Felícia mal conseguiu dormir.
Ficou deitada até perto das três da manhã olhando para o teto do quarto de hóspedes da Renata, com a cabeça cheia demais para descansar. Quando finalmente pegou no sono, o despertador do celular tocou o que pareceu ser quinze minutos depois.
Ela desligou antes que acordasse Clara, que dormia do outro lado da cama com a bochecha espalmada no travesseiro e a boca levemente aberta.
Felícia ficou olhando para a filha por um momento no escuro.
Depois se levantou, foi ao banheiro e fechou a porta com cuidado.
Na frente do espelho, tirou os óculos escuros e encarou o próprio rosto. Os hematomas tinham escurecido durante a noite — o roxo no maxilar direito havia virado um azul profundo, e o corte acima da sobrancelha ainda estava sensível ao toque. Ela abriu a nécessaire, pegou o corretivo mais encorpado que tinha e começou a trabalhar com paciência, camada por camada, até que o rosto no espelho voltasse a ser apresentável.
Boné. Óculos escuros.
Pronto. Felícia Montes, versão de sobrevivência.
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Ela foi acordar Clara com gentileza, sacudindo o ombro da menina devagar.
— Filha. Hora de levantar. Jardim de infância.
Clara abriu um olho, depois o outro, e ficou observando a mãe com aquela seriedade matinal das crianças que ainda estão processando onde estão.
— Mãe, por que você tá de óculos de sol e chapéu de novo?
Felícia estava preparada para a pergunta.
— A mamãe fez um procedimento estético e o médico pediu para cobrir bem o rosto por alguns dias. Pra recuperar mais rápido.
Clara franziu o nariz, avaliando a resposta com mais rigor do que Felícia gostaria.
— Mas a mamãe já é linda. Não precisa fazer nada não.
Felícia sentiu o coração apertar daquele jeito específico que só uma frase inocente de filho consegue provocar.
— É? — ela disse, puxando Clara para um abraço rápido. — Então tá bom. Mas o médico mandou, então a gente obedeceu. Vamos, levanta que a gente precisa chegar cedo.
Clara havia dormido sem saber de nada. Não havia acordado na noite em que Lucas chegou em casa embriagado e com aquela raiva carregada que Felícia já sabia reconhecer de longe. Não havia ouvido nada. Felícia havia se certificado disso antes de qualquer outra coisa. E agradecia por isso toda manhã — que a filha ainda tivesse a infância preservada de certas realidades.
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Depois do café da manhã, mãe e filha saíram de mãos dadas pelo corredor e esperaram o elevador. Clara segurava uma bolinha de borracha colorida — um arco-íris em miniatura que a menina carregava para todo canto há semanas como se fosse um objeto sagrado.
As portas do elevador abriram.
Felícia congelou.
Mael Sarmento estava dentro da cabine.
De terno cinza-escuro, camisa branca com o colarinho impecavelmente engomado, maxilar anguloso, postura de quem nunca teve um dia ruim na vida. Ele preenchia o elevador com aquela presença que ele nem parecia esforço ter.
O pensamento imediato de Felícia foi irracional e instantâneo: "ele mora aqui?"
Não fazia sentido. O condomínio da Renata era bom, mas antigo — as áreas comuns estavam um pouco cansadas, os elevadores eram lentos, a portaria ainda usava livro de registro físico. Para alguém com o nível de Mael Sarmento hoje em dia, isso seria um downgrade considerável.
Provavelmente estava visitando alguém.
Mas a questão de "por que" ele estava ali ficou suspensa no ar porque Felícia não tinha tempo para investigar — as portas iam fechar e Clara já estava puxando sua mão.
Os olhares se cruzaram por segundos. Mael a viu. Ela sabe que ele a viu. Mas ele desviou o olhar sem demorar, sem expressão, como se ela fosse qualquer pessoa num corredor qualquer.
Tudo bem, ela disse para si mesma. Isso é melhor assim.
— Mãe, a gente não vai entrar? — Clara olhou para ela.
— Vamos. — Felícia entrou, puxando a filha pela mão.
