Mundo de ficçãoIniciar sessãoLarissa
Comuniquei a morte do meu pai para as pessoas que estavam na sala. A minha voz saiu firme. Isso me surpreendeu — não porque eu esperasse desmoronar, mas porque não esperava que meu corpo fosse tão eficiente em separar o que estava acontecendo por fora do que estava acontecendo por dentro. Por fora: serena. Por dentro: destroçada e um turbilhão de sentimentos. As pessoas reagiram como pessoas reagem — com abraços, com palavras de condolência, com aquele silêncio específico que só existe ao redor da morte, pesado e respeitoso e um pouco embaraçado porque ninguém sabe exatamente o que dizer e todo mundo diz a mesma coisa assim mesmo. "Sinto muito." "Que Deus o receba em paz." "Você precisa de alguma coisa, pode contar comigo." Passei por todos eles como se estivesse atravessando uma névoa. Num canto da sala, vi Diogo com os pais dele — o Sr. Olavo e a Sra. Lídia. Os dois com aquele jeito de estar presente sem ocupar espaço desnecessário, que é uma habilidade que poucas pessoas têm e que toda a família Lisboa parecia ter nascido com ela. Diogo me olhou de longe com aquela tristeza que ele carregava por mim, a tristeza de quem me conhece bem o suficiente pra imaginar a extensão do que eu estava sentindo. Mas não consegui chegar até eles. Havia gente demais querendo falar comigo, já que minha mãe tinha se recolhido pro quarto, e eu me tornei automaticamente o ponto de referência da situação. Precisava de ar. Fui pro meu quarto. Tranquei a porta. A caixa levei pra dentro do banheiro, trancando essa porta também, só pra ter uma camada extra de proteção contra o mundo. Abri o chuveiro no quente máximo. Entrei de roupa e fiquei debaixo da água por um tempo, deixando o calor fazer alguma coisa com o frio que estava dentro de mim desde que dobrei as folhas da carta e vi os olhos do meu pai pela última vez. E ali, com a água quente, eu precisava relaxar, mesmo que o dia estivesse quente e o vapor tomando conta do banheiro pequeno, me permiti finalmente pensar no que a carta me dizia. Eu tinha um irmão. Não um irmão de fantasia, do tipo que você inventa na cabeça quando é filho único e fica pensando como seria. Um irmão real, de sangue, que tinha existido no mundo por pelo menos dois anos antes da carta chegar — e isso era a última informação que meu pai tinha. Quantos anos o menino teria agora? A caixa com as roupinhas e fotos das festas de um e dois anos chegou quando o menino tinha dois anos. Meu pai tinha trinta e um quando foi à festa na clareira, minha mãe e ele se conheceram dois meses depois e já tinham quase um ano de namoro quando a mulher apareceu com o bebê de cinco meses. Então ele teria uns trinta anos agora. Trinta anos. Mais velho do que eu por mais de uma década. Estava em algum lugar do Brasil — em outro estado, era o que a carta dizia. Tinha uma mãe que o criou sozinha, que depois encontrou um homem bom, que se casou. Tinha um padrasto que o amava como se fosse filho. Tinha uma vida inteira que se construiu sem saber que existia uma irmã de dezesseis anos no interior de Minas Gerais. Teria ele encontrado uma mulher? Estaria casado? Eu poderia já ser tia sem saber? Me senti tonta. Saí do chuveiro. Sentei na beira do vaso por um momento com as roupas encharcadas, respirando fundo até a tontura passar. Quando me levantei, me vi no espelho e quase não me reconheci. Não era diferença física — era outra coisa. Era o jeito que a gente muda por dentro quando recebe uma informação que não tem como deletar. Você não fica igual depois. Mesmo que pareça igual por fora, você não é mais aquela pessoa. Me troquei. Escolhi um vestido preto leve porque era quente e porque era o que o dia pedia. Pus um cinto caramelo, sandálias da mesma cor. Me olhei no espelho mais uma vez — agora reconhecia mais a imagem, embora ainda houvesse aquele estranhamento suave. Dezesseis anos. Era cedo demais pra carregar isso. Era cedo demais pra saber de um irmão que não existia pra mim ontem e hoje preenchia uma parte tão grande dos meus pensamentos. Era cedo demais pra ser a guardiã de um segredo que tinha pertencido a outra pessoa por décadas e que agora era todo meu. Mas não existia "cedo demais" quando se tratava de coisas que aconteciam de qualquer jeito. Sentei na beira da minha cama por um momento, olhando pro chão. Perguntando ao meu pai, em silêncio, por que não tinha me contado enquanto podia. Por que esperou pra colocar isso num papel em vez de me olhar nos olhos e dizer. Por que preferiu a covardia — a palavra que ele mesmo usou — à dificuldade de uma conversa que teria doído, mas que pelo menos teria sido real. Não tinha resposta. Não teria nunca. A pessoa que poderia ter respondido estava no quarto ao lado, mais quieta do que jamais esteve na vida. Me levantei. Saí do quarto. E voltei pra sala pra fazer o que precisava ser feito, carregando por baixo de tudo — por baixo da serenidade e das palavras certas — o peso de um segredo que tinha acabado de se tornar meu. Pra sempre.






