Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu aprendi a medir o tempo em respirações.
Não em horas.
Não em dias.Em respirações.
A forma como Theo inspirava e soltava o ar enquanto dormia no quarto ao lado era o meu relógio mais confiável desde que o mundo parou. Desde que tudo o que eu achava sólido se dissolveu em uma sala branca de hospital, sob luzes fortes demais e decisões que não admitiam erro.
Eu não dormia profundamente.
Dormir significava perder o controle. E controle era a única coisa que ainda me mantinha funcional.Levantei antes do alarme, como sempre. Não porque precisava, mas porque ficar deitado era pior. Pensar no escuro era pior. O silêncio absoluto fazia barulho demais dentro da minha cabeça.
O banheiro estava frio.
A água, também.Deixei cair sobre o corpo sem ajustar a temperatura. Dor era objetiva. Clara. Direta. Diferente da culpa, que se espalhava sem forma definida.
O espelho me devolveu alguém que eu reconhecia apenas por hábito. Os traços estavam mais duros. O cansaço havia se instalado nos olhos como algo permanente. Eu parecia mais velho do que realmente era. E talvez fosse.
Eu salvara pessoas naquela semana.
Três cirurgias longas. Duas decisões críticas. Nenhum erro.Ainda assim, todas as manhãs, a sensação era a mesma: fracasso.
Vesti o terno como quem veste um uniforme obrigatório. O hospital esperava que eu fosse impecável. Seguro. Inabalável. O CEO. O cirurgião-chefe. O homem que tomava decisões difíceis sem hesitar.
Mas Theo não se importava com títulos.
Quando desci as escadas, ouvi a voz de Eleanor antes de vê-la. Ela falava baixo, num tom que só usava com ele. Meu filho.
Ela estava sentada no sofá, o corpo levemente curvado para protegê-lo, como se ainda fosse possível protegê-lo de tudo. Theo estava desperto, mas quieto demais. O rosto pequeno pressionado contra o peito dela.
Quando me viu, ele se mexeu imediatamente.
Estendeu os braços.
Sempre.
Meu peito apertou com a precisão cruel de algo que conhecia meus pontos fracos.
— Ei — murmurei, pegando-o no colo com cuidado.
Ele se aninhou contra mim sem hesitar. A cabeça pequena encontrou meu ombro como se aquele fosse o único lugar lógico do mundo. Como se tudo o que ele precisava estivesse ali.
Talvez estivesse.
Talvez esse fosse exatamente o problema.
— Ele chorou quando eu tentei colocá-lo no berço — Eleanor disse. A voz estava controlada, mas cansada. Muito cansada. — Só se acalmou quando eu trouxe para a sala.
Assenti, sentindo o peso implícito daquilo.
— Você chegou tarde ontem — ela continuou.
— Cirurgia longa.
Sempre era.
Eleanor me observou em silêncio por alguns segundos. Ela sempre soube quando insistir e quando esperar. Era médica. Era minha irmã. Era a única pessoa que ainda conseguia me confrontar sem que eu levantasse defesas imediatas.
— Alex… — começou.
Fechei os olhos por um instante. Respirei fundo.
— Fala.
— Assim não dá mais.
As palavras foram ditas com cuidado. Sem acusação direta. Mas não precisavam ser afiadas para doer.
— Ele está muito apegado a você. A mim. — Ela ajeitou a manta em torno das pernas de Theo. — E eu não consigo mais equilibrar tudo.
— Você está indo bem na residência — respondi automaticamente.
— Não. — Ela balançou a cabeça. — Não estou. Estou errando detalhes. Estou exausta. E isso é perigoso. Para mim. Para os pacientes.
Silêncio.
O tipo de silêncio que não permite fuga.
— Você não pediu isso — eu disse.
— Eu sei. — Ela respirou fundo. — Mas também não posso fingir que está tudo bem. Theo precisa de rotina. Estabilidade. E você…
Ela parou.
— E eu o quê? — perguntei, embora soubesse.
— Você está sobrevivendo. Não vivendo.
As palavras se alojaram em algum lugar fundo demais para serem arrancadas com facilidade.
— Ela morreu — eu disse, baixo.