A cabine era espaçosa para um elevador residencial, mas Felícia conduziu Clara deliberadamente para o canto mais afastado de Mael, colocando o próprio corpo entre os dois. Ficou de lado, ligeiramente inclinada na direção da filha, criando uma barreira discreta — ou pelo menos tentando fazer parecer discreta.
As portas fecharam. O elevador começou a descer.
Os números acima da porta trocavam devagar. Térreo parecia estar a quilômetros de distância.
Felícia controlava a respiração conscientemente, certificando-se de que estava regular. Mael estava de frente para as portas, imóvel, claramente sem nenhuma intenção de puxar conversa. Ela agradeceu mentalmente por isso.
E então Clara soltou a bolinha.
A bolinha de arco-íris quicou no chão de mármore do elevador com um baque alegre e completamente inapropriado para o momento, rolou em linha reta e parou bem no bico do sapato de Mael.
Felícia fechou os olhos por meio segundo.
Claro.
— Mãe! Minha bolinha! — Clara se contorceu tentando passar pelo bloqueio materno. — A bolinha do arco-íris!
Mael olhou para baixo, viu a bola aos seus pés, agachou-se sem cerimônia e a devolveu a Clara com uma naturalidade absoluta — como se pegar brinquedos do chão de elevadores fizesse parte da rotina de CEOs de escritórios internacionais de advocacia.
Felícia observou as mãos deles se encontrarem por uma fração de segundo. A mão grande de Mael. A mãozinha pequena de Clara.
Um suor frio desceu pela sua coluna.
As mãos eram iguais. A mesma forma. Os mesmos dedos longos. A mesma leveza no gesto.
Não, ela disse para si mesma. Para.
— Obrigada, tio! — Clara sorriu para Mael com aquela abertura total que só crianças de cinco anos conseguem ter com estranhos.
Mael assentiu uma vez, sem expressão, sem calor, sem a menor curiosidade — e voltou a olhar para as portas do elevador como se a interação não tivesse acontecido.
Clara abriu a boca para continuar a conversa.
Felícia rapidamente colocou a mão na frente da boca da filha.
O elevador tocou. Térreo.
Foi a melodia mais bonita que Felícia havia ouvido na vida.
Mael estava mais próximo das portas, mas ia para a garagem no subsolo — não saiu. Felícia passou o braço em volta de Clara, virou-se de lado para evitar qualquer contato visual e saiu do elevador quase em trote, como se houvesse um incêndio do lado de fora que ela estava ansiosa para alcançar.
As portas fecharam atrás delas. O elevador continuou descendo.
Clara caminhou dois passos em silêncio, depois olhou para trás, depois para a mãe, com aquele olhar analítico que às vezes assustava Felícia pela profundidade.
— Mãe — ela disse baixinho, como quem está prestes a revelar uma descoberta importante —, aquele tio era uma pessoa má?
Felícia olhou para ela.
— Por que você pergunta isso?
— Porque você ficou na frente de mim o tempo todo. — Clara considerou a própria observação com seriedade. — E a sua mão estava suada.
Felícia respirou fundo.
Cinco anos. A menina tinha cinco anos e já percebia suor na palma da mão da mãe num elevador.
— Não, meu amor. Aquele tio não era uma pessoa má. — Ela se agachou na altura da filha. — Mas era um estranho. E a mamãe sempre te ensinou que com estranhos a gente mantém distância, lembra?
— Lembro. — Clara processou isso. — Mas se era só um estranho comum, por que você ficou tão nervosa?
— Eu não fiquei nervosa. — Felícia se levantou e pegou sua mão. — Fiquei preocupada com o horário. Anda logo, senão você chega atrasada no jardim.
O rosto de Clara mudou imediatamente, a investigação abandonada pela ameaça mais urgente.
— Não quero atrasar! Quero ganhar a florzinha vermelha!
— Então anda. — Felícia sorriu, pequeno e cansado. — Anda logo.
E foi andando ao lado da filha pelo corredor do condomínio, segurando aquela mãozinha com mais força do que o necessário, tentando não pensar nas mãos que eram iguais.