Mundo de ficçãoIniciar sessãoUMA CASA EM LUTO
Clary já estava de pé quando ouviu a voz angustiada da mãe ecoando no quintal. — Clary! Venha aqui, minha filha, por favor! —Ela deixou o pequeno quarto nos fundos, enxugando as mãos no avental maltrapilho que usava enquanto tentava dar conta das tarefas diárias. — O cheiro de detergente misturado com o perfume suave de lavanda ainda pairava no ar, mas a familiaridade do ambiente estava subitamente obscurecida pela sensação sombria que pairava como uma nuvem pesada. Ao cruzar a cozinha e ver a mãe na porta, percebeu o cansaço visível em seu rosto e os cabelos soltos que escapavam do coque que costumava ser tão impecável, uma clara representação do desespero e da sobrecarga emocional que agora a consumia. — O que aconteceu, mãe? — perguntou Clary, a apreensão já se enraizando em seu peito. Lucy segurou o braço da filha com um suspiro pesado que parecia carregar o peso do mundo. — Eu preciso de você. Aconteceu uma tragédia. — A dona Ellen faleceu ontem, e o patrão está completamente desorientado — sua voz trêmula revelava a dor profunda que sentia pela perda súbita, uma mulher que havia se tornado quase uma segunda mãe para elas. Clary sentiu um frio na espinha diante da notícia. — A casa, antes cheia de risadas e conversas amenas, agora carregava um silêncio assustador que amplifica a gravidade do momento. Clary levou a mão à boca, o coração apertando-se imediatamente, como se uma mão invisível estivesse o segurando em um punho firme. — Não... A dona Ellen? — murmurou, ainda incrédula, tentando processar a magnitude da dor que invadia sua alma. — Lucy assentiu, com os olhos cheios de lágrimas que refletiam toda a tristeza e a confusão que a envolviam. — Foi um acidente. Desde então, a casa virou um caos. — Estou cuidando da pequena Sofia e, hoje, ainda terei que entrevistar algumas candidatas para a função de babá. — Mas agora, preciso de ajuda com a menina — suas palavras saíam apressadas, cada uma carregando o peso da responsabilidade que agora recai sobre seus ombros. — Claro, mamãe. Eu ajudo sim... — respondeu Clary, engolindo em seco, determinada a ser o apoio que a mãe tanto precisava. — Então venha comigo. Ela está no quarto. Precisa de banho, mamada... carinho. — Está sentindo falta da mãe, e eu... — Lucy suspirou profundamente, uma exaustão emocional evidente em seu olhar. — Eu não consigo dar conta de tudo. Tenho a casa inteira para organizar, e a presença da Sofia, em meio a esse tumulto de sentimentos, é a única coisa que me faz lembrar da alegria que existe na vida, mas ao mesmo tempo é um fardo pesado. A sensação de desespero combina com o desejo de manter viva a memória dela, mas tudo se confunde em um labirinto sem saída. — Elas caminharam em silêncio pelos corredores da casa principal, onde a atmosfera era carregada de um luto profundo. — As paredes pareciam ecoar os risos e as conversas que outrora preenchiam aquele espaço, agora substituídos por um silêncio quase ensurdecedor. A cada passo, o peso das lembranças parecia se intensificar, como se as memórias do passado estivesse impregnadas no ar, tornando o ambiente ainda mais denso. — Clary, que sempre se sentiu à margem naquele ambiente, observava tudo com um misto de tristeza e saudade. — No entanto, pela primeira vez, em meio a essa dor coletiva, sentiu que fazia parte de algo mais significativo, como se sua presença fosse um elo necessário em um momento de fragilidade emocional para todos. Ao chegarem à porta do quarto da bebê, Clary hesitou, seu coração disparando. — O silêncio que reinava ali estava em contraste com o turbilhão emocional que sentia, um emaranhado de sentimentos que incluíam culpa, perda e expectativa. — A menina dormia tranquilamente, enrolada em um cobertor rosa-claro adornado com pequenos corações; suas bochechas estavam coradas, como se ainda carregassem o calor da própria vida. As mãozinhas terminavam fechadas em punhos, um gesto inconsciente de proteção. — Ela dorme bem, mas costuma acordar chorando. Acho que ela sente falta da mãe — comentou Lucy suavemente, arrumando uma manta sobre o berço, seu olhar perdido em