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Capítulo 6 – Adeus, Paizinho

Larissa

A chuva chegou na manhã do enterro.

Não a chuva de temporal, aquela que desconta no mundo tudo de uma vez. A chuva de garoa fina e constante, do tipo que não encharca mas também não para, que envolve tudo numa umidade suave e deixa as superfícies com um brilho melancólico. Como se o céu soubesse exatamente a medida certa de luto que aquele dia pedia — não o exagero, não a performance, mas a presença discreta e constante de algo que chora junto sem fazer barulho.

Acordamos sem ter dormido de verdade.

Tomamos um café da manhã que ninguém terminou. Minha mãe ficava olhando pra xícara sem beber, com aquele olhar perdido em distâncias que não existiam na cozinha. Minha avó materna — que tinha chegado de madrugada com o meu avô — insistia em colocar pão na frente de todo mundo como se comida pudesse resolver alguma coisa. Não podia. Mas o gesto de colocar era uma forma de fazer alguma coisa útil, e todo mundo precisava disso.

Descansamos pouco — o corpo exige, mesmo quando a mente não permite, mesmo quando deitar na cama com o teto acima parece absurdo quando se está no meio de um dia como aquele.

No início da tarde, saímos.

Minha mãe foi com a tia Lúcia, meus primos e o marido da tia. Eu fui no carro com Diogo e os pais dele — o Sr. Olavo dirigindo, a Sra. Lídia no banco da frente, eu e Diogo no banco de trás. O Sr. Olavo não falou durante o trajeto. A Sra. Lídia ficou com a mão sobre a mão do marido. Diogo ficou com a mão sobre a minha.

O cemitério de Serra ficava numa encosta suave, cercado de árvores que ficavam verdes o ano todo. Tinha aquela serenidade específica que os cemitérios de cidade pequena têm — sem o isolamento frio dos cemitérios grandes, sem aquela sensação de que a vida ficou do lado de fora do portão. Em Serra, os vivos e os mortos pareciam ocupar o mesmo tecido de memória. Muita gente que estava enterrada ali tinha visto as mesmas ruas que eu andava, ou seja, pouca coisa mudava ali.

Na hora de fechar o caixão, pedi um momento.

A tia Lúcia entendeu antes que eu precisasse explicar. Falou com as pessoas em voz baixa, pedindo que dessem espaço. Minha mãe hesitou — a dor dela queria ficar, queria mais tempo, queria que o tempo parasse completamente — mas a tia Lúcia pôs uma mão no ombro dela com uma firmeza gentil, e elas foram.

Fiquei sozinha com o meu pai pela última vez.

Olhei para o rosto dele por um tempo longo. Era o mesmo rosto que eu conhecia — as mesmas linhas, o mesmo cabelo branco. Mas havia alguma coisa ausente que não era só o movimento, não era só a respiração. Era alguma coisa que eu não sabia nomear e que só conseguia perceber por contraste, pela falta.

— Vai com Deus, paizinho. — A voz saiu mais firme do que esperava. — Descansa. — Uma pausa. — Eu não tenho o que te perdoar — a mim e à mãe você não fez nada. Quando aconteceu o que aconteceu, eu não existia, e a mãe você ainda não conhecia. Mas tem alguém que deveria receber esse pedido de desculpas pessoalmente, e agora não vai ser possível.

Uma lágrima desceu pelo meu rosto. Deixei.

— Eu adoraria ter um irmão, pai. Mesmo que fosse meio irmão, mesmo que fosse um estranho no começo. Não sei se algum dia vou conseguir encontrá-lo — faz trinta anos desde aquela noite, e o mundo é grande, e as informações que tenho são poucas. Mas posso te prometer que não vou descartar a possibilidade. Não vou jogar fora a caixa. Não vou agir como se ele não existisse.

Respirei fundo.

— Não vou te julgar pelo que você fez. Você era jovem e assustado e estava prestes a perder a mulher que amava. Não vou condenar — seria fácil condenar, mas fácil não é a mesma coisa que justo. Só espero que Deus te receba com misericórdia, que te perdoe os erros que você não conseguiu consertar em vida. E que de onde você estiver, consiga olhar pelos dois — por mim e pelo menino que você nunca conheceu.

Fiz uma pausa.

— A gente vai ficar bem — eu e a mãe. Pode confiar em nós.

Beijei a testa dele.

O frio da pele me pegou de surpresa mesmo sabendo que era o que ia encontrar.

Chamei os outros.

Minha mãe voltou e agarrou minha mão com uma força que doeu um pouco. Fiquei do lado dela enquanto o caixão foi descendo, enquanto as primeiras paladas de terra foram jogadas, enquanto as orações foram ditas com as vozes daquelas pessoas que conheciam meu pai há décadas e que sentiriam falta da maneira quieta e duradoura que é a saudade das cidades pequenas.

De volta em casa, depois que todos foram embora e a sala ficou quieta com a ausência pesada de quem não vai mais voltar, fui pro meu quarto.

Tranquei a porta.

Peguei a caixa do fundo do armário.

Abri a certidão de nascimento.

O nome do pai: ausente. O sobrenome que deveria estar depois do nome do menino: ausente. A linha estava lá — um espaço em branco onde o meu sobrenome poderia ter estado, onde o nome do meu pai poderia ter sido inscrito na vida daquele menino de uma forma oficial, permanente, irreversível.

O espaço em branco dizia mais do que qualquer palavra que estivesse escrita.

Fechei a certidão. Guardei de volta.

E aprendi, naquela noite, que algumas perdas são duplas — você perde a pessoa, e ao mesmo tempo descobre tudo que a pessoa perdeu antes de você. E não sabe ao certo por qual das duas perdas está chorando mais.

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