LarissaA carta começava com um pedido de desculpas.Querida filha,Sei que fui covarde. Mais uma vez na minha vida fui covarde, e talvez essa seja a maior das covardias — não ter tido coragem de te dizer isso com a voz, olhando nos teus olhos, enquanto ainda tinha tempo e fôlego pra isso. Mas se você está lendo essa carta, é porque já parti pro meu descanso eterno, e pelo menos a dor de ver a sua decepção não precisarei carregar.Levantei os olhos do papel.Meu pai estava com os olhos fechados, a respiração curta e cadenciada. Mas não estava dormindo — eu sabia que não estava. Havia uma tensão nos ombros dele, uma atenção no silêncio, que me dizia que ele estava acordado e presente e esperando.Pela primeira vez na minha vida, vi vergonha no rosto do meu pai.Não a vergonha performática de quem diz "que vergonha" pra situações cotidianas. A vergonha real — a que mora fundo, que envergonha a pessoa pra dentro antes de aparecer pra fora, que muda o jeito que alguém carrega o próprio co
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