pensamentos. Clary se inclinou delicadamente e acariciou a cabeça da menina, sentindo a maciez do cabelo que reluzia à luz suave da manhã. — Ela era tão apegada à mãe... — murmurou, a tristeza transparecendo em sua voz, enquanto vislumbra uma fração do amor que havia entre a mãe e a criança. — Era — respondeu Lucy, mantendo a voz baixa, quase como se temesse perturbar a paz daquelas horas; cada palavra parecia um sussurro, uma oração silenciosa. Virando-se para sua mãe, Clary fez um pedido sincero, sua voz quase tremendo com o peso do que estava prestes a compartilhar. — Mãe... posso compartilhar um sentimento? Mas é um segredo entre nós. — O pedido soou como uma confissão, uma tentativa de construir uma ponte entre suas inseguranças e a atenção da mãe. Lucy arqueou as sobrancelhas, encorajando-a a continuar, os olhos cheios de curiosidade e preocupação. — Diga. — Eu nunca confiei na irmã dela, a Halley. Ela podia até parecer idêntica, mas, por dentro… era uma pessoa diferente, dona Ellen era amorosa, irradiava bondade. — A outra... sempre foi apenas uma sombra. Uma sombra que talvez tenha se alimentado da luz da irmã, buscando o que poderia nunca ter sido dela. — As palavras despedidas de Clary soaram como um eco do que muitos já haviam sentido, uma percepção que ia além da aparência física, tocando as complexidades das relações humanas. — Clary... — Lucy advertiu com gentileza, mas com firmeza — não devemos falar assim. Elas eram irmãs. Sempre estiveram unidas, mesmo que de maneiras diferentes. — Cada uma lutou suas batalhas, e há coisas que não podemos compreender completamente — suas palavras eram um convite à empatia, mesmo diante da desconfiança. — A dona Ellen amava a irmã, disso eu tenho certeza. — Mas a recíproca não era verdadeira, há algo em Halley que sempre me deixou inquieta, uma sombra sobre a luz que a dona Ellen emanava. — Eu sentia isso nas pequenas coisas: um olhar enviesado, um comentário sarcástico sobre os talentos de Ellen que talvez não fossem tão apreciados, ou um sorriso que nunca chegava a atingir seus olhos. — Halley nutria inveja dela, e isso era claro como a luz do dia, mesmo que as palavras nunca tivessem sido ditas em voz alta. E você vai ver… agora que a dona Ellen se foi, Halley tentará se infiltrar aqui, como uma serpente deslizando silenciosamente entre as folhas secas. — Vai querer ocupar um lugar que não lhe pertence, e será preciso mais do que simplesmente uma aparência para preencher o vazio que a sua irmã deixou. — A dor da perda a deixará vulnerável, mas também a transformará em algo astuto e manipulador, e eu temo que ela não hesite em usar a dor da nossa família a seu favor. Lucy não respondeu imediatamente. Em vez disso, ela ajeitou a camisola da menina, seus gestos delicados como os de uma artista que tentava ajustar uma obra-prima. — As preocupações que pesavam sobre seus ombros eram como nuvens escuras, mas ela tentava se manter otimista, ainda assim. — O senhor Leonardo ainda está na funerária e, após isso, irá diretamente para o velório. — Eu preciso que você fique com a Sofia o dia todo. Você pode fazer isso por mim? Clary assentiu, pegando a bebê com carinho, envolvendo-a em seus braços como se estivesse segurando um tesouro precioso. — Ela não ficará sozinha, mamãe. — Eu cuidarei dela como se fosse minha. Vou falar com ela, fazer histórias e até cantar as canções que você gosta, para que ela possa sentir o seu amor através de mim. Lucy acariciou o ombro da filha, seu coração aquecido pela gratidão em meio à tumultuada maré de luto. — Obrigada, minha filha, você sempre foi meu anjo, uma luz em tempos sombrios. Sua capacidade de amar é a maior bênção que poderíamos ter. Enquanto Lucy se afastava, Clary fixou os olhos na bebê, que despertava lentamente, inquieta, abrindo os olhos e observando ao redor, talvez em busca da mãe. — Estou aqui, pequena, Bom dia, meu amor, está procurando sua mamãe não é ? Ela não está aqui agora, mas prometo que cuidarei de você com todo o carinho, tudo bem? — Prometo… Você sempre terá um lugar especial no meu coração, e juntas enfrentaremos qualquer sombra que surgir.






