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Capítulo 9 – A Noite da Formatura

Larissa

Diogo estava encostado no carro quando desci os degraus da varanda.

Um metro e setenta e cinco, calça preta, camisa social, gravata e sapato social da mesma cor. Os cabelos cheios de cachos que ele nunca cortava curto o suficiente pro gosto da mãe. O rosto que eu conhecia de cor, de uma vida inteira de olhar — mas que naquela noite, com aquela roupa e aquela luz do poste da calçada criando sombras nos ângulos certos, estava completamente diferente.

Ou talvez a diferença fosse em mim.

Ele olhou quando eu saí pela porta. Ficou parado por um segundo, e naquele segundo eu vi algo nos olhos dele que eu raramente tinha visto — não o carinho de amigo que era constante e familiar, não a admiração de quem torce pelo outro, mas outra coisa. Algo mais fundo. Algo que eu reconheci com um desconforto delicioso que não esperava sentir.

— Você está linda. — Me beijou a mão como um cavalheiro de filme antigo. Depois ficou bem perto e murmurou. — Corrigindo: você é linda.

— Para com isso, Diogo. — Mas eu havia abaixado a cabeça.

— Não paro. — Abriu a porta do carro pra mim com um sorriso que eu não conhecia. — A noite é nossa, Lari. Vamos?

A festa foi numa casa afastada da cidade — um espaço alugado com jardim iluminado e teto aberto nas laterais. Ornamentação em lilás e branco, as mesas com toalhas lilases e arranjos florais simples e bonitos. Exatamente a estética de Serra — sem ostentação, sem afetação, apenas coisas escolhidas com gosto.

Diogo não me largou o tempo todo. Circulamos juntos, cumprimentamos colegas, bebemos champagne em taças de plástico que não combinavam nada com a seriedade que o champagne costuma exigir mas que eram completamente adequadas pra quem estava comemorando o fim do ensino médio numa cidade do interior com dezoito anos.

Rimos de coisas que não vou lembrar amanhã.

E então o DJ colocou uma música lenta.

Meu instinto foi ir pra mesa — pegar algo pra beber, criar distância, desviar antes que o inevitável acontecesse. Puxei Diogo pela mão em direção à saída da pista.

Ele não foi.

Me segurou pelo pulso — suave, sem força, do jeito que você segura alguma coisa que não quer soltar mas que também não vai forçar.

— Não vai me deixar aqui, vai? — A voz chegou baixa, perto do meu ouvido, pra que ninguém mais ouvisse. — Só uma música, Lari. Me dá esse presente.

Olhei pra ele.

Ele estava me olhando de um jeito que tornava difícil dizer não. Não porque havia manipulação — Diogo não era de manipulação, nunca foi, e eu o conhecia bem o suficiente pra saber a diferença. Era porque havia honestidade. Uma honestidade tão direta e tão sem defesa que era mais difícil de recusar do que qualquer argumento.

— Só uma. — Cedi.

Ele colocou a mão nas minhas costas. Eu coloquei a mão no ombro dele. E começamos a dançar do jeito que se dança quando não se dança bem — com boa vontade, com os pés se esquivando do sapatinho da outra pessoa, com uma imprecisão que de alguma forma ficava certa.

A música era "Tem Que Ser Você", de Victor e Leo.

"...Um dia seus pés vão me levar

Onde as minhas mãos não podem chegar

Me leva onde você for

Estarei muito só sem o seu amor

Agora é a hora de dizer

Que hoje eu te amo

Não vou negar

Que outra pessoa não servirá..."

Diogo sabia a letra inteira. Claro que sabia — ele tinha o costume de memorizar músicas que faziam sentido pra ele, e eu sabia faz tempo qual era o critério que tornava uma música relevante pra Diogo Lisboa.

Cantou no meu ouvido. Baixinho. Só pra mim.

Fechei os olhos.

Tentei não sentir. Falhei completamente — porque o corpo não aceita instrução da cabeça nessas horas, e o meu corpo estava muito bem ciente de que havia uma pessoa que me queria de um jeito que eu nunca tinha sido querida antes, perto demais pra ignorar, cantando uma música que era uma declaração que não precisava de outras palavras.

Quando a música terminou e outra começou "É Cedo" - Roupa Nova, nenhum dos dois se afastou.

" ...Me chama, me faz acreditar nos sonhos

Saber que ainda existe um mundo

Que vai salvar a nossa história.

Me chama, me olha e diz que é tudo engano

Que a vida vai mudar meus planos

E não será melhor fugir..."

As músicas foram passando. Nós ficamos.

Eu estava indo embora em dias. Ele voltaria pra faculdade no outro estado. Começar algo agora seria construir sobre areia — não teria alicerce, não teria tempo, não teria a proximidade que um começo precisa pra virar alguma coisa que dura.

Isso é o que a minha cabeça dizia.

O meu coração estava ouvindo outra música.

E então — sem que nenhum dos dois tivesse decidido, sem aviso, sem planejamento — nos beijamos no meio da pista.

O meu primeiro beijo.

E era com ele. Com o menino que tinha segurado minha mão na noite do velório do meu pai e não me largado até de manhã. Com o amigo que me ajudou a passar nas provas, que ouviu minhas músicas, que ficou no banco de ferro debaixo da árvore horas e horas sem precisar de nada além da companhia.

O beijo durou o tempo de uma música inteira.

Quando parou, eu sabia duas coisas com absoluta clareza.

A primeira: aquilo era real e bonito e importante.

A segunda: aquilo era impossível do jeito que coisas reais e bonitas às vezes são impossíveis, não por falta de sentimento, mas por excesso de vida real acontecendo ao mesmo tempo.

E essas duas coisas coexistiriam dentro de mim por um longo tempo.

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