamente sobre as pernas longas. O cinto discreto. O sapato bem polido. Tudo nele parecia calculado, mas não era um cálculo vaidoso. Era o cálculo de quem precisava estar pronto. Sempre pronto. Como se a vida, para ele, fosse uma guerra constante e a armadura fosse a única forma de sobreviver.

O cabelo negro estava levemente bagunçado, alguns fios caindo sobre a testa de um jeito que não parecia vaidade nem descuido. Era só… humano. Um detalhe que me perturbou, porque ele parecia feito de pedra e, ainda assim, havia fios desobedientes insistindo em lembrá-lo de que nem tudo pode ser controlado.

O rosto continuava sério, fechado, com traços duros. A barba por fazer desenhava o maxilar forte e deixava a aparência ainda mais… masculina. Mais perigosa. Eu odiava pensar isso, odiava me perceber pensando nisso. Eu estava ali por trabalho. Por necessidade. Por uma escolha desesperada que eu fiz depois de um dia em que me senti menor do que uma mosca.

Mas eu era uma mulher.

E ele era um homem que fazia o ar mudar.

Eu lembrava daquele rosto.

Do café.

Da indiferença que me atravessou como gelo.

Do jeito como ele olhou através de mim, como se eu fosse parte do cenário.

E, ainda assim, eu lembrava do segundo em que ele olhou para o bebê, e algo frágil, quebrado, quase invisível, apareceu no rosto dele. Um fantasma.

Ele continuava igual agora.

— Você tem experiência com bebês dessa idade? — perguntou, ainda sem me olhar.

A voz dele era baixa. Controlada. Um tom que não pedia, determinava. Um inglês perfeito, limpo, sem qualquer hesitação.

— Tenho, sim — respondi, mantendo a voz firme. — Trabalhei com recém-nascidos e crianças até quatro anos.

Ele fez uma anotação sem sequer levantar o queixo.

— Certificações?

— Todas válidas. A agência enviou os documentos.

Outro movimento preciso. Outra página virada. Eu vi o brilho do anel simples na mão direita quando ele girou a caneta, e o meu estômago se contraiu sem motivo óbvio. Era um anel de casamento? Um hábito? Um resto? O pensamento veio e eu empurrei para longe, porque não era da minha conta, mas tudo ali parecia da minha conta agora. Eu ia morar naquela casa. Eu ia existir naquela dinâmica.

— Horários flexíveis? — ele perguntou.

— Sim.

Ele assentiu uma única vez, como se aquilo encerrasse a humanidade da conversa.

Silêncio.

O som do papel parecia mais alto do que deveria. O tique-taque de um relógio discreto, escondido em algum lugar, marcava um tempo que não combinava com o meu coração. Eu comecei a sentir a mesma coisa do café: aquela sensação de ser invisível. E a invisibilidade, eu descobri, tem um peso. Ela se cola na pele. Ela faz a gente duvidar da própria existência.

Olhei para as minhas mãos. Para a pele clara, para as unhas curtas. Pensei na minha mãe no Brasil dizendo que eu precisava “me impor”, que ninguém ia me dar nada de presente no mundo. Pensei em mim, chegando aos EUA com coragem e medo em partes iguais, tentando construir um futuro com o pouco que eu tinha. Pensei no café, no avental manchado, no sorriso treinado. Pensei naquele homem me atravessando com o olhar como se eu não fosse nada.

E pensei: eu não posso repetir isso aqui. Eu não posso morar numa casa onde eu sou um objeto.

Respirei fundo.

A sala tinha cheiro de silêncio e distância. Mas eu tinha cheiro de vida, de tentativa, de necessidade. E eu precisava me lembrar disso.

Antes que eu recuasse, a frase escapou.

— O senhor não vai nem olhar para mim?

Minha voz saiu calma, mas carregada de algo que eu não consegui esconder: a exigência mínima de respeito. Não foi desafio. Foi realidade.

Ele parou.

Literalmente parou.

O papel ficou suspenso no ar por um segundo a mais do que o normal, como se o movimento tivesse travado no meio do caminho. O silêncio ficou tão denso que eu ouvi a minha própria respiração, curta demais.

Então, lentamente, Alexander Whitmore levantou o olhar.

E tudo mudou.

