Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlexander
Eu estava no jardim, tentando entender quando cruzei limites e fui longe demais. O ar ainda carregava o cheiro da grama cortada, úmida, limpa demais para combinar com o aperto que se formava no meu peito. Caminhei alguns passos sem direção, as mãos nos bolsos, tentando reorganizar os pensamentos depois de ter saído do escritório daquele jeito. Não era do meu feitio abandonar uma conversa. Mas eu tinha abandonado quando percebi o que aquela garota representava: uma mulher no lugar da mãe de Theo, na minha casa, na minha vida, me olhando intensamente à espera de aprovação e respostas. A entrevista ainda ecoava na minha cabeça — não pelas perguntas e o que veio delas, mas pela sensação incômoda de estar sendo observado com atenção demais por alguém que não parecia intimidado. Clara não tinha feito nada de errado. Não tinha sido desrespeitosa, nem invasiva. Ainda assim, algo nela tinha deslocado o eixo do meu controle: a percepção de que eu teria a peça do quebra-cabeças que me faltava, a mulher linda no fim do dia tomando conta do meu filho. A mulher que não era a minha. Parei perto do caminho de pedras que contornava a lateral da casa. O jardim era amplo, perfeitamente cuidado, uma extensão do que eu exigia de tudo ao meu redor: ordem, previsibilidade, silêncio. Levantei o olhar sem intenção consciente. A janela do quarto do Theo estava aberta. Clara estava lá dentro. Ela se movia pelo espaço com cuidado, como se estivesse pisando em território que não lhe pertencia — e, ao mesmo tempo, como se soubesse exatamente onde estava. Parou diante do parapeito e me encarou, com Theo no colo, aninhado a ela, atento. Não retraído. Não defensivo. Atento. Isso me atingiu de novo. Clara tomava todas as atenções. Ele costumava observar adultos novos com cautela, como se esperasse o momento em que eles falhariam ou iriam embora. Com Clara, não. Ele parecia… disponível. Seguro. Ela não desviou o olhar do meu. Apenas esperou. Senti algo se fechar no meu estômago. Aquilo não era comum. A imagem se encaixava de um jeito errado. Como uma fotografia antiga que eu tinha rasgado e que alguém insistia em colar de novo, mesmo torta, mesmo incompleta. Meu filho. Minha casa. Uma mulher ali dentro. Linda. Do jeito que eu tinha imaginado um dia. Antes de tudo ruir. Desviei o olhar como se tivesse sido pego em algo que não devia. O jardim pareceu pequeno demais de repente. O ar, pesado. Eu precisava sair. Caminhei até a garagem sem pensar, peguei as chaves e entrei no carro. O motor respondeu imediatamente, como sempre. Pisei fundo mais do que o necessário. Os pneus cantaram ao sair pelo portão, um som agressivo demais para aquela manhã silenciosa. O trabalho me recebeu como um velho aliado. Salas de reunião. Vozes que esperavam decisões. Gráficos. Projeções. Pessoas que não me olhavam nos olhos sem calcular primeiro o que poderiam perder no mundo dos planos de saúde e cirurgias. Ali, eu funcionava. Ali, eu tinha controle. E mesmo assim, em cada pausa, em cada intervalo entre uma frase e outra, ela surgia. Não como desejo. Como presença. Clara ajoelhada no chão. Theo olhando para ela. A naturalidade. Era isso que me perturbava. Naturalidade não existia na minha vida há anos. Mesmo antes da mãe dele morrer. Nosso casamento foi incialmente arranjado, mas a falta de paixão não impediu que eu mantivesse o meu sonho de uma família como a minha, pais perfeitos, uma irmã incrível. Eu só queria ser mais um Whitmore, mas falhei quando Christine se foi sob os cuidados do meu hospital. O hospital que voltou ao meu pensamento sem pedir licença. O quarto branco. O silêncio que não combinava com nascimento. A mão dela na minha, quente, viva, e depois… não. Theo