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Mael saiu pela rampa da garagem subterrânea ao volante do seu carro e, no cruzamento em frente ao condomínio, as viu novamente.
Duas figuras caminhando de mãos dadas pela calçada sombreada pelos ipês — uma grande, uma pequena. Clara tinha duas tranças presas com elásticos de cerejinha vermelha que balançavam levemente com cada passinho, e o enfeite brilhava à luz da manhã como se a menina tivesse planejado o próprio visual com cuidado.
Mael diminuiu um pouco a velocidade sem perceber que estava fazendo isso.
E então uma memória veio — do tipo que aparece sem avisar, pela fresta errada, na hora errada.
"Mael, a gente vai ter uma filha no futuro?"
"Por que filha?"
"Porque eu quero. Vou fazer trancinhas nela todo dia, e você leva ela na escola. Quero que ela cresça feliz com a gente do lado."
"Tudo bem. Desde que ela se pareça com você."
"Filha puxa o pai."
"Não tem problema nenhum puxar pra mim."
Ele lembrava do sorriso dela quando disse aquilo. Lembrava de como ela havia empurrado o ombro dele com a ponta dos dedos, fingindo indignação, e de como ele havia segurado aquela mão antes que ela se afastasse.
Mael pressionou levemente o acelerador.
E depois ela foi e teve uma filha com outro homem.
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Felícia deixou Clara na porta da sala de aula, esperou até a menina entrar e sentar no lugarzinho dela, acenar pela janela com os dois braços abertos — ritual obrigatório de todas as manhãs —, e só então se virou para ir embora.
Estava atravessando a rua quando um carro preto parou ao lado dela.
Não era qualquer carro. Era um Rolls-Royce Cullinan, daqueles que você vê em três situações na vida: em revista de celebridades, em frente a hotel cinco estrelas, ou quando o universo decidiu que o seu dia precisa de uma complicação a mais.
O vidro desceu devagar.
Mael Sarmento estava ao volante, o perfil iluminado pela claridade da manhã, com aquela expressão que ele usava para tudo — completamente indecifrável.
— Senhorita Montes — ele disse, num tom lento que carregava uma ironia tão sutil que você precisava prestar atenção para identificar.
Felícia ficou olhando para ele.
— O que você está fazendo aqui?
— Passando.
Ela olhou para a rua. Para o carro. Para ele.
Passando. Claro.
Ela estava prestes a dar meia-volta e ir embora quando ele falou de novo, num tom casual demais para ser realmente casual:
— Sua filha é muito bonita.
Felícia parou.
O coração fez aquela coisa que ela detestava — contraiu de um jeito que não era dor, mas doía do mesmo jeito.
Por que ele havia dito isso? Do nada, sem contexto, com aquela voz tranquila que não entregava absolutamente nada do que estava pensando? Ele havia notado alguma coisa no elevador? Havia ficado olhando para Clara mais do que ela percebeu?
Ela se forçou a soar despreocupada.
— Minha filha puxou pra mim. Tem algum problema?
Os olhos de Mael escureceram por uma fração de segundo — tão rápido que Felícia não teria certeza se havia visto mesmo, se não conhecesse aquele rosto tão bem quanto conhecia.
— Nenhum — ele disse. — Indiscutível.
E havia algo na forma como ele disse isso — não exatamente um elogio, não exatamente uma provocação — que fez Felícia querer sair dali o mais rápido possível.
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Quem conheceu Felícia Montes na época da faculdade sabia que ela era daquelas pessoas que iluminam um ambiente sem fazer esforço. Não tinha a beleza fria e calculada das modelos de catálogo — tinha outra coisa, algo mais quente, mais vivo. Como sol de meio-dia no verão, diziam. Quando sorria, os olhos viravam meias-luas e duas covinhas apareciam que faziam as pessoas esquecerem o que estavam falando. Na época, era impossível passar pela cidade universitária sem ouvir alguém para mencionar o nome dela.
Que a filha dela fosse bonita não era surpresa nenhuma.
Mas Mael não havia dito aquilo como um dado óbvio.
Havia dito de um jeito que Felícia precisava sair dali imediatamente.
— Estava só elogiando sua filha — ele disse, observando-a. — Por que você está tão nervosa?
— Eu não estou nervosa — ela respondeu, seca. — Com qual dos seus olhos você viu nervosismo?
— Com os dois.
Ela deu um passo para trás, determinada a encerrar aquela conversa antes que fosse mais longe.
O braço de Mael saiu pela janela do carro mais rápido do que ela conseguiu reagir. Os dedos fecharam em torno do seu antebraço — firmes, precisos, com a força casual de quem não precisa apertar para deixar claro que não vai soltar.
— Fugindo de novo? — ele disse, com aquela voz baixa que não precisava subir de tom para preencher o espaço entre os dois. — A Felícia que eu conheci se pendurava em mim como se fosse morrer se soltasse. Agora sai correndo toda vez que me vê.
Ela podia sentir o calor da mão dele através da manga da blusa. Podia sentir cada articulação dos dedos como se a roupa não existisse. E havia algo naquele toque — depois de seis anos sem — que ela se recusou categoricamente a nomear.
— Mael. — Ela manteve a voz firme. — Esse é o portão do jardim de infância da minha filha. Tem criança, tem pai, tem mãe, tem professor do lado de fora. O que exatamente você acha que está fazendo?
— Só vim avisar uma coisa. — Ele não soltou o braço. — Não aceito o que aconteceu ontem como pagamento de nenhuma dívida.
Ela abriu a boca para responder.
Antes que conseguisse, ele puxou levemente — só o suficiente para desequilibrá-la, para que ela ficasse presa entre o próprio impulso e a porta do carro. A mão dele subiu devagar pelo braço dela até a nuca, os dedos se acomodando ali com uma familiaridade absurda, e ele se inclinou levemente pela janela até que a boca dele ficasse a poucos centímetros do ouvido dela.
— Além disso — ele disse, num sussurro que não era quente nem frio, era apenas definitivo —, você não tem o direito de achar que estamos quites. Isso não existe entre a gente.
E então soltou.
Sem aviso. Sem transição.
Felícia perdeu o equilíbrio de uma vez só e foi direto para o chão, os joelhos batendo no asfalto, a palma da mão arranhando levemente o meio-fio.
O motor do Cullinan deu uma rosnada grave e o carro acelerou, dobrando a esquina sem pressa — porque Mael Sarmento era o tipo de pessoa que não precisa dar satisfação de nada para ninguém.
Felícia ficou sentada no meio da calçada, com poeira na roupa e a dignidade em algum lugar que ela precisaria procurar depois.
Olhou para o carro desaparecendo na esquina.
— Mael Sarmento — ela disse, em voz baixa mas com uma convicção que o asfalto inteiro pôde sentir —, seu filho da p......
Levantou-se devagar, sacudiu a saia, ajeitou o boné.
Logo de manhã cedo, ela pensou, furiosa e humilhada em partes iguais. Esse homem veio me arruinar logo de manhã cedo.