À noite, a casa mudava.
Não era algo visível de imediato, mas Ana percebeu logo no segundo dia: os sons ficavam mais espaçados, os corredores pareciam mais longos e o silêncio assumia um peso diferente. Durante o dia, a casa funcionava. À noite, ela observava.
Quando Mayra assumia o turno, por volta das dezenove horas, Ana costumava se recolher. Fazia isso sem pressa, mas também sem hesitação. Aprendera cedo que respeitar limites claros era a forma mais rápida de não criar ruídos desnecessários.
Naquela noite, porém, ela demorou mais na cozinha.
Cíntia estava ali, organizando algumas bandejas para o dia seguinte. Diferente de Dora, ela era mais expansiva, falava enquanto trabalhava, como se o silêncio não combinasse com ela.
— Você se adaptou rápido — Cíntia comentou, sem olhar diretamente. — Não é comum.
Ana apoiou o quadril na bancada.
— A rotina ajuda.
— Ajuda mesmo — Cíntia concordou. — Kali responde bem a quem mantém padrão.
Ana sorriu de leve.
— Percebi. Ela gosta de p