Os olhos dele eram escuros, mas não apenas castanhos. Eram profundos. Pesados. O tipo de olhar que parece guardar coisas demais, como um cofre que ninguém abre por medo do que pode sair de lá. Havia algo cortante, sim, mas também havia cansaço. Um cansaço tão antigo que não combinava com a idade dele. Eu não sabia quantos anos tinha, mas eu sabia que era mais velho do que eu. Um homem adulto. Um homem acostumado a mandar. E, ainda assim, havia uma sombra que me fez pensar em noites sem dormir.

Ele me encarou como se estivesse me vendo pela primeira vez.

De verdade.

O impacto foi físico. Eu senti meu coração errar o ritmo, como se tivesse tropeçado dentro do peito. Senti calor subir pela garganta, como vergonha, como raiva, como uma mistura impossível de nomear. Porque havia uma sensualidade crua ali, no modo como ele me olhava sem suavidade alguma, mas também havia algo… ameaçador. Como se ele fosse capaz de me desmontar com a mesma facilidade com que desmontava um caso clínico.

Ele sustentou o olhar por segundos longos demais.

Eu vi os detalhes que a distância do café não me permitira notar. Pequenas linhas ao redor dos olhos. Sobrancelhas escuras e bem desenhadas. Um corte fino na lateral do queixo, talvez de uma lâmina apressada. A boca firme, feita para silêncios, não para sorrisos. E o modo como ele travou a mandíbula, como se estivesse segurando uma reação.

O silêncio se esticou.

O meu corpo inteiro pareceu prender a respiração junto.

Então, sem dizer uma palavra, ele empurrou a cadeira para trás.

O som das pernas arranhando levemente o chão foi brusco, quase agressivo. Ele se levantou de uma vez, alto demais, grande demais, como se o ar ao redor dele não fosse suficiente. A camisa se esticou sobre os ombros largos, e por um segundo eu tive consciência do homem como matéria: peso, músculos, presença. O cabelo negro caiu ainda mais sobre a testa quando ele passou por mim, e eu senti o perfume dele de perto — algo amadeirado, discreto, limpo. Um cheiro que se grudou no meu cérebro com uma força irritante.

Ele saiu do escritório.

Bruto.

Sem olhar para trás.

A porta ficou aberta, como se até fechar fosse um esforço que ele não quis fazer por mim.

Eu permaneci sentada por um instante, porque levantar rápido demais seria admitir que ele me desestabilizou. Mas ele já tinha. De um jeito que eu não queria aceitar.

Eu não estava acostumada a homens assim. Não a homens que te ignoram como forma de controle. E, ao mesmo tempo, não a homens que, quando finalmente olham, te fazem sentir que você foi colocada sob uma luz forte demais.

Foi quando ouvi outra voz.

— Me desculpa por isso.

Virei o rosto.

Eleanor estava na porta, com um sorriso cansado, mas gentil. O mesmo sorriso do café. O sorriso de quem tenta compensar a frieza do mundo com pequenas bondades.

Ela entrou com calma, fechando a porta devagar atrás de si, como se quisesse apagar o rastro do irmão sem provocar mais barulho.

— Ele… — ela suspirou. — Ele não é assim. Não costumava ser.

Eu senti vontade de dizer que ele era exatamente assim, sim. Porque foi assim que ele me tratou no café. Mas me calei. Eleanor não merecia meu ressentimento. Ela tinha gentileza nos olhos. E cansaço.

— Está tudo bem — menti, porque era mais fácil.

Eleanor balançou a cabeça, como se conseguisse ver a mentira.

— Não está. E não deveria. — Ela se aproximou. — Desde que perdeu a esposa, ele ficou diferente. Mais fechado. Mais duro. Ele acha que a frieza protege. Que, se não sentir, nada mais pode quebrar.

Minha garganta apertou.

A esposa.

A mãe do Theo.

O bebê.

O bebê que eu ainda não tinha visto de perto ali, mas que eu já carregava na memória: os olhos claros, o sorriso fácil no café. Um bebê que não tinha culpa de nada e, mesmo assim, estava cercado por silêncio e luto.

— Mas ele ama o Theo — Eleanor continuou. — Do jeito dele. Ele só… não sabe como existir sem dor.

Eu assenti devagar, porque por mais estranho que fosse, eu entendia um pouco. Eu também tinha vindo para outro país carregando dores que eu não contava para ninguém. Eu também tinha aprendido a sobreviver como se sobreviver fosse o único objetivo.

— Posso te mostrar a casa? — ela perguntou, mudando o tom com delicadeza. — Assim você se sente mais… situada.

Assenti.

