Mundo de ficçãoIniciar sessão“Algumas fronteiras não são ultrapassadas com passos, mas com silêncio.”
Amélia Clark
A casa estava silenciosa de um jeito estranho. Não era um silêncio tranquilo, mas um silêncio atento, como se tudo estivesse sempre em alerta.
Meu quarto ficava no corredor leste, próximo ao quarto de Noah e suficientemente distante do escritório de Ethan. Margaret me mostrou o caminho de forma rápida e prática, sem comentários desnecessários, como se naquela casa até o deslocamento precisasse ser discreto e eficiente.
Quando a porta se fechou atrás de mim, encostei a testa na madeira por alguns segundos, tentando estabilizar a respiração.
Eu tinha conseguido.
Um emprego, um teto, um plano mínimo de sobrevivência enquanto o câncer no meu cérebro avançava em silêncio. Mas também tinha entrado na casa de um homem quebrado e de uma criança que parecia carregar o peso do abandono no próprio corpo.
Troquei de roupa devagar. Optei por uma camisola simples, de algodão claro. Queria algo confortável e que me deixasse à vontade, porque aquela noite parecia que seria longa.
Deitei na cama confortável, mas o sono não veio. Meu coração ainda batia acelerado lembrando do pequeno embate que tive com o meu “patrão.” Deus, eu poderia ter colocado tudo a perder, mas ainda bem que isso não aconteceu.
Sorri ao lembrar da pequena mão de Noah sobre a minha. De como seus olhos me disseram coisas que ainda não sabia decifrar. Mas minha mente não parou por aí, traidora como era, ela trouxe a imagem dos olhos dele..
Os olhos de Ethan…
Tão frios por fora e tão barulhentos por dentro.
Virei de lado, abraçando o travesseiro com mais força. Eu não devia estar pensando nisso. Ethan Harrington era o meu patrão e eu estava ali apenas para cuidar de Noah, apenas isso. Virei novamente e meus olhos buscaram o relógio que se encontrava na mesa de cabeceira.
Duas da manhã.
Levantei, descalça, e decidi ir até a cozinha. Um copo de água talvez ajudasse a acalmar o turbilhão dentro de mim. Abri a porta e consegui avistar o corredor escuro, iluminado por pequenas luzes amareladas próximas ao chão. Tentava caminhar sem fazer barulho, mas para mim, cada passo parecia alto demais. Quando dobrei o corredor que levava à escada Ethan apareceu vindo do sentido oposto.
Ele caminhava devagar, estava sem paletó, com a camisa social desabotoada nos dois primeiros botões e com as mangas elevadas. O cabelo estava ligeiramente desalinhado de um jeito perigosamente humano. Mas o que me chamou a atenção, foi o jeito que ele andava. Era um desalinho diferente, um passo pesado acompanhado por um cheiro leve de algo amadeirado… e álcool.
Nós nos encontramos no meio do corredor e nos encaramos como dois estranhos presos no mesmo silêncio.
Paramos e ficamos diante um do outro. Por um segundo, nenhum de nós se moveu.
O olhar dele percorreu meu corpo devagar. Não havia vulgaridade, apenas intensidade como se, pela primeira vez, ele me visse inteira, fora da postura defensiva da entrevista. Mas também havia desejo ali.
Um desejo cru, contido e indecente pelo simples fato de existir. Por um momento, pensei em desviar os olhos, foi quando percebi ainda no seu olhar, algo mais profundo, mais visceral.
Dor.
Uma dor funda, escura, cansada.
— Você também não dorme. — ele murmurou com a voz rouca e ainda mais baixa do que a de manhã.
Senti o ar faltar nos meus pulmões e hesitei por um instante, antes de responder:
— Às vezes… a cabeça não acompanha meu corpo.
Ele soltou um meio sorriso torto e amargo.
— A minha nunca acompanha.
Ele deu um passo à frente e instintivamente, dei um passo para trás fazendo minhas costas tocarem a parede fria do corredor e Ethan percebeu, mas permaneceu perto demais.
Eu conseguia sentir o calor do corpo dele. A respiração acelerada, algo perigoso e profundo vibrando entre nós. Seus olhos azuis me analisaram novamente e dessa vez, não era o CEO que eu via. Via um homem cansado demais para manter todas as máscaras.
— Ele gostou de você — disse, referindo-se a Noah.
— Eu também gostei dele. — respondi.
Algo no olhar dele se partiu, foi discreto, mas reparei pela forma que seu rosto se contraiu, como se aquela informação provocasse dor.
— Ele não gosta de quase ninguém — murmurou. — Nem de mim, às vezes.
— Gosta sim — falei sem pensar. — Só tem medo.
Os olhos dele escureceram.
— Medo de quê?
— De ser deixado.
O silêncio se alongou entre nós.
Então percebi o movimento, lento demais para ser um gesto impensado. A mão dele se ergueu, hesitou no ar, e parou antes de me alcançar. Não houve toque, apenas a proximidade suficiente para alterar minha respiração.
O olhar dele baixou por um instante, breve demais para ser inocente. E foi ali que tudo mudou.
E, naquele segundo suspenso, eu soube que a linha que não deveria ser cruzada não era a que nos separava era a que ainda nos mantinha longe.







