Acordei antes do despertador.
Por alguns segundos, fiquei imóvel, olhando para o teto claro do quarto de hóspedes, tentando lembrar onde estava. Então o silêncio veio primeiro. Aquele mesmo silêncio da noite anterior, frio demais, limpo demais, como se a casa inteira respirasse com cuidado para não desagradar o homem que mandava nela.
A cortina permanecia fechada.
Exatamente como Sebastian Gray tinha ordenado por mensagem.
Eu tinha fechado porque quis, repeti para mim mesma enquanto me levantava. Porque quis. Não porque ele mandou.
O celular estava sobre a cômoda. Peguei antes de entrar no banheiro e encontrei uma mensagem da clínica enviada às cinco e quarenta e dois.
Seu pai passou a noite estável. Acordou uma vez e perguntou por você.
A irritação morreu no mesmo instante.
Sentei na beira da cama, o peito apertado. Estável não significava bem. Acordar não significava voltar. E perguntar por mim só me lembrava que eu estava ali, naquela mansão estranha, cuidando da filha de um homem impossível enquanto meu pai continuava em uma cama de hospital.
Digitei uma resposta curta para a enfermeira e outra para minha irmã.
"Como ele está?"
Ela respondeu quase na hora.
"A mãe foi cedo. Eu vou depois da escola. Você tá bem aí?"
Olhei ao redor. A cama impecável. A cômoda perfeita. O armário com minhas poucas roupas parecendo uma invasão barata naquele luxo silencioso.
"Tô."
A mentira saiu fácil.
Talvez porque eu já estivesse treinada demais.
Tomei banho rápido, prendi o cabelo e vesti uma calça escura com uma blusa simples. Nada chamativo. Nada que pudesse virar regra, comentário ou problema. Mesmo assim, quando me olhei no espelho, lembrei do jeito como Sebastian tinha encarado minha boca na noite anterior depois que eu disse que não era dele.
Ainda não foi isso que eu disse.
A frase voltou inteira.
Baixa.
Controlada.
Perigosa.
Soltei o ar com força e saí do quarto antes que minha cabeça desse a ele mais espaço do que merecia. Eu estava ali por Lily. Pelo salário. Pelo tratamento do meu pai. Não por Sebastian Gray, nem pelo olhar dele, nem pela forma como parecia ocupar uma casa inteira mesmo quando não estava perto.
Desci às seis e vinte.
A mansão já estava acordada, mas sem barulho. Funcionários se moviam pelos corredores como sombras bem treinadas. Na cozinha, uma mulher arrumava frutas cortadas, pão, leite morno e talheres alinhados. Tudo exato demais para o café de uma criança.
— Bom dia — falei.
Ela ergueu os olhos.
— Bom dia, senhorita Duarte.
Até meu nome parecia engomado naquela casa.
— Pode me chamar de Elena.
A mulher hesitou.
— O Sr. Gray prefere formalidade com funcionários novos.
Claro que preferia.
Antes que eu respondesse, senti o ambiente mudar. A cozinha ficou mais rígida, e eu soube antes mesmo de virar.
Sebastian Gray entrou como se aquele cômodo também pertencesse ao corpo dele. Terno escuro, cabelo impecável, celular em uma das mãos, expressão fechada. Parecia o tipo de homem que não acordava; apenas reativava o controle depois de algumas horas em silêncio.
O olhar dele passou pelo relógio, pela bandeja e parou em mim.
— Está adiantada.
— O senhor disse que começava cedo.
— Eu disse seis e meia.
— E eu ouvi.
Ele guardou o celular no bolso.
— Então por que desceu antes?
— Porque chegar no horário não significa chegar em cima da hora.
A cozinheira ficou imóvel.
Sebastian não.
Ele apenas me observou, como se decidisse se eu era eficiente ou inconveniente.
— Tem resposta para tudo?
— Só para o necessário.
O canto da boca dele quase se moveu.