Saímos do escritório, e eu senti o corredor como um alívio. A mansão era silenciosa, mas não era agressiva como aquele cômodo. A luz natural entrava por janelas enormes, desenhando faixas claras no chão. Tudo estava impecável demais, sim. Mas havia vida ali, escondida em detalhes: um vaso com flores frescas, uma manta dobrada sobre uma poltrona, um brinquedo pequeno esquecido perto de uma escada — o tipo de descuido que prova que alguém tenta ser humano naquele espaço.

Eleanor me apresentou os funcionários com uma naturalidade prática, como quem conhece rotinas e hierarquias.

A governanta, séria, mas educada.

O jardineiro, discreto, com mãos calejadas.

Uma cozinheira que sorriu para mim com gentileza e disse que poderia adaptar algumas refeições caso eu sentisse saudade de comida brasileira. Aquilo me tocou mais do que eu esperava.

Porque saudade era uma coisa que eu fingia controlar.

Mas ela aparecia em momentos pequenos, como cheiro de alho refogado ou uma palavra em português que eu ouvia por acaso na rua.

Subimos a escada principal.

O corrimão era frio e liso. A madeira rangia quase nada. Tapetes abafavam passos. Tudo ali parecia feito para que a casa engolisse sons, para que ninguém incomodasse ninguém. Eu pensei que talvez aquela casa tivesse sido construída para uma vida de distância, não para uma família.

— O quarto do Theo é aqui — Eleanor disse, abrindo uma porta com cuidado.

O ambiente era claro. Tons suaves. Um beige quente, um branco macio, um verde quase inexistente, como folhas novas. A iluminação era delicada, e havia um cheiro de bebê — talco, sabonete, tecido limpo. O tipo de cheiro que faz o coração amolecer sem pedir permissão.

O berço de madeira clara estava no centro, com um móbile simples girando lentamente acima. Um elefante de pelúcia repousava ao lado, com a orelha dobrada, como se alguém tivesse apertado demais. Uma poltrona confortável ficava perto da janela, com uma manta azul dobrada sobre o braço.

Theo estava deitado.

Acordado.

Quando eu me aproximei, fui invadida por uma emoção absurda. Era só um bebê. Um bebê lindo, sim, com bochechas redondas e pele macia, mas ainda assim um bebê. Só que eu não via apenas um bebê. Eu via a história toda que Eleanor tinha dito em poucas frases: mãe morta dias depois do parto. Um pai endurecido. Uma casa grande e fria. Um bebê que sorria mesmo assim.

Ele usava um macacão azul claro, com pequenos botões no peito e um desenho discreto no tecido, algo como estrelinhas. Os pés estavam cobertos. As mãozinhas fechadas e depois abrindo e fechando, como se ele estivesse conversando com o ar.

Meu peito apertou de um jeito que eu não estava pronta para sentir.

— Ele tem dormido pouco — Eleanor disse em voz baixa. — Mas é um bebê tranquilo. Observador. Ele… percebe tudo.

Eu olhei para Eleanor. Ela dizia aquilo com a seriedade de médica e a tristeza de tia. Eu entendi, naquele instante, o que ela carregava: responsabilidade, culpa, exaustão. Ela queria ser boa para Theo, mas também queria ser boa para si mesma, para a própria carreira, para a própria vida. E eu não a julguei. Eu admirei.

— Posso…? — perguntei, apontando para ele sem terminar a frase.

— Pode pegá-lo — Eleanor disse, sorrindo.

Eu peguei.

Com cuidado. Com respeito. Com a delicadeza quase reverente que eu sempre tinha com bebês, como se eles fossem uma promessa do mundo. O corpo pequeno se encaixou contra o meu como se já me conhecesse, como se a proximidade fosse natural, e isso me emocionou de um jeito perigoso.

Ele cheirava a sabonete infantil. A vida nova.

Senti meus olhos arderem. Respirei fundo e engoli a emoção, mas ela ficou ali, presa na garganta, porque era injusto demais. Um bebê não deveria começar a vida com ausência. Um bebê deveria ter braços de mãe, risadas, fotografia de família, esse tipo de coisa que as pessoas ricas compram com facilidade — e, ainda assim, nem tudo o dinheiro compra.

O dinheiro não comprou a mãe dele.

Eu embalei Theo devagar. Ele mexeu os dedos na minha camisa como se buscasse textura, como se o mundo fosse uma coleção de sensações pequenas.

A janela do quarto dava para o jardim.

E foi aí que eu realmente entendi onde eu estava.

