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CAPÍTULO 5 — QUARENTA MIL RAZÕES

O quarto ainda estava mergulhado naquela escuridão leve que antecede o amanhecer, quando o mundo parece suspenso entre o silêncio da noite e o barulho do dia que ainda não começou.

Por alguns segundos fiquei olhando para o teto, meio perdida, tentando entender de onde vinha aquele som, como se eu ainda estivesse presa dentro de um sonho ruim. Só quando o aparelho vibrou novamente sobre o criado-mudo estendi a mão, devagar, presa entre o sono e a realidade.

Hospital.

O nome na tela fez meu coração disparar antes mesmo de eu atender. Ligações assim nunca significam que está tudo bem.

— Senhorita Elena Duarte? — a voz feminina do outro lado perguntou, educada, mas direta.

— Sim… sou eu.

— Estamos ligando para pedir que a senhorita esteja presente na avaliação médica desta manhã. O médico solicitou sua presença.

Sentei na cama imediatamente, como se o corpo tivesse despertado antes da mente conseguir entender o que estava acontecendo.

— Aconteceu alguma coisa?

Houve um pequeno silêncio do outro lado da linha.

— O médico vai explicar quando a senhorita chegar.

A ligação terminou ali.

Fiquei alguns segundos olhando para o telefone na minha mão. Aquela frase nunca era neutra. “O médico vai explicar” quase sempre significava que algo tinha mudado… e quase nunca para melhor.

Levantei devagar e atravessei o corredor da casa ainda escuro. Parei diante da porta entreaberta do quarto da minha irmã. A luz fraca da rua desenhava o contorno silencioso dos móveis.

Ela dormia profundamente, abraçada ao travesseiro. Desde pequena era assim. Como se o mundo inteiro pudesse desabar lá fora que nada conseguiria acordá-la.

Por um instante pensei em entrar.

Mas acabei apenas observando em silêncio antes de seguir para a cozinha. Peguei uma maçã da fruteira e a coloquei na bolsa junto com uma banana. Minha mãe sempre esquecia de comer quando passava horas no hospital.

Engoli um pouco de café frio que tinha ficado na garrafa da noite anterior e saí de casa antes que o silêncio daquela manhã me desse tempo demais para pensar.

A cidade ainda parecia despertar quando entrei no carro. O céu começava a clarear devagar, tingido de um azul pálido que prometia um dia comum demais para o que estava acontecendo dentro da minha cabeça.

Enquanto dirigia, uma pergunta começou a se repetir na minha cabeça, apertando meu peito.

Como vai ser quando eu não estiver mais aqui?

Por um instante pensei em ficar. Talvez fosse egoísmo ir embora agora. Talvez ainda existisse um jeito de resolver tudo ali.

Mas a verdade é que eu estava cansada de fingir que existia um caminho fácil.

Minha mãe estava no hospital. Minha irmã ainda dormia sem saber que qualquer decisão tomada nos próximos dias também recairia sobre elas.

Quando cheguei ao hospital, o cheiro forte de desinfetante misturado ao ar frio da recepção trouxe de volta aquela sensação pesada que já tinha se tornado rotina.

Subi direto para o quarto.

A enfermeira da entrada apenas confirmou meu nome e disse que eu poderia aguardar no leito do meu pai até o médico chamar.

Por um segundo fiquei parada no corredor.

Respirei fundo.

Toda vez que eu entrava naquele quarto parecia que estava me preparando para ouvir alguma coisa que eu não queria ouvir.

Empurrei a porta devagar.

Meu pai estava exatamente como eu o tinha deixado na noite anterior.

Imóvel.

As máquinas repetindo o mesmo som constante.

Como se o tempo tivesse continuado correndo para todo mundo… menos para ele.

Minha mãe estava sentada ao lado da cama, os ombros curvados de cansaço, olhando para o meu pai como se estivesse esperando qualquer sinal dele.

Quando me viu entrar, franziu a testa.

— Elena? O que você está fazendo aqui tão cedo?

— O hospital me ligou. Disseram que eu precisava estar presente na avaliação médica.

O rosto dela mudou imediatamente.

— Por quê? Aconteceu alguma coisa?

Olhei para meu pai.

As máquinas continuavam mostrando os mesmos números de sempre.

— Eu não sei.

Poucos minutos depois uma enfermeira apareceu na porta.

— O médico já irá recebê-las.

Entramos na sala em silêncio. O médico parecia cansado, mas ainda mantinha aquele tom profissional de quem já precisou dar muitas notícias difíceis.

Ele explicou que o prazo esperado para uma reação já tinha passado alguns dias antes. Eles aguardaram o efeito completo dos medicamentos… mas meu pai ainda não apresentava nenhuma resposta neurológica significativa.

Minha mãe apertou as mãos com força.

— O que isso quer dizer?

O médico respirou fundo.

— Precisamos investigar melhor por que ele ainda não despertou.

Ele apoiou as mãos sobre a mesa por um instante antes de continuar.

— Existe um exame específico que pode nos ajudar a entender melhor a atividade cerebral dele… e, a partir disso, definir qual tratamento pode ser mais adequado neste momento.

Minha mãe se inclinou um pouco para frente.

— Esse exame… ele é mesmo necessário?

O médico demorou um segundo antes de responder.

— Não é obrigatório. Mas é altamente recomendado. Sem esse exame ficamos limitados. Com ele conseguimos entender melhor por que seu pai ainda não acordou e qual caminho seguir.