— Cuidado, Elena. Pessoas que respondem rápido demais costumam esquecer de pensar.
Meu nome, dito daquele jeito, soou íntimo demais.
— E pessoas que mandam demais costumam esquecer de ouvir.
O silêncio na cozinha ficou real.
Sebastian deu um passo na minha direção. Um só. O bastante para fazer o ar diminuir.
— Você está na minha casa há menos de doze horas e já me contrariou quatro vezes.
— Eu ainda estou empregada?
— Por enquanto.
— Então talvez eu não tenha contrariado tanto assim.
O olhar dele escureceu.
Não de raiva.
De interesse.
E isso foi pior.
— Você precisa muito deste emprego — ele disse.
Meu corpo gelou.
Não era pergunta.
— Todo mundo precisa trabalhar.
— Não como você.
Fiquei quieta.
Ele tinha encostado no lugar certo. E homens como Sebastian Gray não encostavam sem saber onde doía.
— O que o senhor sabe sobre mim?
— O suficiente.
— Isso é invasivo.
— Isso é necessário.
— Para contratar uma babá?
— Para permitir que uma estranha durma sob o mesmo teto que minha filha.
A resposta veio limpa. Sem culpa.
— Meu pai está doente. Eu preciso pagar o tratamento dele. Não é segredo.
— Nesta casa, quase nada é segredo.
Aquilo me irritou.
— Então também deve saber que eu não vim aqui para brincar.
— Eu sei. Por isso deixei você ficar.
Deixei.
A palavra soou como uma chave girando.
— O senhor deixou?
— Sim.
— Que gentileza.
Ele se aproximou mais um pouco. O perfume dele chegou antes da voz. Frio, caro, discreto.
— Não confunda decisão com gentileza. Eu não sou gentil com desconhecidos.
— Então por que me escolheu?
Sebastian sustentou meu olhar.
— Porque você precisava o bastante para não ir embora na primeira vez que se sentisse desconfortável.
A verdade bateu seco.
Meu orgulho quis responder. Minha realidade mandou calar.
Eu precisava do dinheiro. Precisava daquele emprego. Precisava suportar aquela casa, aquele homem e aquela sensação terrível de que Sebastian tinha enxergado minha necessidade antes mesmo de eu colocar os pés ali.
— Eu não vou abandonar Lily — falei.
O olhar dele endureceu.
— Não fale da minha filha como se já tivesse direito sobre ela.
— Então pare de falar da minha vida como se tivesse direito sobre mim.
A frase escapou antes que eu medisse.
A cozinha perdeu o ar.
Sebastian ficou imóvel. Depois, o olhar dele desceu pelo meu rosto com uma lentidão controlada. Não foi vulgar. Foi pior. Foi um aviso silencioso de que ele tinha ouvido mais do que minhas palavras.
— Se um dia eu falar como se tivesse direito sobre você, Elena, não vai haver dúvida.
Meu coração bateu forte.
Ele disse aquilo baixo. Quase educado.
E ainda assim senti como uma marca.
Antes que eu respondesse, passos pequenos vieram do corredor. Lily apareceu na entrada da cozinha usando um vestido azul-claro, o cabelo preso de lado, os olhos atentos demais para uma criança recém-acordada. Ela parou ao ver nós dois tão próximos. O olhar foi primeiro para o pai, depois para mim.
Eu recuei meio passo.
Sebastian percebeu.
Claro que percebeu.
— Bom dia, Lily — falei, suavizando a voz.
Ela apertou os dedos.
— Bom dia, Elena.
Foi pouco.
Mas foi dela.
A cozinheira colocou a bandeja na mesa. Lily caminhou até a cadeira, mas antes que pudesse subir sozinha, Sebastian se moveu. A precisão dele mudou quando tocou a filha. Continuava contido, mas havia cuidado ali. Um cuidado rígido, quase doloroso, como se Lily fosse preciosa demais para existir fora de uma redoma.
Ele puxou a cadeira.
Ela se sentou.
