Eu soube que algo estava errado antes mesmo de entender o quê. Não foi um pensamento claro, nem uma conclusão lógica, mas uma sensação incômoda que começou no estômago e subiu devagar, apertando o peito, como se o meu corpo tivesse percebido antes da minha cabeça que eu estava prestes a atravessar uma linha da qual não havia volta.A casa estava igual. O corredor, a luz filtrada pelas janelas altas, o cheiro de madeira e café antigo. Nada fora do lugar. Ainda assim, havia um peso estranho no ar, uma expectativa que não combinava com uma manhã comum. Eu caminhei até o escritório sem pressa, tentando ignorar a inquietação, repetindo para mim mesma que aquilo era só cansaço acumulado, noites mal dormidas, paranoia de quem vive há tempo demais cercada de segredos que não lhe pertencem.A porta estava entreaberta.Empurrei com cuidado e o vi de costas, inclinado sobre a mesa, os ombros tensos sob a camisa clara. Havia papéis espalhados, pastas abertas, fotografias que eu reconheci antes me
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