Você está demitida.

Sei que o mundo não gira ao meu redor… ou melhor, gira sim, mas só ao meu redor na minha cabeça. Ainda assim, não entendo por que tudo de ruim parece acontecer comigo.

Pensei que meus pais ficariam felizes com meu novo trabalho, mas a única coisa que ouvi foi:

“Pelo menos agora vai trabalhar.”

Dói ouvir tanta frieza nas palavras deles. São meus pais… deveriam me amar.

Por que eu não consigo sentir amor vindo deles? Isso é tão frustrante que chega a me dar ânsia de vômito.

Deixo esses pensamentos pesados no ônibus.

Desço em frente à mansão dos Montenegro. Com apenas uma bolsa média nas mãos, toco o interfone. Imagino que já saibam que sou eu, pois dois seguranças aparecem e repetem o mesmo procedimento do dia anterior.

Aperto a barra da minha blusa, tentando expulsar o sentimento de abandono do peito. Agora preciso estar inteira. Quero provar para mim mesma que sou mais do que alguém sem valor.

— Bom dia, senhorita Silveira! Você é uma moça de sorte. Meu menino finalmente saiu do quarto, está no escritório. Não comeu nada, então é uma ótima oportunidade para se conhecerem. Pode ser um pouco difícil, mas você vai conseguir.

A senhora Montenegro está animada. Os olhos brilham e ela sorri abertamente.

— E o uniforme?

— Pedi para deixarem em seus aposentos… Kira?

Ela chama, e logo uma moça, que aparenta ter minha idade, aparece vestindo um uniforme bege.

— Sim, senhora!

— Acompanhe a senhorita Silveira até seus aposentos e, depois, apresente a casa. Dê a ela um lanche para levar para Eduardo.

A moça assente e sorri, indicando que eu a siga.

O quarto fica no andar de baixo. Kira abre a porta, e meus olhos brilham imediatamente. Sinto vontade de chorar.

A cama é grande, com lençóis em tom azul-escuro. O edredom parece macio. Ao lado, uma mesinha de cabeceira. Perto da janela de vidro, um guarda-roupa branco e espaçoso.

É tudo tão acolhedor que sinto como se estivesse sendo abraçada, mesmo sem braços ao meu redor.

— Aqui está o seu uniforme, senhorita Silveira.

— Bárbara, por favor. Só Bárbara.

Peço com um sorriso leve.

— Depois que estiver pronta, vá até a cozinha. Vou preparar um lanche para você levar ao senhor Montenegro… e, se me permite, ele é um pouco grosseiro. Se mandar você sair, saia o mais rápido possível.

Pisco algumas vezes.

— Vou seguir seu conselho. Obrigada!

Kira sai, me deixando sozinha com meus pensamentos. Já imaginei várias vezes como o senhor Montenegro pode ser agressivo, mesmo com a avó dizendo o contrário.

Depois de vestir o uniforme preto, saia, blusa e sapatilhas, saio em busca da cozinha. Ou pelo menos tento.

Abro uma porta lentamente, achando que é a cozinha… mas o que vejo é um homem alto, de costas, vestindo roupas comuns, socando a parede com força.

Fecho a porta com cuidado e me afasto, respirando acelerada. Paro no centro de uma sala vazia, tentando me recompor.

— Ah, aí está você! Estava te procurando. Aqui estão frutas e iogurte natural. Ele não come há dois dias, então é uma refeição perfeita. Vou te levar até o escritório.

Nem precisava. Eu já sabia onde ele estava.

Caminho em silêncio até a porta.

— Boa sorte! — Kira diz, sorrindo.

— Obrigada.

Por dentro, todos os meus órgãos imploram por socorro.

Dou dois toques na porta e aguardo.

— Vá embora. — Ele responde, seco.

Não posso desistir. É meu primeiro dia. Se eu falhar com algo tão simples, como vou conseguir o resto?

Abro a porta lentamente.

O olhar sombrio que me recebe atrás da mesa me faz gelar. As olheiras profundas destacam ainda mais seus olhos. Ele me encara de um jeito inquietante.

— Vim trazer um lanche para o senhor.

O senhor Montenegro sorri de forma quase diabólica.

— Eu pedi? Espera… você é mais uma vagabundinha que minha avó contratou?

Aperto os lábios, mas mantenho a postura. Sou ótima em fingir normalidade desde os treze anos.

— Eu não usaria esse termo… mas sim, sou a nova babá. Só peço um pouco mais de respeito, já que fui educada com o senhor.

— Tanto faz. Você não fica nem um mês.

Coloco a bandeja sobre a mesa. Ele não desvia o olhar.

— Aqui estão as frutas.

Sinto cheiro de sangue e observo melhor. Lembro da cena… a parede. Então entendo.

A parede não sangra.

— Saia.

— Assim que o senhor se alimentar, eu me retiro.

Ele me observa de cima a baixo. Permaneço firme, com as mãos apoiadas nas coxas.

— Então vai ficar plantada aí?

Suspiro.

Tenho um irmão com o mesmo temperamento, Enzo. A diferença é que ele tem doze anos.

Sei lidar com isso.

— Se o senhor não comer, vou ter que dar na sua boca.

Ele finalmente reage, fixando os olhos nos meus.

— Você não é louca de encostar em mim. Quem acha que é?

— Não irei trocá-lo, senhor Montenegro! Só estou fazendo o meu trabalho.

— Eu não sou uma criança. Você está bem atrevida, pra alguém que é funcionária. Por acaso é alguém da família e eu não sei?

— Peço perdão por ser inconveniente, senhor! Só prezo pelo seu bem. Então, se o senhor puder comer as frutas.

Ele pega as frutas, todas cortadas igualmente, e come metade.

— Feliz? Agora vá até a cozinha e diga que quem cortou isso está demitida. Não comi o resto porque não está perfeito.

Apenas assinto, sentindo uma pequena vitória.

Ele comeu.

— Não se anime. Só comi porque hoje é seu último dia. Não gostei de você. Está demitida.

Meu primeiro dia... e já estava sendo demitida por alguém que nem tem autoridade para isso.

Ótimo, Bárbara!

Peço licença educadamente e saio.

Não levei a demissão ao pé da letra, até porque não fui contratada por ele.

Deixo a bandeja na cozinha e respiro fundo.

Não vou repetir o que ele disse sobre as frutas. É desnecessário.

— Ele comeu? — uma mulher de meia-idade pergunta.

— Sim, um pouco.

Ela sorri.

— Então você está com sorte. Aquilo ali é o capeta das empregadas.

Sorrio de leve com o comentário.

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