Larissa
Acordo com o cheiro de hospital antes mesmo de abrir os olhos.
É aquele cheiro inconfundível — desinfetante misturado com ar condicionado frio, com algo levemente adocicado que não tem origem identificável. Já estive em hospitais antes. Sei o que esse cheiro significa: que o mundo lá fora parou de existir por um tempo, e aqui dentro só existem máquinas, monitores e o som baixo de passos que vêm e vão no corredor.
Demoro alguns segundos antes de me mover. O teto branco me confirma onde estou. Uma agulha fininha presa no meu braço esquerdo, presa com esparadrapo cor de pele. O frio nos pés. Os lençóis de um branco desbotado que só hospitais têm. A luz fria do teto que não tem hora — podia ser manhã, tarde, ou madrugada, e aquela luz seria exatamente igual.
Então percebo.
Tem uma mão segurando a minha.
Quente. Firme. Presente do jeito que só uma presença real consegue ser — não o presente descuidado de quem está distraído, mas o presente atento de quem escolheu estar ali.
Viro o rosto devagar, com mais cuidado do que imagino ser necessário, como se meu corpo soubesse antes de mim que qualquer movimento brusco pode quebrar alguma coisa frágil que ainda não identifiquei.
Gabriel está adormecido na cadeira ao lado da maca. A cabeça levemente inclinada pro lado, os ombros largos curvados pra frente, a respiração lenta e regular de quem dormiu ali sem planejamento — foi pegando no sono enquanto vigiava, e simplesmente ficou. Os dedos dele estão entrelaçados nos meus como se, mesmo dormindo, tivesse medo de me perder.
Fico olhando para ele por um tempo que não consigo medir.
Gabriel. Com toda a sua seriedade silenciosa, com aquele jeito de cuidar sem anunciar. Aqui. Segurando a minha mão enquanto dorme numa cadeira de hospital que com certeza é desconfortável, com aquela postura que vai fazer ele acordar com dor no pescoço.
A memória volta em fragmentos — do jeito que memórias voltam quando o corpo esteve tão perto do limite que a mente resolveu poupar energia e guardou as coisas em camadas.
O jantar. A mesa posta com cuidado que Gustavo sempre tem pra essas coisas. As velas. O vinho que eu quase não bebi. A conversa que começou sobre nada e foi ficando mais funda sem que eu percebesse quando cruzou a linha do superficial pro essencial.
O mar. A brisa que eu senti na pele quando fomos até a varanda. A sensação de que o Rio de Janeiro inteiro estava embaixo de mim naquele momento — barulhento e lindo e assustador como sempre foi.
E as palavras de Gustavo. A voz dele baixa, séria, sem enfeite. A probabilidade.
Fecho os olhos de novo.
Não por fraqueza. Mas porque ainda não sei como olhar para o mundo — para Gabriel dormindo ao meu lado, para a agulha no meu braço, para a luz fria do teto — sabendo o que sei. Ou o que posso saber. Ainda não tenho certeza. Essa é a parte que me assusta mais do que qualquer outra coisa: a incerteza. O espaço entre o que foi e o que pode ter começado sem que eu soubesse.
Naquela noite, enquanto o oceano cantava lá embaixo e Gustavo me olhava como se eu fosse a coisa mais real que ele tinha visto em muito tempo, será que meu destino foi traçado sem que eu percebesse? Será que foi ali, naquele momento de jantar e vinho e brisa e conversa, que tudo mudou de direção?
Dentro de mim pode estar a resposta de uma noite que eu jamais vou esquecer.
E agora?
Como uma pessoa recomeça quando ainda não sabe ao certo o que terminou?
✦ ✦ ✦
Interior de Minas Gerais, 2007.
Serra acordava devagar nas manhãs de semana letivo.
As ruas de paralelepípedo recebiam a luz do sol em camadas — primeiro as pontas das telhas, depois as janelas, depois o chão onde as crianças ainda não tinham chegado mas chegariam em breve. A padaria da esquina já estava aberta. O sino da igreja soava uma vez, como um lembrete suave de que o mundo continuava girando.
Era nesse ritmo que eu me movia toda manhã, e aquela manhã não deveria ter sido diferente de nenhuma outra.
— Mãe, vou indo! — gritei já na porta, as sandálias na mão e a mochila com o zíper meio aberto, que eu ia fechar no caminho como sempre fazia. — Estou atrasada!
