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Capítulo 3 — O Homem que não Enxerga o Próprio Abismo

“Alguns homens aprendem a controlar tudo, menos o vazio que carregam por dentro.”

Amélia Clark

Ethan Harrington não parecia um homem disposto a ouvir.

Parecia um homem acostumado a decidir quem podia ficar de pé diante dele.

Por um instante, o silêncio tomou conta do escritório, pesado o bastante para me intimidar. Eu me sentia pequena diante daquele homem poderoso e daquele olhar intenso que não se afastava do meu.

Ethan não piscava. E eu tinha a estranha certeza de que, se não fosse a maneira como ele me encarava, eu já teria desmoronado ali mesmo, pois aquele olhar intenso, era o que me mantinha de pé.

Havia algo em sua postura que ia além da autoridade. Cada músculo do seu corpo parecia permanentemente em alerta, como se estivesse sempre preparado para um impacto que já havia acontecido e que continuava acontecendo dentro dele. Ele parecia um homem que não relaxava, não descansava, não se permitia existir fora do controle que ele mesmo impunha. 

E, ainda assim, tinha sido exatamente isso que a mulher que ele amava fez. Tinha ido embora e  abandonado tudo.

Puxei o ar devagar, tentando manter o pouco de equilíbrio que ainda me restava.

— Sente-se — ele ordenou, apontando para a cadeira diante da mesa.

Obedeci.

A cadeira era confortável, quase acolhedora, o oposto do espaço frio e intimidador que me cercava. Afundei nela fingindo firmeza, enquanto minhas mãos tremiam fora de vista.

— Antes de começarmos quero deixar claro que a minha decisão não tem nada a ver com o que aconteceu ontem à noite. 

Corei desviando o rosto lembrando do fiasco da noite anterior e de acordar seminua ao lado de um homem arrogante que está prestes a se tornar o meu patrão.

— Lembro que me disse que estava precisando de um emprego. 

— Sim. 

— Me diga Amélia, tem alguma experiência com crianças? 

— Trabalhei três anos em um orfanato. Nove meses como assistente pedagógica.

— Por que saiu?

A pergunta veio direta e precisa, sem qualquer suavidade. 

Eu poderia dizer a verdade. Que meu corpo tinha falhado, que meu cérebro agora abrigava algo que podia me matar, que dentro da minha bolsa estava o verdadeiro motivo de eu não ter sido “dispensada”, mas afastada. Mas, em vez disso, respondi:

— Redução de equipe.

Ele ergueu os olhos, e naquele instante eu soube que ele sabia que eu estava mentindo. Não porque tivesse provas, mas porque homens como Ethan reconheciam mentiras do mesmo modo que reconheciam as próprias cicatrizes.

Ainda assim, não pressionou. Apenas resolveu mudar de assunto, e agradeci em silêncio.

— Sabe cozinhar?

— Sim.

— Dirigir?

— Sim, mas não tenho carro.

— Não precisa. Temos motorista.

O temos soou estranho. Porque ele parecia existir sozinho dentro daquele império.

— E quanto aos limites? — disse, inclinando-se para frente, as mãos unidas sobre a mesa. — Você percebeu que Noah não é uma criança fácil de lidar. 

— Com todo respeito senhor, acredito que o problema do seu filho é porque ele teve que lidar com uma dor muito grande para alguém tão pequeno. 

Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. Talvez porque no fundo, assim como Noah, não eu também estivesse lutando contra meus próprios abismos.

Os olhos dele voltaram a me atravessar. Mas agora não me analisaram, eles tentavam ler o que eu escondia. Meu corpo estremeceu levemente sob aquele olhar.

— O salário será alto. Vai ter direito a um seguro saúde e ficará hospedada na propriedade. Terá um quarto, banheiro e acesso às áreas comuns. Suas funções começam às seis da manhã e terminam quando Noah dormir.

Escutava tudo tentando absorver cada detalhe. 

