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Capítulo 3 – A Confissão

Larissa

A carta começava com um pedido de desculpas.

Querida filha,

Sei que fui covarde. Mais uma vez na minha vida fui covarde, e talvez essa seja a maior das covardias — não ter tido coragem de te dizer isso com a voz, olhando nos teus olhos, enquanto ainda tinha tempo e fôlego pra isso. Mas se você está lendo essa carta, é porque já parti pro meu descanso eterno, e pelo menos a dor de ver a sua decepção não precisarei carregar.

Levantei os olhos do papel.

Meu pai estava com os olhos fechados, a respiração curta e cadenciada. Mas não estava dormindo — eu sabia que não estava. Havia uma tensão nos ombros dele, uma atenção no silêncio, que me dizia que ele estava acordado e presente e esperando.

Pela primeira vez na minha vida, vi vergonha no rosto do meu pai.

Não a vergonha performática de quem diz "que vergonha" pra situações cotidianas. A vergonha real — a que mora fundo, que envergonha a pessoa pra dentro antes de aparecer pra fora, que muda o jeito que alguém carrega o próprio corpo.

Voltei pra carta. Precisava continuar antes que perdesse a coragem.

Antes de conhecer minha mãe, meu pai era outro homem. Ele deixou isso bem claro desde o começo — não como desculpa, mas como contexto. Jovem, sem família por perto, sem ninguém pra colocar rédeas. Os avós tinham morrido cedo demais, e ele tinha ficado num vácuo de responsabilidade que durou mais do que deveria. Fazia o que queria, vivia como queria, sem prestar contas a ninguém.

Não me orgulho de quase nada desse período. Mas era quem eu era, e não tem como mudar o que já foi.

Numa festa numa clareira perto da cidade, havia bebido mais do que nunca havia bebido na vida. Perdeu o fio, perdeu o juízo, perdeu a memória. Na manhã seguinte sabia que algo tinha acontecido pela expressão dos amigos, mas não sabia exatamente o quê. Não queria saber, o que era uma diferença importante.

Dois meses depois, conheceu Laura. Minha mãe.

Foi amor à primeira vista. Eu sei que parece clichê, mas foi exatamente isso. Olhei pra ela e soube. Mudei. Não de um dia pro outro, não sem esforço, mas mudei — porque tinha encontrado algo que valia a pena ser melhor pra ter.

Quase um ano de namoro. Os meus avós maternos exigiram tempo pra ver se ele era de confiança. E ele querendo provar que era.

E então, quando tudo parecia estar se encaixando no lugar certo…

Eis que chegou na minha porta uma jovem. Tinha entre vinte e vinte e cinco anos. Trazia um bebê nos braços. Cinco meses de vida. E disse que aquela criança era minha.

Parei de ler.

Olhei pra cima por um segundo, pro teto do quarto, enquanto a informação se assentava.

Continuei.

O pânico que tomou conta do meu pai naquele momento era palpável mesmo através das palavras escritas meses ou anos depois. O que vai acontecer com Laura. Com os sogros. Com o casamento que estava sendo construído tijolo por tijolo. Com a vida que finalmente estava tomando uma forma que fazia sentido.

E então veio a parte que meu pai chamou de "o pior que fiz".

Em vez de ouvir. Em vez de olhar para aquele bebê. Em vez de admitir sequer a possibilidade — ele a expulsou.

Disse que aquele filho podia ser de qualquer um, porque naquela festa não faltou "todo mundo com todo mundo". Disse que não queria saber. Que ela estava tentando estragar sua vida. Que fosse embora e não voltasse mais.

Não olhou pro rosto da criança.

Não deixou a possibilidade existir por um segundo sequer.

Fui um canalha. Não tem outro nome. E vivo até hoje com isso. Só que chegar a essa conclusão depois que o estrago foi feito não serve de muita coisa.

A carta continuava. Contava que anos depois a mulher tinha mandado uma caixa — a caixa que eu tinha nas mãos. Com um sapatinho vermelho, roupinhas de aniversário, fotos, lembranças das festinhas do menino que cresceu sem o pai. E uma carta dela, também guardada ali dentro, que meu pai dizia que eu deveria ler também.

Tentei encontrá-la. Fui ao endereço que constava no pacote. Mas ela tinha se mudado pra outro estado. Não descobri pra qual. Perdi a chance de me redimir, mesmo que parcialmente.

A carta terminava assim:

Filha, esse segredo é seu agora. Você tem um irmão em algum lugar do mundo — um meio-irmão, filho de uma noite que eu mal lembro e de uma mulher que agiu com mais dignidade do que eu merecia. Não sei onde ele está. Não sei como encontrá-lo. Só sei que ele existe, que nunca tive a chance de pedir desculpas, e que isso vai comigo pro túmulo.

Eu quis te poupar disso por muito tempo. Quis morrer sem te contar, deixar esse segredo comigo. Mas você merece saber. Você merece a verdade, mesmo que seja essa.

Me perdoe se puder. E se não conseguir perdoar, ao menos tente não me odiar.

Te amo pra sempre.

Seu pai imperfeito — João

Dobrei as folhas devagar.

Uma vez, duas vezes. Com cuidado excessivo, como se o papel fosse mais frágil do que era, como se precisasse de mim pra se manter inteiro.

Quando levantei os olhos, meu pai já não estava mais aqui.

Os olhos fechados. A respiração parada. A mão na minha, que até um momento atrás tinha aquela pressão fraca mas presente de quem ainda está lutando pra continuar — agora estava quieta, afrouxada, como quando você solta alguma coisa que segurou por tempo demais.

Fiquei assim por um tempo. Não sei quanto — o tempo tinha ficado sem referência.

A mão do meu pai estava na minha, mas já iria começar a esfriar.

Só saí do transe quando minha mãe entrou no quarto. Ouvi o som da porta, depois os passos, e então o desespero dela quebrou o silêncio de uma forma que me trouxe de volta ao mundo de um golpe só.

Com movimentos que meu corpo fez no piloto automático, juntei todas as folhas, guardei tudo dentro da caixa, fechei. Abracei minha mãe com a caixa presa contra o meu peito.

O segredo do meu pai tinha passado pra mim.

Ia ser meu agora.

Só meu.

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