O gramado era impecável, verde de um jeito quase irreal, cortado como um tapete. Árvores altas faziam sombra em pontos específicos, como se alguém tivesse planejado onde o sol deveria cair. Flores coloridas formavam caminhos, e uma pequena fonte brilhava ao longe. Era bonito demais. Calmo demais. Um cenário que parecia de filme.

E eu, brasileira, filha de um país barulhento e quente, estava ali dentro, numa casa americana que parecia segurar a respiração.

Por que eu ficaria?

A pergunta apareceu sem eu chamar.

Eu poderia recuar. Poderia pedir outra família. Poderia dizer que não me sentia confortável com um homem que me ignorava como se eu fosse pó. Poderia escolher um ambiente mais leve, mais acolhedor.

Mas então Theo se mexeu no meu colo, soltou um som pequeno, e encostou a testa em mim.

E eu senti algo muito simples: pena. Não pena que inferioriza, mas pena que protege. Compaixão. O tipo de compaixão que me fazia lembrar por que eu tinha mudado de rota, por que eu tinha decidido deixar o café, por que eu tinha buscado certificações, por que eu tinha insistido mesmo quando parecia impossível.

Eu queria ser importante para alguém.

Queria ser necessária por algo que valesse a pena.

E ali, naquele quarto, eu tive certeza de que eu poderia fazer diferença.

Talvez não para Alexander. Talvez ele continuasse a me tratar como uma funcionária. Como uma sombra. Talvez ele continuasse a evitar meu olhar porque olhar significava admitir que eu existia.

Mas Theo…

Theo precisava de alguém.

E eu… eu precisava provar a mim mesma que eu não era invisível.

Foi então que vi movimento no jardim.

Alexander estava lá fora.

Caminhava pelo gramado com passos firmes, como se cada passo fosse calculado. Ele não parecia relaxado nem no próprio jardim. Parecia um homem em guerra com os próprios pensamentos.

Parou em um ponto mais alto, de onde se via a casa inteira, como se precisasse enxergá-la de longe para suportar estar dentro.

Olhou para cima.

Para a janela.

Para mim.

O olhar dele me encontrou.

E não se desviou.

Sustentou.

Por segundos longos. Intensos. Amedrontadores.

Foi diferente do escritório, mas não menos perturbador. No escritório, ele me olhou como quem perde o controle por um instante e se assusta com isso. Ali fora, ele me olhou como quem escolhe olhar, como quem permite o próprio castigo.

Eu senti um frio subir pela espinha.

Meu corpo enrijeceu instintivamente, como se eu estivesse prestes a ser acusada de algo. Como se aquele olhar dissesse: você está dentro do meu mundo agora.

Theo se mexeu no meu colo, como se sentisse a mudança no meu ritmo, e eu apertei o bebê um pouco mais contra mim, buscando estabilidade no peso pequeno dele.

Alexander não piscou por um tempo que pareceu longo demais.

Então virou as costas.

E foi embora.

Eu fiquei ali, com o bebê nos braços, embalando-o devagar, olhando para o jardim perfeito e para a casa enorme, sentindo uma mistura confusa de medo e curiosidade.

Ele me amedrontava.

Mas também… me intrigava.

Porque eu conhecia homens arrogantes. Já tinha atendido vários no café. Homens que humilham por prazer. Homens que ignoram porque se acham melhores.

Alexander parecia outra coisa.

Ele parecia alguém que ignorava porque, se não ignorasse, sentiria.

E sentir era perigoso.

Eu olhei para Theo de novo. Para o rosto pequeno, para os cílios longos, para a boca que fazia um biquinho quando ele relaxava.

— Eu vou cuidar de você — murmurei, tão baixo que ninguém além de mim poderia ouvir.

E naquele instante, mesmo com a casa fria e o patrão impossível, eu soube por que eu ficaria.

Não era por dinheiro. Não apenas.

Não era pela mansão.

Não era pela chance de “aprender com ricos” como eu tinha pensado no meu desespero.

Era por aquilo.

Pelo bebê sem mãe.

Pela sensação de que, pela primeira vez desde que cheguei aos Estados Unidos, eu estava prestes a fazer algo que realmente importava.

E, talvez… talvez também fosse pela pergunta que não me largava desde o café:

O que aconteceu com um homem para ele aprender a olhar através das pessoas?

Eu não sabia a resposta ainda.

Mas eu tinha acabado de entrar na casa onde ela morava.

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