Mundo de ficçãoIniciar sessãoO clima estava pesado. Senhor Montenegro continuava comendo em silêncio, até o momento em que jogou as maçãs vermelhas dentro do iogurte. O som da colher misturando tudo ecoou mais alto do que deveria naquele quarto silencioso. Meu estômago embrulhou só de olhar.
Faço uma careta involuntária, incapaz de disfarçar. — Tá fazendo essa cara de nojo por quê? Senhor Montenegro pergunta, com o olhar fixo em mim, como se estivesse esperando exatamente aquela reação. — Nada… é só que… isso aí que você fez não parece muito bom. Ele olha para a mistura que acabou de criar, depois para a colher que acabara de tirar da boca. Por um segundo, parece realmente considerar o que eu disse. Então sorri de canto. Pela primeira vez desde que cheguei naquela casa, ele sorriu de verdade. Não era um sorriso irônico, nem debochado. Era simples… humano. — Não, não é ruim. — Não parece ser. — Faço outra careta, mais discreta dessa vez. Eduardo nega com a cabeça, como se estivesse lidando com uma criança teimosa. Então se levanta da cadeira e anda em minha direção. Instintivamente, dou um passo para trás. O movimento é automático, e eu odeio que ele tenha percebido. Ele mergulha a colher no iogurte novamente e a segura no ar, próxima à minha boca. — Prove. — Não, obrigada! Ele ergue uma sobrancelha, claramente se divertindo com minha resistência. Tento pegar a colher de suas mãos, mas ele afasta um pouco, impedindo que eu a alcance. — Vamos, abra a boca. Ahhh… — ele abre a própria boca, como se estivesse me ensinando. Reviro os olhos, mas por dentro sinto um nervosismo estranho. Preciso me aproximar mais dele. Esse seria um ótimo começo, não seria? Abro a boca, ainda hesitante, o suficiente para que ele coloque a colher entre meus lábios. O gosto é mais suave do que eu imaginava. — Hmmm… — mastigo devagar — não é tão ruim quanto pensei. É bom. Eduardo sorri de lado, vitorioso. Assusto-me quando o polegar dele toca o canto da minha boca. Meu coração acelera imediatamente, como se tivesse levado um susto. Não consigo me mover, nem falar uma palavra. Nunca tive esse tipo de proximidade vindo de ninguém… Na verdade, nunca senti nenhum ato de carinho em minha pele. Nem eu mesma toquei minha pele com tanta delicadeza. Era estranho… e quente… e confuso. — Tava… sujinho. A voz dele sai baixa, quase casual, mas o gesto ficou grande demais dentro de mim. Eduardo leva o próprio polegar aos lábios e lambe o iogurte que tinha ficado ali. Não consigo tirar os olhos desse gesto simples e, ao mesmo tempo, tão íntimo. Percebendo como estou parada, rendida, ele coloca uma mão na parede, próxima à minha cabeça. O espaço entre nós diminui drasticamente. O rosto de Eduardo se aproxima do meu. Consigo sentir o cheiro leve do sabonete dele, misturado com algo mais masculino e forte. Minha respiração fica irregular, e tenho a sensação de que, se eu me mover um centímetro, vamos nos beijar. Parecia, de verdade, que íamos nos beijar. “Procura-se babá, meio período para crianças de até oito anos de idade…” O carro de som, passando ao longe, invade o silêncio do quarto e me arranca daquela situação como se alguém tivesse jogado água fria em mim. Babá? Eu sou babá. A realidade volta com força. Isso está errado. O que você está fazendo, Bárbara? Está doida? Foco. Dou um passo para o lado, escapando do espaço entre o corpo dele e a parede. — É… eu gostei dessa mistura duvidosa. Mas prefiro não misturar. Digo, tentando soar normal, mesmo com o coração ainda disparado. Ele se afasta devagar, como se estivesse analisando minha reação. Um sorriso discreto surge em seus lábios, como se ele tivesse acabado de ganhar um jogo silencioso. Só agora consigo perceber que ele talvez estivesse apenas testando até onde eu iria. O sentimento