Mundo de ficçãoIniciar sessãoJADE
Passei a tarde inteira pensando na roupa. Não porque eu quisesse impressionar, o cliente tá bom, talvez um pouquinho. Mas a primeira impressão vale ouro no meu meio, e eu não pretendia perder essa partida antes mesmo de o jogo começar. Abri o guarda-roupa como quem abre um arsenal de guerra. Vestidos pretos, vermelhos, dourados... cada peça contava uma história diferente e passava uma mensagem distinta. — Não... esse aqui tá muito "esposa de jogador de futebol" — resmunguei para mim mesma, jogando o vestido dourado de paetês sobre a cama. Peguei outro cabide. — Esse tá muito "vou cantar num barzinho". Fora. Lili apareceu na porta do quarto, encostada no batente com os braços cruzados e uma expressão divertidamente julgadora. — Você está escolhendo roupa ou fazendo desfile de moda? — Isso aqui é estratégia, Lili — respondi sem tirar os olhos das opções. — Estratégia? — Claro. Cada vestido manda uma mensagem clara. Ela fingiu um interesse profundo, dando um passo para dentro do quarto. — Ah, é? E qual mensagem exatamente você quer mandar hoje? Pensei por alguns segundos, encarando as opções penduradas. — "Sou bonita, mas não sou fácil." Lili caiu na gargalhada, jogando a cabeça para trás. — Jade, você é inacreditável. No fim, optei pelo clássico que nunca falha: um vestido preto elegante, de corte impecável, com um decote sutil e um caimento perfeito que marcava minhas curvas sem pender para a vulgaridade. Soltei o cabelo, deixando as ondas escuras caírem livremente sobre os ombros. Passei meu perfume assinatura, coloquei um par de brincos discretos de ouro branco e dei uma última olhada no espelho de corpo inteiro. — Agora sim... Meu celular vibrou sobre a penteadeira. Motorista: Estou na porta. Respirei fundo, peguei a bolsa carteira e desci. Um sedã preto, enorme e impecavelmente limpo, me esperava na calçada. O motorista, vestindo terno escuro, alinhado e luvas discretas, abriu a porta traseira assim que me aproximei. — Boa noite, senhorita Jade. Olhei para o luxo do carro e depois para ele, arqueando uma sobrancelha. — Chique, hein? Ele apenas fez um gesto educado e contido com a cabeça. Entrei, me acomodando no banco de couro macio. Enquanto o carro cortava as avenidas iluminadas da cidade, fiquei observando os reflexos dos postes nas janelas fumê. Tudo parecia normal, mais um trabalho como qualquer outro. Mas alguma coisa dentro de mim, aquele instinto afiado por anos lidando com os mais variados tipos de pessoas dizia que aquela noite seria diferente. O carro desacelerou suavemente diante da entrada privativa de um dos hotéis mais luxuosos da cidade. O motorista saltou e abriu minha porta com rapidez. — O senhor Montenegro já está aguardando — avisou ele. Respirei fundo, ajustando a postura. Tá, Jade... não invente moda hoje, pensei comigo mesma. Siga o protocolo. Mesmo assim, pela primeira vez em muito tempo, senti meu coração batendo um pouco mais rápido do que o normal. Assim que cruzei as portas automáticas e entrei no saguão imponente, senti alguns olhares me acompanhando. Nada de novo. Levantei o queixo, ajustei o passo e caminhei com a confiança de quem pertencia àquele lugar tanto quanto qualquer bilionário. Uma recepcionista elegante veio rapidamente ao meu encontro. — Boa noite. Senhorita Jade? — Boa noite. — O senhor Henrique Montenegro está aguardando na suíte presidencial. Posso acompanhá-la? Assenti em silêncio. Entramos no elevador privativo que subia direto para a cobertura. O silêncio durante a subida era tão absoluto que até o zumbido suave do motor parecia alto demais. Quando as portas espelhadas abriram, dei de cara com um espaço espetacular. Móveis de design assinado, obras de arte abstratas nas paredes e uma vista panorâmica da cidade que parecia não ter fim sob a noite estrelada. A recepcionista caminhou até o corredor e apontou para uma porta alta de madeira escura. — Ele está no escritório. Pode entrar. — Obrigada. Esperei que ela se retirasse, respirei fundo e bati duas vezes na madeira maciça. — Entre! — veio a resposta. A voz grave e aveludada atravessou a porta sem o menor esforço. Empurrei a maçaneta devagar. A primeira coisa que vi foi a figura de um homem de costas, observando as luzes da cidade através da imensa janela de vidro que ia do chão ao teto. Alto. Ombros largos. Um terno preto feito sob medida que caía com perfeição absoluta. As mãos estavam nos bolsos da calça, sustentando uma postura tão tranquila quanto imponente. Sem pressa, ele se virou. Por um segundo involuntário, esqueci até de respirar. Bonito. Bonito num nível irritante. Daqueles homens que parecem ter nascido sem precisar fazer o menor esforço para capturar a atenção de todo o ambiente. Os olhos escuros e penetrantes passaram por mim apenas uma vez, de cima a baixo. Sem pressa. Sem constrangimento. Sem qualquer emoção aparente. Ele fechou com calma a pasta de couro que estava sobre a mesa de madeira nobre. — Jade Monteiro. Não era uma pergunta. Era uma confirmação precisa. Sustentei o olhar e sorri, recuperando meu prumo. — Em carne, osso... e um salto quinze. Nenhuma reação. Nem um esboço de sorriso, nem um aceno, nem um único comentário. Nossa... esse homem devia economizar palavras como quem economiza ouro, pensei. — Você chegou cinco minutos antes do horário combinado — pontuou ele, checando o relógio de pulso. Arqueei uma sobrancelha, cruzando os braços. — Tá reclamando porque eu cheguei cedo? — Fiz apenas uma observação. — Meu pai do céu... o senhor conversa assim o tempo todo? Ele sustentou meu olhar por alguns segundos, imperturbável. — Apenas quando é necessário. Por algum motivo, a rigidez daquela resposta me fez sorrir involuntariamente. — Senhor? — provocou ele, tombando levemente a cabeça. Abri meu melhor sorriso inocente. — É força do hábito. — Meu nome é Henrique. Assenti, sem perder o tom brincalhão. — Tá bom... doutor Henrique. Por um instante, o silêncio na sala pareceu ainda maior e mais denso. Ele apenas continuou me encarando fixamente. Sem irritação, sem impaciência e sem o menor sinal de um sorriso. Como se estivesse tentando decifrar se eu sempre falava daquele jeito desafiador ou se era apenas um teste calculado. Foi nesse exato momento que eu entendi uma coisa crucial: Henrique Montenegro não era o tipo de homem que reagia facilmente aos estímulos dos outros. E, pela primeira vez em muito tempo, eu não fazia a menor ideia de como seria o restante daquela noite.