chorando em algum lugar distante enquanto alguém dizia que eu precisava ser forte, porque ela estava com uma grave hemorragia, uma doença descoberta na hora. Ganhei o filho que sempre quis. E perdi tudo o que fazia aquilo valer a pena, a família. Depois de terminar o dia de reuniões e me reunir com a equipe de cirurgia para decidir o que fazer com um caso, voltei para casa tarde, como sempre fazia quando não queria pensar, só queria que Theo estivesse dormindo quando eu chegasse e eu não tivesse que encarar a realidade. A casa estava quieta. Tirei o paletó, afrouxei a gravata, caminhei pelos corredores com passos controlados. Passei pelo escritório. Pela sala. Pela escada. A porta do quarto do Theo estava entreaberta. Ela estava lá de novo. Sentada no chão, encostada na cama, Theo dormindo profundamente sobre o colo dela. Um cobertor leve cobria os dois. O braço dele repousava sobre o torso dela como se aquele fosse o lugar mais óbvio do mundo. Clara mantinha uma das mãos firmes nas costas dele, o corpo levemente inclinado, protegendo-o mesmo no sono. O rosto dela estava relaxado, cansado, mas atento, como se parte dela ainda estivesse desperta apenas para garantir que ele continuaria ali. Fiquei parado. Não entrei. Não falei. Observei. Não havia nada de errado naquela cena. E talvez fosse exatamente isso que a tornava insuportável. Ela abriu os olhos devagar, como se tivesse sentido minha presença antes mesmo de me ver. Quando nossos olhares se encontraram, não houve susto. Apenas reconhecimento. — Ele dormiu — disse, baixo. Assenti. — Coloque-o na cama — respondi, num tom neutro demais para alguém que acabara de ser atravessado por um desejo que doía. Ela obedeceu sem pressa. Ajustou o corpo de Theo com cuidado antes de se levantar. Observei os movimentos sem querer. A precisão. A atenção. O jeito como ela não fazia barulho desnecessário. Quando passou por mim, senti o deslocamento de ar. O perfume discreto. A presença. Nada mais. Ainda assim, demais. Ela colocou Theo na cama, ajeitou o travesseiro, o cobertor, e passou os dedos pelos cabelos dele antes de se afastar. Um gesto simples. Afetuoso. Não íntimo demais. Não exagerado. Perfeito. — Amanhã — falei, quebrando o silêncio — mantenha a rotina. Horários. Leitura. Nada que o estimule demais à noite. Não quero o meu filho dormindo no chão, como se não tivesse onde se deitar. — Sim, senhor. A resposta veio imediata. Sem questionamento. Sem medo da rejeição por fazer algo que não gostei. Observei-a por um segundo a mais do que deveria. — Helena vai te orientar sobre o restante da casa — acrescentei. — Se precisar de algo, fale com ela. Se ficar para o trabalho definitivamente, poderá ficar com a casa da piscina. Até lá, durma no quarto de hóspedes ao fim do corredor. Ela assentiu. — Sim, Eleonor me disse. Já deixei as minhas coisas lá. Boa noite, senhor Whitmore. Virou-se e caminhou pelo corredor até o quarto de hóspedes. O som dos passos era leve. Contido. Como se ela não quisesse marcar presença demais. Fiquei ali depois que ela desapareceu. No quarto, Theo respirava tranquilo. No corredor, o silêncio voltou a se impor. E foi ali, parado entre dois espaços que eu conhecia bem demais, que tomei uma decisão. Clara não era um problema. Problemas eram emoções mal geridas. Falta de controle. Antecipação sem razão. Ela era apenas uma funcionária competente. E eu iria tratá-la como tal. Observá-la. Manter distância. Controlar o ambiente. Era isso que eu fazia de melhor. Mas, ao beijar o bebê e me afastar do quarto do meu filho, quando passei pela porta entreaberta dela e senti seu perfume, tive uma certeza incômoda demais para ignorar: eu teria que vigiar a mim mesmo com mais atenção do que jamais precisei vigiar alguém.






