AMÉLIA COBALTOCosturar sempre foi meu refúgio.Desde menina, quando minha mãe me empurrava para a sombra do alpendre com um punhado de linhas e um pano qualquer, dizendo que pelo menos aquilo eu precisava saber fazer. O que era ironia, porque costurar nunca foi um “pelo menos” para mim — foi um mundo inteiro. Um lugar onde eu podia mandar, decidir, criar, existir.Agora, sentada no banco baixo perto da janela do quarto, com o sol da tarde batendo suave nas minhas mãos, percebo que faz tempo que não sinto essa paz.A casa anda cheia de expectativas.De olhares.De silêncios que pesam.E a costura… bem, ela me mantém respirando.Hoje começo o que deveria ser o meu enxoval.A palavra pesa no ar. Tem cheiro de futuro, mas também de pressão.Dobro o tecido branco sobre o colo e passo os dedos devagar por ele. Linho bom, tecido firme, comprado por Afonso sem que eu pedisse. Quando ele me entregou o pacote, apenas disse:— Se vai costurar o que é seu, que seja com o melhor.Eu não soube res
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