Respirei fundo antes de perguntar:

— E o pagamento?

O médico assentiu.

— O exame custa quarenta mil reais.

O número caiu dentro de mim como uma pedra.

Olhei para minha mãe. Ela estava imóvel na cadeira, os dedos entrelaçados com tanta força que os nós tinham ficado brancos.

— Ele pode ser parcelado? — ela perguntou.

— Infelizmente não. O pagamento precisa ser feito à vista.

Quarenta mil.

Minha cabeça começou a fazer a conta sozinha.

No mercadinho onde eu pegava extra nos fins de semana eu fazia de tudo — caixa, estoque, limpar prateleira quando precisava. Era dinheiro honesto, mas pequeno.

Mesmo trabalhando todos os sábados, domingos e feriados, eu ainda não chegaria perto dos quarenta mil.

Olhei novamente para minha mãe. Ela continuava em silêncio, o olhar perdido no chão.

Saímos da sala sem dizer nada. Minha mãe caminhava ao meu lado pelo corredor devagar, como se cada passo pesasse mais do que o anterior.

Só quando paramos perto das janelas ela falou:

— A gente pode vender o carro.

O carro.

Fechei os olhos por um instante. Lembrei do sorriso do meu pai no dia em que trouxe aquela chave para casa. Não era um carro novo. Nem chamava atenção na rua.

Mas era dele.

Conquistado em parcelas que pareciam não acabar nunca. Durante semanas ele estacionava um pouco mais longe da calçada para evitar qualquer risco de alguém encostar ou riscar a pintura. Aos domingos ele mesmo lavava o carro na garagem, como se aquilo fosse um pequeno ritual silencioso de orgulho.

Meu pai sempre dizia que primeiro vinham as contas da casa… depois os sonhos.

Aquele carro tinha sido um dos poucos sonhos que ele tinha permitido a si mesmo. E agora estávamos ali… pensando em vender justamente aquilo.

Mesmo vendendo o carro, ainda faltaria dinheiro. Muito dinheiro.

Foi quando o telefone vibrou dentro da minha bolsa. Ignorei o primeiro toque… mas ele vibrou de novo.

— Atende, Elena — minha mãe disse. — Pode ser importante.

Olhei para a tela.

Isa.

Me afastei alguns passos e atendi.

— Elena, eu consegui uma entrevista pra você.

— Entrevista?

— Sim. Uma agência grande aqui de Nova York. Família muito rica. Babá residente.

— Isa…

— O salário é de dez mil dólares por mês.

Eu pisquei algumas vezes.

— Quanto?

— Dez mil dólares.

— Dez mil…

Repeti o número devagar.

Dez mil dólares.

O exame custava quarenta mil reais. Eu poderia pagar tudo em um único mês.

Sem precisar pedir ajuda. Sem dever nada a ninguém.

Levantei os olhos por instinto. Minha mãe continuava encostada perto da janela, olhando para o chão. O cansaço no rosto dela dizia tudo.

Meu peito apertou.

— Confirma a entrevista — eu disse.

— Elena… espera um pouco — Isa disse do outro lado da linha. — Não decide isso pela emoção.

— Eu já decidi.

— Você tem certeza que quer fazer essa entrevista?

— Por quê?

— Porque ele não deve ser um homem fácil.

— Você conhece ele?

— Não pessoalmente. Mas todo mundo sabe quem ele é. Bilionário. CEO de um dos maiores grupos de tecnologia de Nova York. Extremamente reservado.

Continuei em silêncio.

— Ele tem uma filha pequena — Isa continuou. — E dizem que é rígido com tudo. Horários, regras, rotina.

Franzi a testa.

— E a esposa?

— Ninguém sabe. Alguns dizem que ele era casado, mas nunca apareceu uma foto, um evento, nada.

O silêncio ficou pesado.

— E tem outra coisa — Isa acrescentou. — Nenhuma babá fica muito tempo naquela casa.

— Por quê?

— Ninguém sabe ao certo. Só dizem que trabalhar para ele não é simples.

Respirei fundo.

— Eu consigo.

— Elena…

— Eu preciso conseguir.

Isa suspirou.

— A entrevista é hoje, meio-dia. Online. Você confirma?

Olhei para minha mãe parada perto da janela.

Quarenta mil.

Houve um pequeno silêncio do outro lado da linha.

— Então eu aviso a agência — ela disse por fim.

— Obrigada.

— Elena…

— Oi.

— Só… toma cuidado, tá?

Olhei ao redor do corredor do hospital antes de responder.

— Eu sempre tomo.

Desliguei. Por alguns segundos fiquei ali parada, ainda com o telefone na mão, tentando entender quando minha vida tinha saído do rumo.

Talvez quando o médico falou quarenta mil. Talvez quando minha mãe sugeriu vender o carro do meu pai. Ou talvez agora, quando aceitei trabalhar para um homem que todo mundo evitava.

Respirei fundo e guardei o telefone na bolsa. A entrevista seria em poucas horas, e naquele momento eu ainda acreditava que estava apenas aceitando um trabalho.

Eu não fazia ideia de que aquela decisão me levaria direto para o mundo de um homem que ninguém ousava desafiar — um homem que controlava tudo ao seu redor com regras que ninguém quebrava.

E que, muito em breve, eu descobriria que entrar naquele mundo era fácil.

Sair... seria outra história.

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