Não era uma justificativa.
Era um fato.Eleanor não desviou o olhar. Nunca fazia isso quando o assunto era ela.
— Eu sei. — A voz dela suavizou. — Mas você também quase morreu naquele dia. Só que ninguém enterrou você.
A imagem veio sem aviso.
O monitor apitando. A mão dela apertando a minha. O pedido silencioso para que eu cuidasse do que ficaria.Engoli em seco.
— O Theo… — Eleanor continuou — não pode ser mais uma vítima desse luto.
A palavra doeu mais do que qualquer outra.
Luto.
— O que você está sugerindo? — perguntei, mesmo já sabendo.
Ela respirou fundo.
— Uma babá.
Meu corpo reagiu antes da mente.
— Não.
A resposta saiu seca. Instintiva.
— Alex…
— Não confio em estranhos dentro de casa.
— Eu também não — ela rebateu. — Mas confio menos ainda no que está acontecendo agora.
Passei a mão pelo rosto, sentindo o peso do dia antes mesmo de sair de casa.
— Ela morou aqui. — Minha voz saiu mais baixa. — Essa casa era dela.
— E agora é do Theo.
Aquilo me calou.
— Eu posso cuidar dele — insisti.
— Você não está cuidando. Está compensando. — Eleanor se inclinou levemente para frente. — E isso não é a mesma coisa.
O silêncio voltou. Mais espesso.
— Eu vou cuidar da seleção — eu disse por fim. — Entrevistas. Histórico. Referências.
— Claro — ela assentiu. — Eu só vou filtrar os currículos iniciais. Para ganhar tempo.
Eu concordei sem pensar demais. Estava cansado. Precisava ir para o hospital. Precisava operar.
Controlei a culpa como sempre fiz: compartimentalizando.
Dias depois, saímos para tomar café.
Não era algo comum. Eleanor insistiu. Disse que Theo precisava sair. Disse que eu precisava fingir normalidade por algumas horas.
Entramos naquele café sem planejamento.
E foi ali que tudo começou a rachar.
Eu senti antes de ver.
A sensação estranha de algo fora do lugar. Uma presença que alterava o ambiente sem esforço.
Ela estava atrás do balcão.
Simples. Discreta. Atenta.
Não era o tipo de beleza que chama atenção de imediato. Era pior. Era o tipo que se infiltra lentamente, que permanece depois que você vai embora.
Eu olhei.
E desviei.Não por falta de interesse.
Por excesso.
Ela era jovem. Demais. Tinha algo nos olhos que denunciava fragilidade e força ao mesmo tempo. Uma combinação que eu não podia tocar. Não devia sequer notar.
Eu tinha um filho pequeno demais.
Uma esposa morta. Uma vida que não admitia distrações.Então pedi o café.
Ignorei. Fingi que ela não existia.Mas meu corpo não fingiu.
Meses depois, eu estava no escritório quando Eleanor entrou com uma pasta fina.
— Já selecionei uma candidata — ela disse.
— Quantas entrevistas? — perguntei.
— Três.
— Referências?
— Todas checadas.
Assenti, confiante demais.
— Quando começa?
— Hoje.
Olhei o relógio. Algo dentro de mim se contraiu sem motivo aparente.
— Ela vai morar aqui?
— Sim.
— Certo.
Não pedi o nome.
Não pedi a foto.Erro.
A campainha tocou no meio da tarde.
Eu estava de pé quando a governanta abriu a porta.
E então…
O mundo parou de novo.
Ela entrou.
O mesmo cabelo.
O mesmo olhar atento. O mesmo sorriso contido.A mulher do café.
A menina que eu fingira não ver.
Clara.
Meu corpo reagiu antes da mente. Um choque silencioso. Um reconhecimento imediato e perigoso.
Ela me olhou. Reconheceu.
Eu fiquei imóvel.
Porque naquele instante eu soube:
eu não tinha ignorado aquela mulher por falta de interesse.Eu tinha ignorado porque sabia que, se olhasse de verdade, não conseguiria voltar atrás.
E agora…
ela estava ali.Na minha casa.
Com meu filho.Comigo.







