Valeria observava o relógio, aquela peça valiosa; por um momento, quis vendê-lo. Quanto dinheiro poderia conseguir por algo assim? O suficiente para pagar as contas, para respirar por um mês, talvez mais. A ideia, tão doce quanto perigosa, cruzou sua mente, um lampejo sombrio em seu momento de fraqueza.
Mas sua honestidade, enraizada mesmo nos cantos mais profundos de seu desespero, rebelou-se. Seria um roubo, um ato que iria contra tudo o que ela era.
— Não — murmurou, balançando a cabeça como se quisesse espantar o diabo.
Com um suspiro, guardou o relógio em um lugar que acreditou ser seguro, longe de olhares indiscretos, embora morasse sozinha. No final, pegou uma bolsa que costumava usar para sair, a mesma que sempre levava consigo, e deslizou o relógio para dentro, escondendo-o entre outros objetos pessoais. Ali estaria a salvo, invisível para qualquer um.
Valeria tentou retomar sua rotina, mas o sabor amargo da humilhação a perseguia. No entanto, a vida não esperava, e a necessidade econômica a obrigava a seguir em frente. Enviou mais currículos, buscando qualquer oportunidade, por menor que fosse.
Enquanto isso, Mark e Michael reportavam a Alexander naquela manhã. O telefone de Alexander tocou.
Era Mark.
— Senhor, nós a encontramos. — A voz de Mark soava tensa, mas com um matiz de alívio. — Levou mais tempo do que o esperado, mas a rastreamos.
Alexander endireitou-se na cadeira, um sorriso sombrio surgindo em seus lábios.
— E então? Quem é a nossa ladra escorregadia?
Mark começou a recitar as informações: o nome completo de Valeria, seu endereço, até mesmo seu e-mail e alguns detalhes sobre sua situação econômica, obtidos através de fontes menos convencionais.
Alexander ouviu com atenção, cada dado confirmando sua hipótese de que se tratava de alguém desesperada, alguém que "precisava" de seu relógio. Uma ideia maquiavélica começou a se formar em sua mente.
— Excelente trabalho, Mark — lançou Alexander com uma frieza calculada. — Agora, preparem um e-mail. Um convite para uma entrevista. Quero que a destinatária seja Valeria. E quero que a empresa seja o Grupo Empresarial Baskerville.
E então, um dia, o e-mail de Valeria vibrou. Uma nova mensagem, com um assunto formal e o logotipo de uma companhia desconhecida: "Grupo Empresarial Baskerville". Valeria franziu o cenho. Baskerville? O nome era tão ostensivo e longo que lhe era completamente estranho. Abriu o e-mail com cautela. Era um convite para uma entrevista de emprego.
A princípio, uma onda de surpresa a invadiu. Não se lembrava de ter enviado seu currículo para aquela empresa em particular. Sua mente repassou a lista interminável de candidaturas que tinha enviado nas últimas semanas. Poderia ser que, em seu desespero, o tivesse feito. No meio da confusão, uma centelha de esperança acendeu-se em seu peito.
Talvez, afinal, o universo estivesse lhe dando outra chance. Agarrou-se a essa ideia com todas as suas forças. Desta vez, sim. Desta vez daria certo.
Na manhã seguinte, o dia da entrevista, Valeria vestiu-se com esmero, escolhendo sua melhor roupa. O nervosismo revirava seu estômago, mas também havia uma decisão marcada em seus olhos. Ao chegar ao endereço indicado, seu fôlego travou na garganta. O edifício erguia-se imponente, um monólito de vidro e aço que se perdia entre as nuvens. Era um luxo que nunca antes tinha presenciado, mais imponente que qualquer outro escritório onde já estivera. O saguão era uma sinfonia de mármore polido e arte contemporânea.
— É... prestigiado demais — murmurou para si mesma, sentindo-se repentinamente pequena e insignificante.
Mas ela se encheu de coragem. "Eu consigo desta vez", repetiu para si mesma. "Sou capaz".
Subiu em um elevador panorâmico, que a levou a um andar ainda mais deslumbrante. Outros candidatos, com roupas impecáveis e expressões sérias, esperavam sua vez. Finalmente, chegou o momento. A secretária pronunciou seu nome e Valeria, com o coração batendo descontrolado no peito, avançou em direção à porta.
Entrou na sala de entrevistas com o olhar baixo, o peso de seus nervos e da vergonha passada ainda sobre seus ombros. Havia três pessoas sentadas atrás de uma longa mesa de mogno. Levantou lentamente a vista e, naquele instante, o mundo pareceu parar.
Seus olhos verdes, carregados de apreensão, encontraram um par de olhos acinzentados que a olhavam fixamente, intensos e frios como um bloco de gelo. Era ele. Alexander. O homem com quem tinha passado a noite.
O sangue gelou em suas veias. Seu rosto cobriu-se de um rubor ardente; a vergonha disparou, não apenas pela situação incômoda, mas pela lembrança vívida de sua vulnerabilidade, de seu desespero, de seu abandono naquela noite. Alexander, com uma expressão pétrea que não revelava nem um pingo da diversão que demonstrara na boate, a observava.
As perguntas começaram. Os outros entrevistadores falavam, mas Valeria mal os ouvia. Seu olhar continuava preso ao de Alexander, que permanecia em silêncio, sua presença dominando a sala. Quando chegou sua vez, o ar ficou ainda mais tenso.
Alexander, que obviamente era o diretor da empresa, levantou-se lentamente de sua cadeira; a figura imponente do homem a deixou mais inquieta. Aproximou-se um passo, seus olhos fixos nos de Valeria, um olhar aniquilador que a paralisou.
— Ouçam todos — começou Alexander, sua voz soando com uma autoridade gélida que gelava o sangue de todos os presentes. — Tenho o prazer de apresentar a vocês não apenas mais uma candidata para este cargo, mas também uma ladra.
Valeria sentiu o chão se abrir sob seus pés. Seus olhos se arregalaram em choque, incapazes de processar o que acabara de ouvir. O mundo girou ao seu redor. Alexander, com um sorriso cruel que mal chegou aos seus lábios, continuou.
— Sim, é isso mesmo. Uma mulher que, aproveitando-se de uma situação... conveniente, decidiu se apropriar de algo que não lhe pertencia. E não qualquer coisa, mas um pertence de grande valor pessoal para mim. Um que, por sinal, tenho a intenção de recuperar.
As palavras a atingiram como punhaladas, uma após a outra. Valeria estava impactada, petrificada. Não soube o que fazer, como reagir.
Os olhares dos outros entrevistadores, dos demais candidatos, cravaram-se nela, cheios de julgamento e assombro. Sentia-se exposta, humilhada, esmagada pela crueldade daquele homem que a acusava sem provas.
Então, como um raio, ela se lembrou. O relógio!