Mundo de ficçãoIniciar sessão“Alguns homens não temem amar. Temem o que o amor exige deles.”
Ethan Harrington
Contratar Amélia Clark não foi um erro impulsivo.
Tinha sido uma escolha e escolhas sempre cobram um preço
Havia contratado uma garota que eu tinha acabado de conhecer para se tornar a babá do meu filho. Uma garota da qual passei a noite num motel e por pouco, muito pouco não dormi com ela.
Passo as mãos pelos cabelos, um gesto que faço sempre que estou nervoso ou irritado. Levanto e caminho pelo escritório indo em direção até o pequeno bar e coloco uma dose de uísque. Bebo de uma única vez na tentativa do líquido me provocar um certo alívio. Mas não é isso que acontece.
Sento na cadeira e por um momento fecho os olhos recordando as últimas horas e os últimos acontecimentos.
Lembro da discussão com Noah, de como ele me acusou por não ter impedido a mãe de ir embora. Dele chorando nos meus braços perguntando se ele havia feito alguma coisa errada.
Ver o meu filho sofrendo e não poder dizer a verdade a ele, só me faz ficar ainda mais furioso com Brianna. Como uma mãe tem coragem de ir embora e deixar para trás um garotinho com apenas seis anos?
Por um momento lembro de Amélia. A desconhecida que encontrei no bar. A garota que assim como eu parecia desesperada.
Quando minha mãe me ligou dizendo que Noah tinha ido embora, meu mundo ruiu. Eu posso lidar com a traição de Brianna, mas pensar em perder o meu filho é algo que eu jamais conseguiria suportar.
Novamente uma lembrança invade minha mente.
A maneira que Noah se aninhou nos braços da estranha, como se ali fosse o seu lugar preferido. As palavras dela quando ele disse que me odiava porque eu tinha deixado sua mamãe ir embora.
Não odeie o seu pai, Noah.
A voz dela havia sido baixa, firme, sem acusação. Não como quem defende por obrigação, mas como quem entende a dor dos dois lados.
— Ele não deixou sua mãe ir embora porque quis — Amélia disse, ajoelhando-se para ficar à altura dele. — Às vezes, adultos também perdem batalhas que não conseguem lutar.
Lembro do meu filho fungando, o rostinho manchado de lágrimas, os punhos pequenos cerrados como se precisassem segurar algo para não desmoronar.
— Mas ele não foi embora — Noah respondeu, a voz embargada. — Foi ela.
Amélia respirou fundo antes de responder. Eu vi que ela pensou, sentiu e escolheu as palavras com cuidado.
— E isso não foi culpa sua. Nem do seu pai. Algumas pessoas fogem quando sentem que não conseguem ficar.
Aquela frase me atingiu com força.
Porque não foi dita para mim mas era sobre mim também.
Noah ficou em silêncio.
Depois, lentamente, se aproximou dela. Encostou a testa em seu ombro como se aquele gesto tivesse sido ensaiado por meses. Como se o corpo dela fosse um lugar seguro que ele reconhecia sem entender.
— Ele fica triste — Noah murmurou. — Às vezes eu vejo. Eu não gosto de ver o papai triste.
Amélia passou a mão pelos cabelos dele com cuidado, como se temesse assustá-lo.
— Eu sei — respondeu. — Mas homens tristes também amam. Só não aprenderam como mostrar.
Ali, algo em mim cedeu.
Agora, sozinho no escritório, essa lembrança me atravessa de novo.
A maneira como meu filho se aninhou nela. O jeito como respirou melhor depois. Como se, por algumas horas, o peso tivesse sido menor.
Fecho os olhos.
Mas não é só isso que me invade. É a outra lembrança.
A noite anterior.
O calor do corpo de Amélia contra o meu no quarto escuro do motel. O perfume dela, algo suave, limpo, perigosamente íntimo impregnado nos lençóis e na minha pele. A forma como seus dedos tocaram meu braço sem intenção, e mesmo assim tudo em mim respondeu.
Lembro da pele dela. Macia, quente e perfumada. Do jeito como precisei respirar fundo para não ultrapassar um limite que já estava perigosamente borrado.
Eu poderia ter transado com ela naquela noite. Estava excitado e nós dois queríamos, mas não aconteceu porque ela acabou desmaiando.
Abro os olhos devagar.
Agora, Amélia está na minha casa. Na rotina do meu filho, na linha exata entre o que eu controlo e o que pode me destruir.
Solto um suspiro longo, cansado.
A noite foi como sempre. O calor que se espalhava pelo meu corpo e a dor que voltava sem eu pensar.
Fui à cozinha em busca de algo que aplacasse aquela sensação.
Mas quem chegou enquanto eu segurava a garrafa foi ela.
A mulher que apesar da doçura deixava em mim aquele amargo cheio de desejos que não podiam ser realizados. E que ainda assim, desejos que me traíram.