— Larissa! — A voz da minha mãe cortou o ar pela janela da sala antes que eu chegasse ao portão. Tinha aquela tonalidade específica — não de raiva, mas de aviso. — Volta aqui, menina. Seu pai não está bem hoje. Falta de ar de novo.
Parei na calçada.
Coloquei as sandálias nos pés. Respirei fundo. Voltei.
Subi os dois degraus da varanda, atravessei a sala com o cheiro de café passado e de flores artificiais que minha mãe insistia em manter na estante, e parei na entrada do quarto dos meus pais.
Meu pai estava recostado nos travesseiros empilhados — sempre precisava de dois, às vezes três, desde que o enfisema tinha piorado e a posição deitada ficou difícil. O peito dele subia e descia com um esforço que você só percebia se soubesse procurar, mas eu sabia procurar fazia tempo. Aprendi a ler aquele ritmo como quem aprende a ler o tempo — por necessidade, porque a alternativa era ser pega de surpresa.
Minha mãe se levantou quando me viu entrar. Saiu sem dizer nada. Nos deixando a sós, como sempre fazia nesses momentos. Ela sabia que existia uma linguagem entre meu pai e eu que precisava de privacidade pra funcionar direito.
Sentei na beira da cama. Peguei a mão dele — já mais fina do que um ano atrás, os ossos mais visíveis, a pele mais translúcida como se o tempo estivesse tornando-o gradualmente menos sólido.
— Não precisa ficar, querida. — A voz saiu rouca, mas o sorriso chegou antes das palavras. Sempre foi assim com ele. O sorriso chegava primeiro. — O que eu quero é que você vá à escola.
— O senhor está com falta de ar, pai. Posso faltar. Já fiz todas as provas, já passei de ano.
— Pode. — Apertou minha mão. — Mas não vai.
Olhei para ele por um momento. Para o rosto que eu conhecia melhor do que qualquer outro rosto no mundo — as rugas ao redor dos olhos que apareciam quando ele ria, os cabelos que tinham ficado mais brancos nos últimos dois anos, o sulco entre as sobrancelhas que só aparecia quando estava pensando em algo sério.
Ele estava pensando em algo sério.
— Quero que você me prometa uma coisa, Larissa.
— Pai...
— Me deixa falar. — Disse com gentileza, mas com firmeza. A firmeza suave que era a marca registrada do meu pai. — Quero que você me prometa que vai seguir em frente. Que vai errar, vai chorar, vai cair. E que vai se levantar mesmo assim, todas as vezes. — Fez uma pausa pra tossir — curta, contida. — Que a sua felicidade não vai depender de ninguém. Que ela vai morar dentro de você, e você vai levá-la pra vida das pessoas que ama, em vez de esperar que elas tragam a felicidade pra você.
As lágrimas queimaram antes de cair.
— Não fala assim. Parece despedida.
— Tudo é despedida, minha filha. — E ele sorriu de novo, com aquele jeito que tinha de rir de si mesmo nas horas mais sérias, como se o humor fosse a única armadura que nunca pesava. — A questão é o que a gente deixa antes de ir embora.
Me abracei a ele com mais força do que eu deveria — com a força da urgência, da criança que ainda morava dentro de mim e não queria crescer o suficiente pra encarar o que estava vendo. Ele me deixou. Pôs a mão no meu cabelo e ficou assim por um tempo.
Quando me levantei, parei na porta e me virei uma última vez. Não sei por quê. Talvez alguma coisa dentro de mim já soubesse que precisava gravar aquele momento.
— Vou te dar muito orgulho, pai. Pode esperar.
— Já tenho. — A voz saiu fininha, cansada, mas inteira. — Vai com Deus, minha menina. E não se esquece: onde eu estiver, estarei do seu lado.
Saí. Fechei a porta com cuidado, como se barulho pudesse quebrar alguma coisa frágil dentro daquele quarto.
E só me permiti chorar quando a porta já estava bem fechada atrás de mim, e os dois degraus da varanda já estavam embaixo dos meus pés, e a rua já recebia a minha sombra misturada com a sombra das outras pessoas que iam e vinham sem saber que dentro daquela casa, naquela manhã de sol, alguma coisa importante estava terminando.
Fui para a escola.
Aprendi coisas que não lembro mais.
E quando voltei, a tarde tinha um jeito diferente.