Dois

JADE

O resto da noite passou tranquilo, quase rotineiro.

Cheguei em casa, fechei a porta com o pé e, sem cerimônia, tirei os saltos altos e os joguei longe no corredor. Eles deslizaram pelo piso de madeira com um som abafado, como se reclamassem do dia longo junto comigo.

— Ai, meus pés... — resmunguei, me encostando na parede para massagear os dedos doloridos.

Da cozinha, ouvi o barulho inconfundível de um pacote de alumínio sendo aberto. Lili apareceu segundos depois, segurando um saco de salgadinho, com o cabelo preso num coque frouxo e a camiseta velha de sempre.

— E aí? Como foi o programa de hoje? — perguntou ela, mastigando sem menor cerimônia.

Abri a geladeira, peguei uma garrafa de água gelada e dei um longo gole antes de responder.

— Tranquilo. Mas amanhã tenho cliente novo.

Ela arqueou as sobrancelhas, interessada.

— Rico?

— Bilionário, segundo a Vanessa.

— Bonito?

Dei de ombros, guardando a água.

— Nem vi foto. Nem pesquisei. Vou trabalhar, não escolher namorado.

Lili quase se engasgou de tanto rir.

— Você é doida, Jade.

— Eu sou profissional.

— Você fala isso com uma pose de madame de novela — implicou ela, apontando um salgadinho na minha direção.

— E funciona.

Ela riu outra vez, balançando a cabeça.

— E qual é o nome do bonitão?

Peguei o celular na bolsa e deslizei a tela para checar a mensagem da agência.

— Henrique Montenegro.

Lili fez uma careta exagerada.

— Esse sobrenome tem cara de quem reclama até da temperatura da água mineral.

Ri, concordando.

— Também achei.

— A Vanessa falou alguma coisa a mais dele?

Assenti, lembrando dos avisos minuciosos da minha empresária.

— Disse que é bilionário, extremamente exigente, odeia atrasos... e que quase ninguém na cidade já viu aquele homem sorrir.

Lili arregalou os olhos.

— Credo. Tipo um robô de terno?

— Pois é.

— Você vai acabar provocando ele, Jade. Eu te conheço.

Olhei para ela com um sorriso divertido.

— Eu nem conheço o homem, Lili.

— Isso nunca impediu você.

Balancei a cabeça, rindo da provocação.

— Meu único objetivo é sobreviver ao jantar, receber meu pagamento e voltar para casa inteira.

Ela estreitou os olhos, analítica.

— Você acredita mesmo nisso?

Pensei por um instante, soltando um suspiro resignado.

— ...Não muito.

Nós duas caímos na risada.

No fundo, porém, enquanto a gargalhada ia diminuindo, restou uma curiosidade incômoda que eu não conseguia explicar. Homens poderosos costumam ser previsíveis inflados pelo próprio ego e fáceis de manobrar. Mas havia algo no tom de Vanessa ao falar dele que soar como um aviso velado.

Acordei antes do despertador.

Um verdadeiro milagre para quem geralmente precisava de três alarmes.

Fiquei alguns segundos encarando o teto branco do quarto até a memória da noite anterior voltar como um solavanco.

Henrique Montenegro.

— Ai, Jesus... hoje tem serviço — murmurei para o quarto vazio.

Levantei da cama, fiz um coque bagunçado no topo da cabeça e fui arrastando os pés para a cozinha. O cheiro de café fresco já tomava conta do corredor. Lili estava sentada à mesa, de pijama, segurando sua caneca com as duas mãos.

Assim que me viu, começou a rir.

— Que foi agora? — perguntei, pegando uma xícara no armário.

— Você acorda parecendo um filhote de pomba depenada.

Revirei os olhos com dramaticidade.

— A beleza também precisa descansar, sabia?

Enquanto eu passava manteiga no pão, o celular sobre a mesa começou a vibrar. O nome na tela não era surpresa para ninguém.

Vanessa.

Atendi no viva-voz.

— Bom dia, minha empresária favorita.

— Jade, o carro passa às sete da noite em ponto. — disse a voz pausada e empresarial de Vanessa, sem espaço para bom-dia.

— Tá.

— Não chegue atrasada.

— Tá.

— Seja discreta.

— Tá.

Ela fez uma pausa longa do outro lado da linha. Eu conseguia até imaginar Vanessa ajustando os óculos no nariz, preparando o golpe final.

— E escuta uma coisa.

— Fala.

— Não tente quebrar o gelo. O Henrique não é o tipo de pessoa que gosta de conversar só por educação.

Franzi a testa, desacostumada com esse tipo de restrição. Geralmente, meu trabalho era justamente socializar e manter o ambiente leve.

— Sério?

— Muito. Ele prefere o silêncio a qualquer conversa vazia. Se ele não puxar assunto, apenas acompanhe e seja a presença impecável que você sempre é.

Olhei para a xícara de café nas minhas mãos, sentindo o calor da cerâmica contra meus dedos.

— Entendido.

— Promete? — sorri sozinha, achando graça da apreensão dela.

— Prometo me comportar.

Ela soltou um suspiro audível de alívio.

— Essa resposta já me deixa um pouco mais tranquila. Até mais tarde, Jade. A ligação terminou. Lili me encarava por cima da caneca com um olhar conhecedor.

— O que foi? — perguntei.

— A Vanessa praticamente pediu para você não conversar demais.

— Pediu.

— E você consegue?

Sorri, dando um gole no café quente.

— Descubro hoje à noite.

Peguei a xícara e caminhei até a janela da sala, observando o movimento calmo da rua logo cedo.

Não era o dinheiro dele que despertava minha curiosidade dinheiro comprava ternos caros e carros blindados, mas não mudava o caráter de ninguém. Era a fama.

Todo mundo parecia descrever Henrique Montenegro da mesma maneira: um homem impecável, inalcançável e impossível de ler. Um enigma envelopado em um império financeiro.

Talvez fosse tudo exagero da mídia e dos funcionários intimidados. Ou talvez aquela noite me provasse que, às vezes, a fama existe por um motivo bem real.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP