Capítulo quatro

“Será que Deus pode me ouvir? Só quero agradecer por tudo aquilo que consegui”. Ivo Mozart

Aquele hambúrguer com aquela Coca-Cola geladinha estava muito bom! Aliás, estava mais que bom, estava divino, digno de um deus da Grécia! Por que eu tinha me privado disso esses anos todos?

O telefone começou a tocar insistentemente. Atendi com a boca cheia e um sorriso nos lábios.

— Fala, Mônica, o que quer?

— Desculpe, John, é que Brian e Carter chegaram. Podem entrar?

— Claro, deixe eles entrarem. Nem precisava ligar para falar isso.

Ok, mas é que você está estranho hoje, pensei que... — Titubeou. — Está tudo bem? — Abaixou o tom da voz. — Por que eles estão vestidos assim?

— Sim, claro, está tudo bem, relaxe. Mande eles entrarem logo, por favor.

Encerrei a chamada, e em poucos segundos eles entraram, carregando uma tralha imensa. Sorri ao vê-los.

— Caras, estão ridículos vestidos assim! — Soltei uma gargalhada intensa que se perdeu na minha garganta quando eles olharam para mim.

— Hambúrguer de café da manhã? — Carter franziu o cenho.

— Coca-Cola? — Brian disse, tomando o copo da minha mão e tomando logo após, e em seguida soltou um grande e enorme arroto. — Desculpe, estava com sede.

— Tudo bem, Brian. Eu estava com vontade. Algum problema, Carter? — Dei uma mordida no meu lanche, encarando ele.

— Não, não. — Ele disse, balançando a cabeça, mas sabia que ele estava achando estranho.

Dei de ombros.

— Bem, deixando de papo furado, toma sua roupa, veste para reunião.

— Está tudo certinho?

— Sim. — Carter pigarreou. — Tudo certo. — Ele deu um longo suspiro, passou as mãos pelas têmporas e olhou para a janela.

— O que foi, cara?

— Nada... sei lá, talvez... — Chutou o chão, olhando para o mesmo.

Brian suspirou. Eu sabia que ele queria falar algo, mas preferiu o silêncio. Ele estendeu a mão e entregou a mim a roupa. Dei minha última mordida no hambúrguer, um gole na coca e fui trocar de roupa.

Demorei um pouco me trocando. A roupa parecia ser complicada, cheia de babados e frufru, o que me deixava perdido.

Olhei-me no espelho assim que terminei de me vestir. Suspirei pesadamente. Será que o que eu ira fazer era uma completa loucura? Será que era o certo? Acho que se papai estivesse vivo e visse o que eu ia fazer, com certeza teria um ataque cardíaco.

Dei de ombros e sorri. Pela primeira vez eu faria o que eu tinha vontade, e me perguntava por que eu havia esperado tanto tempo para fazer isso. Por que havia deixado minha vida tomar esse rumo?

Batidas na porta me tiraram daqueles pensamentos.

— Vamos lá, está na hora, os velhos estão esperando a gente na sala de reuniões! — berrou Brian.

— Já estou indo.

Encarei no espelho.

Digo de verdade: pela primeira vez eu estava sendo quem eu queria ser! Pela primeira vez minhas vontades não ficariam só nas vontades, pela primeira vez pensaria mais em mim do que nos outros, pela primeira vez em todos esses anos eu sorri de verdade!

Saí do banheiro me sentindo um completo idiota, e só pirou quando vi os dois rindo tanto, que chegaram a chorar.

         — Você está ridículo, John. — Carter começou a apontar para mim.

         — Mais que ridículo, está um completo idiota.

         — Acho que vocês não se olharam no espelho, não é mesmo, meninos? — Apontei para um grande espelho num canto da sala.

Eles se olharam e começaram a rir mais ainda.

         — Vão pirar quando virem a gente. — Brian falava, com um brilho no olhar.

         — Sim, vão. Têm certeza que querem fazer isso? John, tem certeza dessa sua decisão?

Quando Carter abriu a boca, todo o entusiasmo e o clima de brincadeira evaporaram. Eu achava que ele não quisesse participar, que achava loucura.

         — Claro que sim, mais que tudo! Não vão se arrepender depois... digo, depois que eu morrer? Eu não quero obrigar vocês a fazerem nada. Se quiserem, é por livre e espontânea vontade.

         — Tira isso da cabeça, cara, você não vai morrer! — Carter brigou comigo. — E outra: tudo o que eu mais quero é te ver feliz, cara, e se isso te fizer feliz, mais que dentro.

         — Não mesmo! Você não vai morrer, e eu também nessa. — Brian sussurrou mais alguma coisa que mais pareceu uma prece.

         — Não se engane, eu vou sim! Mas agradeço do fundo do meu coração vocês estarem nessa comigo. Vamos parar de papo furado e ir fazer o que a gente tem que fazer.

         — Vamos. — Eles disseram, animados, e aquele tom de velório sumiu.

         Tiramos uma foto. Queria registrar para eles esses momentos de loucuras. Em seguida, sorrindo, saímos da sala.

Todos do nosso andar olhavam para a gente e riam. Está bem, confesso: nessa hora me senti ridículo de ter vestido aquilo,, mas quer saber? Dane-se!

Respirei fundo e continuei a andar.

— Mas, o que é isso? — Mônica corria atrás da gente, espantada. — John, vá se trocar, tem uma reunião importante! — Ela segurou firmemente o meu braço.

Mônica me olhava com um olhar sexy. Aquela voz mandona que somente ela conseguia fazer... Cheguei a dar dois passos em direção a ela, mas depois balancei a cabeça e sorri, divertido.

         — Vem participar da reunião também, você precisa escutar o que eu tenho a falar.

         — Está doido, John?! Está com febre? Já sei, só pode estar doente! Claro que está! Pediu hambúrguer de café da manhã. Vem, eu te ajudo, vou trocar você. Tem um reunião importante, é nela que você vai decidir sobre algumas franquias e...

         — Mônica, pare. — Ela me soltou de imediato. — A ideia de você me trocar é tentadora demais. Se sair com você aqui agora, eu não vou para nenhuma reunião, se é que me entende. — Lancei um olhar para as suas pernas compridas e em seguida para o pedaço de pano que ela insistia em chamar de minissaia, mordendo os lábios. — Eu quero decidir minha vida, Mônica, eu não posso mais ser quem eu sou, preciso da ajuda de vocês. — Parei e a encarei, segurando suas mãos. — Por favor, confia em mim? — Ela me olhava com expressão assustada

         — Droga!

         — O que foi?

         — Eu sabia que tinha algo errado com você. — Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

         — Esquece isso, por favor, confia em mim. — Ela me olhava no fundo dos olhos, e dava para ver o desespero que sentia.

         — Espero não me arrepender. Se você fizer bobagem, não vou consertar. — Ela soltou as minhas mãos e passou no terninho, como se quisesse tirar algum pelo invisível.

         — Não vai, te garanto. — Dei um beijo na testa dela.

         — Dá para parar com o clima de eu vou pegar você? — Brian falou, rindo enquanto fazia gesto de aspas durante as palavras pegar você. — Temos um circo montado, e eu quero o ver pegar fogo.

         Paramos à porta da sala de reuniões. Segurei a maçaneta da porta. Meu coração batia acelerado. Será que estava fazendo a coisa certa? Será que era assim que eu tinha que acabar com tudo? Será que a minha vida tinha valido a pena?

Entramos na sala, eu na frente, Brian e Carter atrás, Mônica em seguida. A cara de cada um dos membros da diretoria era de dar medo, mas mesmo assim, criei coragem e comecei a dedilhar a viola, o Carter a agitar os maracás, e o Brian... bem, o Brian tentou dançar, se bem que aquilo era tudo, menos dança.

La Cucaracha, La Cucaracha, Ya no puede camiñar. Porque no tiene, porque le falta pata para camiñar.

         — Mas, que palhaçada é essa aqui?! — Fabrício batia na mesa, se levantando furioso.

         — Não é palhaçada, tirei meu sombreiro e joguei na mesa. — Ele rodopiou até chegar à outra ponta, parando perto da minha cadeira.

         — Como não?! Imagina o desgosto de seu pai, vendo essa cena ridícula de vocês!

— Vou me retirar, palhaçada mesmo — disse um.

         — Ridículo — disse outro.

         — Eu ainda mando aqui! Cada um sente-se no seu lugar. Vão me escutar, querendo ou não; e Senhor Fabrício, não meta meu pai nisso, e nem ouse mencionar o seu nome, sua boca é suja demais.

         — Você não manda sozinho na empresa. — Ele disse, se levantando e socando a mesa.

         — A empresa é herança do meu pai, e eu ainda tenho a maioria das ações dessa joça, faço o que quiser. Se eu quiser doar, vender e ir vender sorvete na praia, eu vou fazer, com ou sem consentimento de vocês. Não se esqueçam, tenho cinquenta e um por cento das ações. Agora se sente, por favor! — falei, bravo.

         Todos se sentaram, menos Mônica, que fez menção de sair.

         — Fica, Mônica, você precisa escutar o que eu tenho para falar.

         —Mas...

         — Sem mas. Sente-se, estou mandando, que saco! Por que ninguém me dá ouvidos!? Será que tenho que ser desagradável?!

         Ela se sentou, então comecei a andar pela sala, olhando bem para cada membro da diretoria. Não vou negar, ver a cara deles de putos comigo era o melhor de tudo. Meu íntimo estava se sentindo vitorioso e a minha vontade de rir era muita, mas me contive.

 — Passei a vida aqui enclausurado nessa empresa, dando desde cedo meu sangue para que tudo funcionasse.

         — Não foi só você, meu jovem.

         — Eu estou falando, meu caro Senhor, dá para fechar o bico pelo menos uma vez?

Encarei-o, bravo. Brian e Carter riram. Lancei para eles um olhar de censura, e logo pararam.

A sala ficou em completo silêncio. Olhei a janela o escritório, que ficava no octogésimo sexto andar. A vista era incrível de qualquer janela dali. Fechei os olhos e pensei.

         — Como ia dizendo... passei minha adolescência aqui. Comecei, como todos sabem, como motoboy, fazendo faxina, limpando a privada onde seus bundões cagavam... — Não me contive, tive que rir. — Nunca reclamei de nada, sempre fiz tudo certo, sempre fiz tudo o que me mandavam. Aos poucos fui crescendo dentro da própria empresa. Eu tenho orgulho disso, porque sempre me esforcei em tudo o que eu fazia. Mas hoje eu percebo, perdi minha vida em um patrimônio que decerto ficará para os filhos dos senhores que vêm aqui uma, duas vezes por semana, passa duas horas e não veem a hora de irem embora, querem apenas saber dos lucros, enquanto eu... eu me mato de trabalhar todo santo dia, e como eu me arrependo disso. Eu nunca tive tempo de viver minha vida, nunca tive tempo de namorar sério, constituir uma família, e decerto não farei isso. — Cochicho na sala.

         — O que está acontecendo, John? É jovem, ainda tem vinte e seis anos apenas. — Marcos me encarava com seus olhos grandes, que tinham um tom de verde melancólico.

Ele era um dos acionistas mais velhos da empresa, fora nele que papai confiara a empresa até eu poder assumir.

         — Sim, apenas vinte e seis anos, e com um tumor no cérebro, onde não se pode operar. O médico me disse que se eu me internar, tenho um ano de vida; se não, tenho algumas semanas apenas.

O espanto foi geral. As bocas abertas em forma de O eram no mínimo hilário, se não fosse a gravidade da situação.

— Sabem o que é ter apenas alguns meses de vida? Sabem o que é pôr a porcaria da cabeça no travesseiro e pensar que posso não abrir meus olhos nunca mais? Sabem como me sinto, como dói e como estou desesperado? Por isso estou aqui, vestido de Mariate, e fiz essa cena patética, ridícula, para chamar a atenção de vocês. Eu não quero passar o resto dos meus dias nessa sala com os Senhores. Desculpem, não é nada pessoal, mas eu quero ser livre, quero me libertar de tudo, quero viver, quero beber até cair, quero chorar de tanto rir, quero fumar aquele cigarrinho do capeta, quero fazer loucuras que nós jovens fazemos e que eu nunca fiz; mas eu sei que se ficar aqui, eu nunca poderei fazer isso, e daí a minha vida vai ter perdido completamente o sentido, e eu vou me arrepender amargamente das loucuras que não cometi.

         — ...

         — Deixa-me terminar. Depois o Senhor fala... — Suspirei. — Eu quero ser livre, quero fazer as coisas que tenho vontade, sem me preocupar com isso. — Olhei para Mônica. — Mônica, como minha secretária, vou te dar dois meses de férias remuneradas. Pode viajar para onde você quiser, que a empresa vai pagar. Vai viver sua vida, você é nova, não espere, a espera pode acabar de uma hora para outra e você pode nunca fazer as coisas que tem vontade. — Ela chorava, e eu voltei a dirigir a atenção a todos. — O José, meu motoboy, é para continuar por aqui até quando ele quiser, e quando ele decidir sair, será com todos os direitos dele. Mônica, na minha mesa tem uma relação de funcionários, que eu quero que sejam remunerados pelo seu esforço, e para eles também cabe ficar até quando quiserem, já está no meu testamento. Brian e Carter vão sair de viagem também, espero que uma bem doida. Aos demais... não esperem para fazer o que desejam, a vida passa depressa, não guardem seus sonhos em uma gaveta, essa gaveta pode fechar e nunca mais se abrir. Marcos, você vai ficar no meu lugar.

         Peguei meu chapéu, coloquei na cabeça e sorri.

         — Vamos, Brian e Carter, temos uma viagem para fazer.

         — John, John, volte aqui! Vamos conversar!

         — Desculpa! Não posso, já perdi tempo demais.

         Saí da sala tocando a mesma música que eu havia entrado tocando. Saímos dançando e tocando por onde a gente passava. As pessoas olhavam a gente. No começo fiquei um pouco envergonhado, mas depois me soltei, até brincava com as pessoas na rua. Algumas davam moedas.

Fomos para casa assim, a pé, sorrindo, feliz, coisa que há tempo eu não me sentia: feliz. FELIZ...

Chegando em casa, sentei no sofá e sorri.

         — Puta merda, falou bem demais, hein, John!

         — E a cara de cocô do Fabrício foi foda!

— Foi, sim! — Sorriu.

         — Eu nunca te vi assim, John, tão autoritário.

         — Às vezes é preciso, Carter. — Dei um longo suspiro satisfeito. — E aí, o que vamos fazer hoje?

         — Bem, a mala está arrumada já.

         — Não...

         — Está sim.

         — Vocês não perdem tempo, hein, rapazes! Pra onde a gente vai?

         — Sei lá, para onde nossos pés nos levarem — comentou Brian.

         — Está brincando, não é?

         — Sim — disse, gargalhando

         — Vamos para o México — anunciou Carter —, afinal, nossa viagem tem que começar por algum lugar.

         — Vamos nos trocar, senão, perdemos o avião.

         — Cara, repito, vocês não perdem tempo, hein?

         — Claro que não, você acha mesmo que íamos ficar aqui hoje? Mas, nem fodendo! Levanta a sua bunda branquela e gorda daí e vai se trocar! Daqui a no máximo dez minutos, voltamos.

         — Isso aí!

         Eles saíram correndo para os seus apartamentos, e eu fiquei alguns segundos sentado ali. Fitei o teto e pensei. Era inevitável, eu não tinha muito tempo para cumprir a lista toda. Levantei-me, troquei-me, e em dez minutos estava pronto. Eles chegaram, então peguei minha mala, apaguei a luz, respirei fundo, tranquei a porta e parti. Partir para talvez uma viagem só de ida, partir para ir viver minha vida.

A ida até o aeroporto foi legal. Brian, como sempre, sendo babaca, e eu ria muito. O que faria sem esses meus amigos bocós?

Leia este capítulo gratuitamente no aplicativo >

Capítulos relacionados

Último capítulo