Mundo de ficçãoIniciar sessãoO dia de hoje foi tenso. Estou extremamente cansada, mas o vazio que sempre senti continua ali, como um espaço oco que nada consegue preencher.
As lágrimas de todos os dias voltam a cair sobre minhas bochechas, escorrendo em silêncio e fazendo cócegas em minha pele. Faço um processo de respiração profunda, tentando me acalmar, pois ainda preciso cuidar do senhor Montenegro. A senhora Montenegro deixou algumas instruções claras para serem seguidas. Uma delas era cuidar dos ferimentos de Eduardo, caso ele tivesse se machucado. O senhor Montenegro faz uso de remédios para dormir, então estou esperando que ele pegue no sono para poder fazer os devidos cuidados. Respiro fundo ao atravessar a porta do banheiro, com um sorriso fraco no canto dos lábios. Subo para o segundo andar, contando os degraus em silêncio, como se isso pudesse acalmar o turbilhão dentro de mim. Toco levemente a maçaneta, como a senhora Montenegro havia me orientado. Trancada. Pego a chave que já estava em minha posse e destranco a porta com cuidado. Abro apenas o suficiente para observar se há algum movimento. Logo constato que não. Com a maleta de primeiros socorros nas mãos, entro no quarto e me aproximo devagar da cama. Eduardo está totalmente apagado. Só de imaginar que ele está assim por causa de medicamentos, meu coração dói. O que será que machuca tanto esse homem para que ele precise sofrer dessa forma? Por que, raios, eu não consigo parar de sentir pena dele? Será que é mesmo pena? Com esses pensamentos rodeando minha cabeça, abro a maleta e separo o necessário para limpar os ferimentos em sua mão. Faço tudo com cuidado, evitando acordá-lo. Depois de limpar o sangue seco, cubro o machucado com um curativo simples. Deixo um band-aid neutro, para que ele não dê chiliques ao acordar. Cubro seu corpo com o edredom preto que estava jogado ao lado da cama. Em seguida, observo o rosto de Eduardo com mais atenção, tentando decifrá-lo. Não é possível. Nunca foi. Se fosse tão fácil entender as pessoas, eu já teria decifrado meus próprios pais. Por alguns segundos, continuo parada ao lado da cama, observando o movimento lento do peito dele subir e descer. Pelo menos está respirando de forma tranquila. Isso já é um alívio. Morto não está! O quarto é diferente do restante da casa. Menos luxuoso, frio, mais escuro, quase vazio. Como se alguém tivesse tentado transformar aquele espaço em um refúgio, e não em um quarto de mansão. Meus olhos passeiam pela escrivaninha encostada na parede, pelos livros empilhados de forma desorganizada e por uma luminária torta, como se tivesse sido derrubada e colocada de volta sem cuidado. Nada ali combina com a imagem de um homem mimado e arrogante que eu tinha criado na minha cabeça. Parecia tudo solto, como se ele não tivesse conectado a realidade. Nunca tinha entrado no quarto antes, mas parecia que havia algo familiar nele. Desde o momento que o vi, imaginei que o espaço de alguém como Eduardo Montenegro fosse impecável, luxuoso, digno de capas de revista. Mas ali não havia nada disso. O ambiente parecia, cansado. Como se tivesse sido usado mais para se esconder do mundo do que para viver nele. Um leve cheiro de remédio pairava no ar, misturado ao perfume masculino que ainda permanecia nos lençóis. Não era um aroma desagradável, apenas triste. Me aproximo um pouco mais da escrivaninha, observando os livros empilhados de forma desorganizada. Alguns estavam abertos, marcados por papéis dobrados às pressas. Aquilo não parecia coisa de alguém fútil. Por um instante, sinto como se estivesse invadindo não apenas um quarto, mas uma parte da vida dele que ninguém mais via. Um mundo escondido, privado, proibido e eu entrei como se não houvesse dono. Sou cuidadora dele, mas isso não me dá o direito de explorar suas coisas pessoais. Devo assumir que errei em observar cada canto como se eu fosse uma inspetora. A culpa toma conta do meu peito. Solto um suspiro baixo. Talvez eu tenha julgado rápido demais, ou talvez ele apenas seja duas pessoas diferentes presas no mesmo corpo. Ajusto melhor o edredom sobre seus ombros e, por um instante, minha mão para no ar, próxima ao rosto dele. Penso em tocar sua testa, só para ter certeza de que não está com febre, mas desisto antes mesmo de tentar. Seria invasivo demais. Ele me mataria se soubesse que toquei nele. Dou um passo para trás, pegando a maleta de primeiros socorros. Antes de sair, olho mais uma vez para a mão enfaixada. Ele provavelmente vai reclamar quando acordar. Quase sorrio ao imaginar a cena. Apago a luz e fecho a porta com cuidado, girando a chave devagar para não fazer barulho. Do lado de fora, encosto as costas na parede e respiro fundo, como se só agora meu corpo lembrasse que precisava de oxigênio. Não sei exatamente o que mudou, mas algo mudou sobre o que eu pensava sobre Eduardo Montenegro. E isso me assusta mais do que deveria. Encosto minha cabeça no travesseiro macio. Queria poder me ver agora, só pra confirmar que o sorriso que sinto nos lábios realmente está ali. Sempre tive que dividir o quarto e a cama com minhas irmãs mais novas. Mas agora estou em uma cama grande, macia, com lençóis cheirosos e sozinha. Hoje, finalmente, não vou precisar dormir chorando por não ter conseguido um trabalho, e nem sob o olhar desaprovador da minha mãe. Posso até está sendo egoísta e uma má pessoa, mas estou grata por estar longe de casa. Assim que receber meu primeiro salário, vou mandar dinheiro para pagar as contas da casa e ajudar no tratamento do meu pai. O restante pretendo guardar para investir em mim, no meu futuro. Não sou mais uma criança. Já passei da idade de apenas tentar conseguir alguma coisa na vida, agora eu preciso conseguir. E essa responsabilidade, por mais necessária que seja, ainda me deixa apreensiva. Ainda assim, estou motivada a ser uma nova mulher. Vou provar pra mim mesma que Eduardo Montenegro não é uma pessoa difícil de lidar e que eu sou uma boa babá. Mesmo que o meu assistido seja um homem adulto.






