A BABÁ E O CEO POSSESSIVO
A BABÁ E O CEO POSSESSIVO
Por: Angêl López
PRÓLOGO

A primeira coisa que senti ao entrar naquela casa foi o silêncio.

Não era paz.

Era regra.

O carro parou diante do portão alto, escuro, impecável. Antes mesmo que ele se abrisse, tive a sensação de que eu não estava sendo recebida. Estava sendo permitida.

O motorista abriu a porta sem dizer nada.

Desci com a mala na mão e olhei para a mansão de vidro e concreto à minha frente. Tudo ali parecia caro demais, limpo demais, parado demais. Não havia brinquedos no jardim. Não havia vozes. Não havia vida espalhada.

Apenas controle.

A porta se abriu antes que eu tocasse a campainha.

— Elena Duarte? — perguntou a mulher de uniforme escuro.

— Sim.

— Pode entrar.

Ela não sorriu. Eu também não forcei simpatia.

Entrei.

O interior da casa era ainda mais frio. Piso claro, móveis alinhados, janelas enormes, nenhum objeto fora do lugar. Era bonito. Perfeito. Mas não parecia uma casa com criança.

— Lily está no quarto — disse a mulher, caminhando à frente. — O Sr. Gray pediu que a adaptação fosse gradual.

Sr. Gray.

O nome foi dito como ordem.

Subi as escadas atrás dela e parei diante de uma porta entreaberta.

A menina estava sentada no chão, montando um quebra-cabeça. Loira, pequena, quieta demais. As peças eram encaixadas uma por uma, sem pressa, sem erro, sem bagunça.

Bati de leve.

— Oi.

Ela não se virou.

— Posso entrar?

Nada.

Entrei mesmo assim, mas fiquei perto da porta. O quarto era lindo, organizado e impessoal. Bonecas alinhadas. Cama perfeita. Prateleiras intactas. Tudo parecia decorado para uma criança que não brincava.

— Meu nome é Elena. Vou ficar aqui por um tempo.

Ela continuou encaixando as peças.

— Posso sentar?

Lily não respondeu.

Mas também não mandou eu sair.

Sentei a uma distância segura, sem tocar em nada. Por alguns minutos, só existiu o som baixo das peças se encontrando.

Então o quarto mudou.

Antes mesmo da voz, senti a presença.

— Ela não costuma permitir aproximações.

Levantei o olhar.

Sebastian Gray estava parado à porta.

Alto. Imóvel. Camisa social escura, mangas dobradas, postura impecável. Não era apenas bonito. Era o tipo de homem que fazia o espaço parecer menor sem dar um passo. Olhava como se nada naquela casa escapasse dele.

— Eu não toquei nela — falei. — Só sentei.

— Eu sei.

A resposta foi baixa.

Fria.

Vigiada.

Ele olhou para a filha.

— Lily.

A menina se virou.

— Sim, papai.

— Vá se preparar para o jantar.

— Está bem.

Ela guardou as peças com cuidado, passou por mim sem encostar e saiu. Quando a porta fechou, Sebastian entrou.

Um passo apenas.

O bastante.

— Quantas crianças você já cuidou?

— Algumas.

— Algumas é vago.

— É honesto.

O olhar dele ficou mais firme.

— A maioria não fica.

— Eu não costumo desistir fácil.

— Veremos.

Ele cruzou os braços.

— Aqui existem regras.

— Imaginei.

— Imaginar não basta.

Fiquei em silêncio.

— Pontualidade. Discrição. Nenhum visitante. Nenhuma saída sem autorização durante o expediente. Nada de fotografias. Nada sobre minha filha fora desta casa. Nada sobre mim.

— Entendido.

— Não é suficiente. Entender é fácil. Obedecer é outra coisa.

Meu corpo ficou rígido.

Ele percebeu.

— Não tolero erros, senhorita Duarte.

— Crianças erram.

O olhar dele endureceu.

— Adultos não têm esse privilégio aqui.

O silêncio pesou.

— Estou aqui para cuidar dela — respondi.

— Está aqui para cumprir sua função.

— Cuidar dela é minha função.

— Função não inclui vínculos desnecessários.

Olhei para o quebra-cabeça guardado no chão. Para as bonecas alinhadas. Para aquele quarto perfeito demais.

— Vínculo não é desnecessário para uma criança.

Sebastian deu um passo à frente.

Não rápido.

Não brusco.

Controlado.

— Você fala com muita segurança para alguém que acabou de entrar na minha casa.

— Eu falo com segurança sobre crianças.

— Então aprenda rápido sobre mim também. Eu não gosto de ser contrariado dentro do que é meu.

Meu coração falhou uma batida.

— Eu não sou sua.

O olhar dele desceu por um segundo até a minha boca e voltou aos meus olhos.

— Ainda não foi isso que eu disse.

— Então o que quis dizer?

— Que, enquanto estiver sob o meu teto, você pertence às minhas regras.

A frase me irritou.

Mais do que deveria.

— Eu não vim para ser controlada.

— Ninguém entra nesta casa sem ser.

Ele disse aquilo sem alterar a voz. Como se fosse simples. Como se fosse óbvio.

— Minha filha precisa de estabilidade — continuou. — Rotina. Segurança. Controle.

— Às vezes criança precisa de leveza.

Algo passou pelo rosto dele.

Rápido.

Escuro.

— Leveza foi o que destruiu esta casa, Elena.

Meu nome na boca dele soou íntimo demais.

E errado demais.

Antes que eu respondesse, ele se virou para sair.

— Amanhã, às seis e meia, Lily toma café. Às sete, inicia as atividades. Às oito, quero um relatório.

— Um relatório? Ela é uma criança.

Ele olhou por cima do ombro.

— E você é minha funcionária.

A porta ficou aberta depois que ele saiu.

Mesmo assim, tive a sensação de que ele ainda estava ali.

Naquela noite, no quarto de hóspedes, desfiz a mala em silêncio. O cômodo era bonito, neutro, sem cheiro de ninguém. Como o resto da casa.

Dobrei minhas roupas na cômoda e olhei pela janela.

O jardim estava perfeitamente iluminado.

Sebastian Gray estava lá embaixo.

Parado.

Celular na mão.

Olhando para a minha janela.

Prendi a respiração.

Não havia como ele me ver direito.

Mas ele via.

Eu soube antes mesmo de o meu celular vibrar.

Número desconhecido.

"Feche a cortina, senhorita Duarte."

Meu estômago gelou.

Olhei de novo para o jardim.

Ele já não estava mais lá.

Outra mensagem chegou.

"Amanhã começa cedo."

Fiquei imóvel, segurando o celular.

Eu ainda não sabia o que tinha acontecido naquela casa.

Só sabia que havia uma ausência que ninguém mencionava.

Uma menina que respirava baixo demais.

E um homem que transformava cuidado em controle.

Eu tinha sido contratada para cuidar de Lily Gray.

Mas, naquela primeira noite, entendi que atravessar o portão tinha sido fácil.

Difícil seria sair.

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