O silêncio da capela do Hospital Porto Dias era pesado, saturado pelo cheiro de cera de vela e pelo mofo sutil dos bancos de madeira antiga. Dimitri Klines estava parado diante do altar, a figura de um homem que o mundo conhecia como implacável, mas que agora parecia apenas um resto de si mesmo. Pela primeira vez em décadas, ele sentiu uma necessidade visceral, quase primitiva, de dobrar os joelhos. Não por devoção, mas por um peso que a arrogância não conseguia mais carregar.Ele olhou para a cruz limpa no altar e as memórias o atingiram como estilhaços. Lembrou-se da última vez que estivera em solo sagrado: uma manhã de domingo ensolarada, o cheiro de sabonete fresco, a mãe penteando o cabelo dele e de Demétrio para trás, insistindo em roupas brancas que brilhavam sob o sol de Belém. O pai, exausto após uma noite de plantão, estava lá, segurando a mão da esposa. Era a imagem de uma paz que seria assassinada horas depois.Naquela mesma noite, o branco das roupas deu lugar à escuridão
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