Ele começou pelo que sempre fica oculto quando a história é bem contada demais. Não houve introdução elegante nem tentativa de suavizar o impacto. Ele falou como quem arranca um curativo antigo, rápido, direto, sabendo que a dor vinha de qualquer jeito.
Tudo começou antes de eu chegar. Antes do meu nome aparecer em qualquer registro oficial, antes de alguém me observar de longe fingindo coincidência. Existia um problema, um núcleo de decisões tomadas no escuro, uma cadeia de interesses que precisava de alguém fora do sistema, alguém que não levantasse suspeitas imediatas. Alguém como eu.
Enquanto ele falava, eu não interrompi. Fiquei parada, braços cruzados, sentindo cada palavra se encaixar com memórias que até então pareciam soltas demais para fazer sentido. As perguntas que surgiam não vinham com indignação pura, mas com um desconforto crescente, como se a verdade estivesse reorganizando o meu passado à força.
Eu não fui escolhida por ser especial. Fui escolhida por ser improvável.