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Capítulo 5 – O Abraço de Quem Fica

Larissa

Minha mãe parecia ter envelhecido dez anos em uma tarde.

Era uma coisa que eu não sabia que era possível ver acontecer em tempo real, mas aconteceu. Quando a encontrei no meio da sala cheia de gente — sendo amparada pela tia Lúcia, cercada de rostos conhecidos, os olhos completamente ocos daquele jeito específico de quem perdeu a âncora principal — vi que ela já era levemente diferente da mulher que eu tinha deixado na cozinha pela manhã.

Não nos traços. Não exatamente. Era mais no jeito que ela sustentava o próprio peso — como se o centro de gravidade tivesse se deslocado, como se ela estivesse precisando reaprender a equilibrar sem a presença que tinha sustentado seu equilíbrio por tantos anos.

Corri até ela. Me aninhei nos seus braços.

Ela me abraçou com uma força que me surpreendeu — a força desesperada de quem precisa segurar alguma coisa que não vai embora. Ficamos assim por um tempo que não sei calcular, as duas de pé no meio da sala cheia de vozes baixas e movimentos cuidadosos, abraçadas e chorando do jeito que as duas sabíamos fazer — sem escândalo, sem alarido, chorando feito chuva fina que não para mas também não vira temporal.

Quando o choro deu uma trégua e eu precisei de ar, soltei minha mãe com delicadeza, certifiquei que a tia Lúcia estava perto dela, e fui pra varanda.

Precisava de ar de verdade. O ar da sala estava pesado com a presença de tantas pessoas e com o cheiro de café que alguém tinha feito sem que ninguém pedisse, porque é o que se faz nessas horas — você faz café porque é a única coisa concreta e útil que consegue fazer quando não há nada de concreto e útil que resolva alguma coisa.

Na varanda, encontrei Diogo.

Estava encostado no batente, olhando pra rua, virou assim que sai pela porta, ele parecia sentir minha presença.

— Lari.

Veio ao meu encontro antes que eu chegasse até ele. Me abraçou com aquele abraço que era diferente dos outros — não o abraço apertado e urgente da minha mãe, mas o abraço firme e constante de quem está dizendo: aqui estou. Pode se apoiar. Não vou embora.

Fiquei ali por um tempo sem dizer nada. Deixando o calor do corpo dele fazer alguma coisa com o frio que ainda havia no meu peito desde o quarto, desde a carta, desde o silêncio que veio depois.

— Como está se sentindo? — perguntou ele, a voz baixa, sem tirar o queixo do meu cabelo. — Procurei você antes, mas já estava no quarto. Fiquei aqui.

— Sabia que você estava. — Era verdade. De alguma forma, mesmo do quarto, mesmo com o chuveiro e o banheiro e a porta trancada entre nós, eu sabia que ele estava esperando.

Ficamos quietos por um momento.

— Di. — Comecei sem saber direito onde a frase ia terminar. — Ele me pediu que eu fosse feliz. Que seguisse em frente. Que não deixasse minha felicidade depender de ninguém.

— Era um homem muito sábio.

— Era. — A voz saiu menor do que eu queria. — É. Era. — Ainda não estava acostumada com o tempo verbal. Ia demorar um tempo. — Como eu vou fazer isso sem ele, Di? Ele era a pessoa que me ajudava a não ter medo das coisas novas. Quando havia algum obstáculo, eu perguntava o que ele faria, e isso já era suficiente.

Diogo se afastou levemente pra poder me olhar. Pegou o meu rosto nas duas mãos — o gesto simples e completo de alguém que quer que você saiba que está sendo visto.

— Você vai fazer do jeito que você sempre fez as coisas, Lari. Com mais coragem do que a maioria das pessoas que eu conheci na vida. — Disse sem hesitar, sem a falsidade mole de quem quer consolar sem comprometer. — Só que agora vai ser mais difícil por um tempo. E tudo bem que seja mais difícil. Você não precisa fingir que não é.

Fiquei olhando pra ele.

Três anos mais velho. Segundo ano de medicina. Cabelos cheios de cachos que a mãe dele insistia que ele cortasse e que ele insistia em deixar crescer. Olhos castanhos escuros que eu conhecia desde sempre, que tinham me olhado com tantos tipos de expressão ao longo de anos que eu tinha perdido a conta. — mas que naquele momento tinham algo que eu não sabia nomear, alguma coisa funda demais pra caber numa palavra só.

— Queria que você soubesse uma coisa. — Ele abaixou as mãos, mas ficou perto, os olhos ainda nos meus. — Aqui dentro — pôs a mão no peito — tem um lugar que é seu. Sempre foi. Pode ser que você nunca queira ocupar esse lugar do jeito que eu quero que você ocupe, e tudo bem. Mas quero que saiba que existe. E não vai a lugar nenhum.

— Di. — Levantei a mão num gesto que queria dizer para, mas que saiu mais suave do que isso.

— Não estou te cobrando nada. — Me interrompeu antes que eu completasse. — Não é hora e eu sei disso. Só não quero que passe mais tempo sem você saber. Não hoje. Hoje não faz sentido guardar.

Olhei pra ele por um tempo.

Depois, sem dizer mais nada, voltei pro abraço dele. Enterrei o rosto no peito dele e fiquei ali enquanto a noite caía e mais gente chegava e a varanda recebia o barulho baixo das ruas de Serra e o céu ficou primeiro roxo, depois escuro, e as estrelas apareceram uma a uma sobre as montanhas que cercavam a cidade.

Diogo ficou a madrugada toda.

Não foi embora.

E quando todo mundo tinha ido embora e a sala finalmente ficou quieta, ele ainda estava — numa cadeira na sala, a cabeça encostada na parede, os olhos fechados mas sem dormir de verdade, acordado do jeito de quem está de guarda.

Eu não sabia ainda o que fazer com tudo que ele tinha me dito.

Mas sabia que havia pessoas que ficavam. E que isso valia mais do que eu conseguia calcular naquela noite.

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