— Meu filho… — ele fez uma pausa curta. — É um garoto gentil, apenas está confuso. 

Foi ali, numa fresta mínima, quase invisível, que eu o vi de verdade.

Os olhos azuis deixaram de ser apenas frios. Havia dor ali. Uma dor viva, cansada, antiga. Uma solidão tão profunda que parecia ter aprendido a respirar sozinha.

Ethan se levantou devagar, deu a volta na mesa e parou diante de mim, perto demais. Podia sentir o calor do seu corpo grande e o seu perfume invadindo meus sentidos. Mas foi sua voz fria e controladora que me fez estremecer. 

— Quero que fique ciente, senhorita Clark — disse, olhando diretamente nos meus olhos. — Meu filho não precisa de uma mãe.

Aquela frase me atingiu em cheio. Por um momento tentei processar alguma coisa, mas não consegui.

— Isso ele já teve — continuou. — E ela resolveu ir embora. Não quero nenhum tipo de envolvimento, nem laços, expectativas ou afeto fora do que foi acordado. 

Meu coração bateu forte, mas eu não recuei. O que aquele garotinho precisava era exatamente aquilo que o pai não queria que eu desse. 

— Você está aqui para uma função — concluiu. — Nada além disso.

Por um segundo, pensei em abaixar a cabeça. Em concordar e fingir que aquilo não tinha me atingido. Mas então lembrei do toque de Noah. Do abraço sincero, das lágrimas, da dor. 

Ergui o queixo.

— Fique tranquilo, senhor Harrington. — respondi, com a voz calma demais para quem estava sendo intimidada. — Eu não vim ocupar o lugar de ninguém.

Ele estreitou levemente os olhos.

— Mas também não vou fingir que crianças não sentem — acrescentei. — Nem que afeto é algo que se liga e desliga por contrato. 

O silêncio entre nós ficou pesado.

Ethan me observou por alguns segundos a mais do que o necessário. Ele não parecia irritado com a minha resposta e agradeci aos céus por isso. Ele parecia… intrigado. Era como se estivesse reconsiderando algo que não pretendia permitir a si mesmo.

— Você não está aqui para mudar nada — disse, por fim, com a voz baixa e controlada. — Está aqui porque precisa de um emprego e eu de uma babá.

Assenti lentamente.

— Então estamos de acordo — respondi. — Eu sei exatamente o meu verdadeiro papel aqui. 

Os olhos dele se estreitaram quase imperceptivelmente e esse pequeno gesto me fez compreender, que ele havia entendido. 

Passei por ele em silêncio, sentindo o peso daquele silêncio cravar-se entre as minhas costas como um aviso mudo. 

Quando alcancei a porta, minha mão já tocava a maçaneta quando ouvi sua voz novamente, mais baixa e perigosa.

— Amélia…

Meu corpo reagiu antes da razão. Inspirei fundo e virei devagar, sentindo o coração bater em um ritmo que não combinava com a calma que eu fingia sustentar.

Ethan não se aproximou. Não precisou. O olhar dele já estava perto demais.

— Se em algum momento — disse, com a voz baixa demais para ser apenas profissional — você achar que pode… salvá-lo…

Fez uma pausa curta, como se aquela palavra tivesse um peso indevido.

— Não pode.

Sustentei o olhar sem responder.

— Pessoas quebradas — continuou — não precisam de esperança. Precisam de limites.

Por um instante, pensei em  discordar. Em lembrar que Noah já estava quebrado antes mesmo de mim.

Mas compreendi, ali, que aquelas palavras não eram sobre o filho.

Eram sobre ele.

— Entendido, senhor Harrington.

Girei a maçaneta e saí, sentindo o peso daquele homem permanecer no cômodo mesmo depois que a porta se fechou atrás de mim.

Só então percebi.

Ethan Harrington não tinha medo de perder o filho. Tinha medo de que alguém enxergasse o homem que ele se tornou depois da perda e ainda assim decidisse ficar.

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