Mundo de ficçãoIniciar sessãoAcordei mais cedo, para ter tempo de me cuidar calmamente. Logo após fui para a cozinha tomar meu café da manhã.
As únicas palavras ouvidas foram: Bom dia! Bom dia, meninas! Depois disso, o silêncio se tornou músicas para meus ouvidos. Mas como alegria de pobre dura pouco... O silêncio da casa é quebrado por um grito vindo do andar de cima. — CADÊ AQUELA GAROTA INSOLENTE? QUANDO EU ACHAR VOCÊ... O som da voz de Eduardo ecoa pelos corredores, fazendo alguns dos funcionários pararem no meio do que estavam fazendo. Respiro fundo antes de parar próximo ao primeiro degrau, encontrando-o com os olhos no meio da escada, com o olhar furioso e a mão enfaixada. — Senhor Montenegro, por favor, se acalme — digo, mantendo a voz firme. Ele desce o restante dos degraus em passos largos, parando a poucos centímetros de mim. Antes que eu possa reagir, suas mãos seguram meus pulsos e me empurram contra a parede, prendendo-os acima da minha cabeça. O impacto não chega a doer, mas a surpresa me faz prender a respiração. O corpo dele está próximo demais. O calor que emana dele me envolve, e o hálito quente roça a pele sensível do meu rosto. Fecho os olhos por um segundo, como se tudo ao redor tivesse diminuído a velocidade. — Como você entrou no meu quarto? — ele pergunta, a voz baixa, carregada de irritação. — Com que permissão? Abro os olhos novamente, já sem paciência para o drama. — Caso não tenha percebido, eu sou sua babá — respondo, séria. — E babás cuidam. Então eu apenas cuidei disso aí. Desvio o olhar para a mão enfaixada dele, deixando claro do que estou falando. Por um instante, ele não diz nada. Apenas me encara, como se estivesse tentando decidir se me estrangula ou se responde. E, pela primeira vez desde que cheguei àquela casa, não sou eu quem desvia o olhar primeiro. Os dedos dele apertam meus pulsos com mais força, arrancando um pequeno gemido da minha garganta. — Você não tinha permissão nenhuma para entrar no meu quarto — ele rosna, aproximando ainda mais o rosto do meu. — Eu quero você fora desta casa. Hoje. Sustento o olhar dele, mesmo sentindo a pressão aumentar. Não vou pedir desculpas por ter feito o meu trabalho. — Eduardo. A voz firme da senhora Montenegro ecoa pelo corredor. Ele não me solta imediatamente. Apenas vira o rosto na direção dela, os maxilares travados, como uma criança pega fazendo algo errado. — O que pensa que está fazendo? — ela pergunta, aproximando-se com passos decididos. — Já não basta agir como um garoto mimado, agora vai começar a agredir quem está tentando cuidar de você? O que está se tornando, meu neto? Os dedos dele finalmente afrouxam, mas não antes de apertarem um pouco mais, como se fosse a última tentativa de impor autoridade. — Por isso você precisa de uma babá — continua ela, sem esconder o desprezo. — Agora faça o favor de tomar um banho e ir direto para a empresa. Precisam de você lá. O recreio acabou. O silêncio que se segue é pesado. Eduardo me solta de forma brusca, fazendo meus braços caírem ao lado do corpo. Dou um passo instintivo para frente, recuperando o equilíbrio. Ele me encara por alguns segundos, o olhar carregado de algo que não consigo definir. Raiva, humilhação ou talvez as duas coisas misturadas. Sem dizer uma única palavra, Eduardo vira-se e sobe as escadas pelo mesmo caminho de onde tinha vindo, os passos duros ecoando pela casa. — Senhorita Silveira, eu… sinto muito por isso. Ele nunca tinha agido dessa forma, então eu… Ela parecia não encontrar palavras para se desculpar pela vergonha e decepção que acabou de presenciar. — Está tudo bem, senhora Montenegro. Ele só está nervoso por ter o quarto invadido. Ela suspira. — Não está tudo bem, senhorita! Meu neto, a única pessoa que tenho nessa vida, está se perdendo aos poucos, e eu realmente não sei o que fazer. Sinto um nó na garganta por não saber como agir nessa situação. Ela está chorando, mas não de forma escandalosa. Chora com classe. — Vou tentar ajudá-lo. Mas, para isso, preciso estar um pouco mais próxima dele, o que envolve tratá-lo da mesma forma que ele me trata. Podemos ser amigos… o que acha? Ofereço minha opinião, e a senhora Montenegro parece analisá-la com paciência. — Acho uma boa ideia. Meu neto está acostumado com todas se tremendo aos pés dele. Seria bom se você o tratasse de igual para igual… Olha, você tem meu consentimento. Sorrio de lado, orgulhosa do começo de um plano absurdo. Ou ele vai me matar, ou vou conseguir domar a fera. E eu realmente não quero morrer. Peço licença à senhora Montenegro e sigo para o primeiro teick do meu plano: levar o café da manhã do “Eduardo”. Depois de pegar a bandeja com café preto, torrada com manteiga light, maçãs vermelhas cortadas e uma pequena porção de iogurte, levo tudo para o andar de cima. A porta do quarto está aberta, então apenas entro, sem pedir permissão. É errado? Sim. Falta de profissionalismo? Também. Mas será exatamente dessa forma que vou conseguir a atenção do senhor Montenegro. — Você perdeu o juízo, né, senhorita ultrapassada? Ele usa todo o seu estoque de insultos. Só não é muito rico. — Quem é você pra falar em juízo, Eduardo? Eduardo para de teclar no celular e me encara com um olhar desafiador. — Quem você acha que é? Está vendo como está falando comigo? Esqueceu que é só uma funcionária? Sorrio na cara do perigo. Tiro o celular de suas mãos e o coloco na gaveta. — Só vai ter de volta depois do café da manhã. Ele não gritou. Pior: Ficou em silêncio, me olhando como se estivesse decidindo se eu valia o esforço de ser destruída — Você tá louca? A reação de Eduardo não estava prevista. Ele fica com a boca em um perfeito “O”. Também não esperava essa minha atitude. Aposto que, nos próximos segundos, ele vai falar algo sobre a avó. — Vou repassar essas atitudes para minha avó. Não consigo segurar uma gargalhada ao ouvir exatamente o que imaginei. — Você é tão previsível, Edu. — Merda… eu não estou ouvindo isso. Você deve ser doida. Volta para o hospício de onde saiu. Ele aponta para a saída do quarto. — Vamos, coma logo esse café da manhã. Tenho outras coisas pra fazer. Eduardo não reage. Apenas começa a tomar o café da manhã normalmente, mas parece que a cabeça dele está borbulhando com mil coisas ao mesmo tempo. Perdão, senhor Montenegro. Mas que comece o jogo. Se eu falhasse, não falharia só comigo. Não seria só o emprego que perderia. Acabaria com a última esperança daquela mulher...