horrível de aperto no peito, ao ter uma fraqueza usada como ferramenta, é muito ruim. Uma sensação de ter sido exposta… e manipulada. Mas também posso usar isso para tê-lo mais próximo. Será agora que vou ter certeza se ele ainda tem um pouco de humanidade? Antes de atravessar a porta, paro. Minhas mãos suam levemente segurando a bandeja. Viro-me devagar até olhar para Eduardo. Ele permanece com um sorriso nos lábios, encostado casualmente na parede, como se estivesse assistindo a um espetáculo particular. Respiro fundo. — Olha, eu sei que fui eu quem começou a ultrapassar os limites. Mas não acho graça em usar as fraquezas das pessoas… nunca tive esse tipo de proximidade, então, para mim, isso é muito novo. Eu só… não consegui reagir ao seu toque, por nunca ter recebido nada parecido. Minhas palavras saem mais sinceras do que eu pretendia. Uma parte de mim quer se arrepender imediatamente, mas já é tarde. Respiro antes de continuar. — Pode fazer o que quiser. Só não faça mais isso. É baixo até para você usar esse tipo de arma. Eduardo parece abalado. O sorriso desaparece, e seus olhos ficam grudados em mim, como se estivesse tentando decifrar algo que não entende. Pela primeira vez, não vejo arrogância no olhar dele… apenas confusão. Estou sendo sincera. Fiquei realmente sem reação. Não tenho familiaridade com esse tipo de demonstração. Mas a coerência passou longe, eu mesma estou usando meus sentimentos quebrados para manter alguém por perto. É errado? Sim. Mas, no final, espero que valha a pena. — Eu não ia beijar você… a não ser que você quisesse. — ele diz, finalmente. — Mas… você nunca beijou? Eduardo é direto, como sempre. Meu rosto esquenta imediatamente. Sinto o calor subir pelo pescoço até as bochechas. Mas o que eu esperava? Somos humanos. Somos reais. Esse tipo de curiosidade é normal… ainda mais vindo de alguém como ele, que provavelmente já beijou metade da cidade. — Não. Sou curta e direta. Não vejo motivo para mentir. Minha resposta parece despertar algo nele. Eduardo franze levemente a testa, como se estivesse tentando encaixar aquela informação em uma lógica que não fazia sentido para ele. — Mas… por quê? Nunca tive por que falar desse assunto para ninguém. Minhas irmãs sempre me zoavam por eu nunca ter tido um namorado. Elas riam, diziam que eu ia acabar virando freira ou algo do tipo. Eu ria junto, fingindo que não me importava. Eu só nunca achei que merecesse ter alguma coisa. Enquanto elas saíam, voltavam com histórias, flores, mensagens no celular, eu ficava em casa fingindo que estava ocupada. Era mais fácil dizer que não me interessava do que admitir que ninguém nunca tinha se interessado por mim primeiro. Venhamos e convenhamos… nem meus pais sentem nada por mim. Um homem sentiria? — Nunca achei que fosse merecedora. — digo, simples, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Eduardo franze a testa com mais força, claramente incomodado com a resposta. — Realmente… você não é normal. Aquilo me atinge com força, como um tapa inesperado. Mordo o canto da boca para impedir qualquer lágrima de aparecer. Eu já tinha me preparado para muitas reações… mas não para aquela. Ele continua, antes que eu possa interpretar errado: — Quem, em sã consciência, acha que não merece beijar? Pisco algumas vezes, surpresa. Fecho os olhos rapidamente e deixo um suspiro escapar. A tensão nos meus ombros diminui um pouco. — Não sei… — dou de ombros — posso mudar de ideia. Estou em outra fase da minha vida e acho que posso querer mudar isso daqui pra frente. Eduardo não diz mais nada por alguns segundos. O silêncio entre nós não é mais pesado, apenas estranho, cheio de coisas não ditas. Ele se aproxima da mesa, pega a bandeja com a pouca comida que restava e a coloca em minhas mãos.