Ele ajustou a distância do prato.
Nenhum excesso. Nenhuma carícia demorada. Só controle.
Amor, naquela casa, parecia ter sido treinado para não fazer barulho.
— Hoje vou acompanhar a primeira hora de adaptação — Sebastian avisou.
Olhei para ele.
— O senhor não tem uma empresa para comandar?
— Tenho.
— E vai ficar aqui?
— Vou.
— Para observar Lily?
O olhar dele encontrou o meu.
— Para observar você.
Meu rosto esquentou, mas mantive a postura.
— Eu trabalho melhor sem plateia.
— Então aprenda a trabalhar sob vigilância.
— Isso é desnecessário.
— Nesta casa, eu decido o que é necessário.
A resposta veio fria. Final.
Puxei a cadeira ao lado de Lily e me sentei, ignorando a presença dele do outro lado da mesa.
— Então, Lily — falei. — Hoje você pode me mostrar do que gosta.
A menina olhou para o pai.
Sebastian não respondeu por ela.
Só dessa vez.
Lily voltou os olhos para mim.
— Eu gosto de quebra-cabeça.
— Eu percebi.
— Papai diz que quebra-cabeça ensina paciência.
— E você gosta de ter paciência?
Ela pensou.
— Não sei.
Sorri de leve.
— Então talvez a gente descubra outra coisa de que você goste também.
Sebastian se moveu.
Mínimo.
Mas eu vi.
— A rotina dela já foi definida.
Continuei olhando para Lily.
— Rotina pode ter espaço para descoberta.
— Elena.
Meu nome veio como aviso.
Dessa vez, olhei para ele.
— Sebastian.
A palavra saiu antes que eu pensasse.
Lily parou de mexer no copo.
A cozinha inteira pareceu entender que algo tinha atravessado uma linha invisível.
Sebastian caminhou até minha cadeira e parou atrás de mim. Não encostou. Não precisou. A presença dele nas minhas costas foi suficiente para fazer meu corpo inteiro ficar consciente.
Quando falou, a voz veio baixa, próxima demais.
— Cuidado com a maneira como usa meu nome.
Apertei os dedos sobre a mesa.
— Foi o senhor que mandou.
— Eu mandei quando estivéssemos sozinhos.
— Então talvez devesse parar de me dar ordens difíceis de acompanhar.
O silêncio depois disso foi denso.
Quase íntimo.
Sebastian inclinou-se um pouco, ainda sem tocar, mas perto o bastante para que apenas eu ouvisse.
— Eu não dou ordens difíceis, Elena. Dou ordens que revelam quem sabe obedecer.
Meu coração bateu contra as costelas.
Ele se afastou como se nada tivesse acontecido.
Mas tinha.
Eu senti.
— Às oito, quero o relatório — disse ele.
— Vai ter o relatório.
— Sem opinião pessoal.
— Então vai ser curto.
Ele parou na porta. O canto da boca dele se moveu de leve.
— Você gosta de testar limites.
— E o senhor gosta de fingir que não tem nenhum.
O quase sorriso sumiu.
Mas os olhos ficaram mais acesos.
— Todos têm limites, Elena.
Ele olhou para Lily por um instante. Depois para mim.
— Só não aconselho descobrir os meus.
Quando ele saiu, o ar voltou aos poucos.
Lily ficou olhando para o corredor por onde o pai tinha desaparecido. Depois virou para mim, com a voz pequena:
— Você não tem medo dele?
A resposta certa seria sim.
A inteligente também.
Mas pensei no meu pai em uma cama de hospital, na minha irmã tentando parecer forte, nas contas empilhadas sobre a mesa da nossa casa, e entendi que eu não tinha mais o luxo de fugir de homens difíceis.
Peguei uma fatia de maçã da bandeja e coloquei no prato dela.
— Ainda não decidi.
Lily me encarou por mais tempo dessa vez.
E, pela primeira vez desde que eu tinha chegado, quase sorriu.